A JONALISTA |PARTE VIII | CAPÍTULO 8

8.8 – A conexão

Perestrelo pertencia a uma rede internacional de investigadores particulares que colaboravam entre si, umas vezes através da rede oficial, outras através de contactos bilaterais. Isso representava uma grande vantagem, mas tinha também um grande inconveniente. Com tanta gente envolvida, por mais reservados que fossem, “a coisa” acabava por transpirar para o exterior.

«Tens mesmo que correr esse risco?» Perguntou Mónica.

«É a única forma de obter informações da família Kodiat. Na verdade eu pedi informações sobre as cinco famílias que eram acionistas da LTCBK.»

«Mesmo daqueles que já não são acionistas ou que faleceram, como é o caso do Americano?»

«Sim. Não posso correr o risco de deixar pontas soltas.»

Mónica olhou para ele em silêncio. Parecia-lhe que Perestrelo estava a exagerar, mas tinha-se habituado a confiar no instinto dele.

«É possível que isso traga a Lisboa pessoas ligadas às várias famílias, para tentarem perceber o que andas a fazer.»

«Por isso é que eu preciso que consigas informações dos serviços de fronteiras sobre os estrangeiros originários dos países dos acionistas. Não de todos os cidadãos, mas daqueles que parecerem mais suspeitos.»

«Vou fazer o pedido oficial.»

Perestrelo focou-se na revisão de toda a informação que tinha. Reviu os vídeos, comparou as fotografias e releu os relatórios. Tinha a sensação que lhe tinha escapado algo e, por vezes a chave do mistério estava nos detalhes. Ao fim de alguns dias de buscas Perestrelo começava a ficar desanimado. Aquilo que tinha aprendido de novo, revendo a informação disponível, sobre os sócios fundadores da LTCBK, era praticamente nulo e a informação sobre as jovens assassinadas na Austrália, não acrescentava muito. Sobre o desaparecimento da terceira jovem existiam algumas novidades: O facto foi notícia nos Estados Unidos, mas pelos piores motivos, pois chegou a desconfiar-se que era conivente na morte das amigas. O facto de ter desaparecido na altura em que os assassinatos tinham acontecido parecia demasiado conveniente. Os sócios, ainda vivos, estavam conotados com negócios escuros, mas não existiam provas do envolvimento destes em negócios criminosos, como era o caso do Brasileiro e do Americano. Perestrelo começou a desenvolver uma nova linha de pensamento que se baseava na teoria de que tudo estava ligado à morte e desaparecimento das três jovens. Mónica achava a teoria descabida e para ela a causa eram os negócios ilícitos.

Finalmente, começaram a chegar notícias da sua rede. Constava que a família Kodiat estava sob investigação. Aparentemente a frota de navios era utilizada para o trafego de armas. O mais estranho era que tudo indicava que o cérebro, por detrás de tudo, era o Raj Badour. A ser verdade e considerando que o Scott Taylor era comprovadamente um operacional no trafego de armas, tudo indicava que existia entre eles uma associação criminosa. Era uma teoria interessante, que ele não conseguia provar e cuja investigação seria, muito provavelmente, endossada à Interpol.

Perestrelo partilhou as suas conclusões com Mónica à mesa do jantar. Ela escutou-o atentamente e o que ele lhe disse deixou-a pensativa.

«Ficaste cismada…»

«Fiquei a pensar na forma como devemos abordar esta questão. As informações que a judiciária obteve confirmam as tuas. A Interpol está a investigar o Kodiat e talvez tenhamos a obrigação de lhe falar da ligação aos outros dois sócios.»

«Não te esqueças que um deles está morto.»

«Isso não quer dizer que a posição dele na rede não tenha sido ocupada por outra pessoa e que a associação criminosa continue a existir.»

«Isso é o teu departamento. Vou enviar-vos o meu relatório e vocês farão dele o que entenderem.»

Mónica também tinha novidades. Aparentemente, já estariam em Portugal pessoas associadas aos Kodiat e aos Badour. O que era estranho era terem identificado cinco brasileiros que se enquadravam no perfil do tipo de pessoa que procuravam.

«Quem é que pode estar interessado, no Brasil, naquilo que estamos a investigar?» Perguntou Mónica.

«Eu continuo a pensar que a Maria Eduarda está envolvida no assunto.»

«Vamos estar atentos. Se eles entrarem em contacto com ela, de alguma forma, iremos atuar.»

O telefone de Mónica tocou. Ao ver a origem da chamada ela atendeu, limitando-se a ouvir, ou respondendo com monossílabos, quando a tal era obrigada.

«Vou colocar-te sobre proteção policial. Dois dos homens ligados ao Kodiat tentaram entrar no teu prédio.» Disse Mónica, quando desligou o telefone.

«Não achas isso um exagero…»

Mónica não o deixou concluir. O seu olhar era perentório. Ela tinha-o usado muito poucas vezes mas foram as suficientes para ele conhecer o seu efeito. Perestrelo não disse nada, mas ficou apreensivo. Instintivamente levou a mão à arma que tinha no sovaco. Isso deu-lhe algum conforto, embora soubesse o quão ilusório podia ser o mesmo, se estivesse perante profissionais. O regresso a casa foi feito com alguma cautela. O que ele não sabia era que Mónica tinha trazido proteção adicional. A segurança tinha o seu preço e Mónica não passou a noite com ele. A última coisa que queria era andar na boca das más-línguas do departamento.

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