Nicos – Um Homem com pouca sorte

NICOS – Um Homem de pouca sorte

Conheci Nicos nas arcadas da zona comercial do prédio onde estaciono o meu carro, quando vou trabalhar, como um sem abrigo, mas tomei conhecimento da sua história no conforto da pastelaria Versailles, em Lisboa.

Tomo a liberdade de a contar, em traços largos e com pinceladas de alegria, sofrimento, felicidade e dor. De forma confusa e com algum desnorte temporal, foi assim que Nicos a narrou. É uma história de infortúnio, que me comoveu a mim e à minha família. Depois de a ouvir confesso que passei a olhar os sem abrigo de uma forma diferente: com humanidade e alguma dose de compreensão.

Antes deixem-me dizer-vos que, durante meses, ignorei o homem que dormia em cima de cartões canelados e se tapava com cobertores velhos e gastos, nas arcadas ao lado da saída do estacionamento. Com olhar receoso e mil cautelas, guardava-os, religiosamente, como o seu bem mais precioso. Uma ou outra vez, para aliviar a minha consciência, joguei-lhe umas moedas sobre a mão estendida, afastando-me rapidamente, como se ele me pudesse contagiar, com alguma doença imaginária.

Naquele dia, os meus filhos foram almoçar comigo. Deparei-me com o homem, encostado à parede, com ar assustado, tentando evitar a chuva e tremendo de frio, à porta da pastelaria. Estava um frio de rachar e a chuva caía a cântaros. Dois dedos de conversa foram suficientes para perceber que não só tinha sido expulso do seu poiso, como tinha perdido todos os seus bens. Condoí-me dele e, por sugestão dos meus filhos, convidámo-lo para almoçar.  Por uma questão de respeito e manutenção do anonimato chamar-lhe-ei apenas Nicos, alcunha que adotou desde que se tornou sem abrigo e não divulgarei o seu verdadeiro nome. Aqui fica, pois, o seu relato.

Os empregados da Versalhes olharam-nos de lado ao ver o homem entrar, mas não disseram nada: eu era um cliente assíduo. A roupa que vestia não passava de uns andrajos velhos, mas não estava suja. Não usava barba e o cabelo, apesar de comprido, não era demasiado longo, mas tinha um aspeto seboso. Tinha uma estatura elevada, mas um corpo mirrado e de aspeto frágil. Ao contrário do que o seu aspeto, miserável, deixava adivinhar, não cheirava mal e tinha maneiras educadas: era um homem que sabia estar. Essa forma de ser despertou, de imediato, a minha curiosidade.

A história começa na sua adolescência, com flashs do passado, pouco coerentes, que optei por não relatar. Quando completou dezassete anos foi um dos dias mais felizes da sua vida. Era filho único e os únicos parentes, para além dos pais, eram uns primos afastados. Os do lado da mãe vivam em Freixo de Espada à Cinta e os do lado do pai, no Brasil. Quer uns quer outros eram, para Nicos, perfeitos desconhecidos.  A família eram o pai e a mãe, embora, num conceito mais alargado, tivesse alguns amigos aos quais o ligavam sentimentos de verdadeiros irmãos. Para além do seu aniversário celebravam a entrada na Universidade Católica, onde iria tirar o curso de Gestão. Eram uma família muito unida! Tinham um nível económico elevado, sendo que, quer a mãe, quer o pai tinham formação superior. Neste ponto ou eu me perdi ou ele se enrolou e não fiquei a saber o que ambos faziam. No entanto, a paz e a felicidade desta família estava prestes a ser bruscamente interrompida. Apenas uma semana depois a mãe de Nicos faleceu. Um ataque cardíaco fulminante retirou-lhe a vida. São as palavras dele que retratam o momento.

«Não consigo expressar, em palavras, a tristeza e a dor daquele momento. Mas, apesar da dor que me avassalava, a tragédia que a morte da minha mãe iria desencadear era inimaginável!»

Nicos vincou os cotovelos sobre a mesa e segurou o rosto com as mãos. Os ombros descaídos e o tronco dobrado eram uma imagem de debilidade profunda e comovente. Ficou assim durante alguns minutos, deixando as lágrimas escorrer-lhe pelo rosto, como que lavando as memórias dos tempos difíceis que se preparava para descrever. Transformou-se! Secou as lágrimas, levantou a cabeça e assumiu a narrativa. Apesar de terem decorrido duas dezenas de anos era notório que ainda carregava a dor daquela perda e que o infortúnio que lhe tinha batido à porta era um fardo demasiado pesado para as suas forças. A emoção contagiou-nos e foi com a voz embargada que o incentivei a continuar. Era também uma forma de o ajudar a ultrapassar aquele momento.

Recomposto ele continuou. O pai não era o mesmo e abandonou-se a uma tristeza sem fim, que quase o impediu de prosseguir com a vida. Nicos foi um dos seus pilares, mas o outro foi uma serpente. Pouco depois de Nicos perder a mãe, a empregada de sempre deixou de trabalhar e tomaram ao serviço uma brasileira, de nome Céline. Era uma jovem de trinta anos, solteira e com pouca experiência, mas bonita e possuidora de um corpo escultural. Tinha vindo recentemente do Brasil e aquele emprego, para ela, foi uma bênção e ela fez por o merecer. Cuidou do pai de Nicos como se fosse o dela. Foi uma grande ajuda e Nicos era-lhe grato por isso. Nos primeiros dois anos ela foi apenas uma empregada, mas não descansou enquanto não se deitou na cama do patrão. Quando isso aconteceu ela passou a ser a dona da casa. Tinham decorrido quatro anos e Nicos tinha terminado o curso e estava a fazer o mestrado em Londres, numa das mais conceituadas universidades Inglesas. Quando regressou de Londres nem reconheceu a casa. Céline tinha mudado tudo, inclusive o seu quarto. Nicos não gostou e fê-la sentir isso mesmo.

«Esta casa é do meu pai e minha e pelo menos no meu quarto ninguém mexe sem a minha autorização!»

Céline não podia fazer nada em relação a Nicos, mas fez o pai pagar caro pela observação do filho. Foi nessa altura que as coisas começaram a ser diferentes. O pai, apesar de gostar muito do filho, acabava por dar razão a Céline e o ambiente lá em casa começou a deteriorar-se. Quando Céline engravidou tornou-se óbvio que Nicos tinha de sair de casa. Ela queria forçar o pai a correr com o filho, mas este resistiu e Céline resignou-se. Fizeram as partilhas e Nico comprou a sua própria casa e exigiu que o pai casasse com separação de bens. Assim, os herdeiros seriam apenas ele e o meio irmão. Aqui registou-se outro lapso temporal. O nascimento do meio irmão não é mencionado e Nicos passa da gravidez à existência deste. Nessa altura ele já tinha percebido o tipo de pessoa que ela era e queria assegurar que não extorquiria o pai para depois, simplesmente, o abandonar. Céline nunca lhe perdoou por isso.

«Foram momentos muitos difíceis. O meu pai estava cego de paixão e por vontade dele daria tudo a Céline. Felizmente os amigos dele viam a mesma realidade que eu e convenceram-no, embora a iniciativa tenha sido minha.»

A relação com o pai ficou um pouco mais distante pois Céline criava problemas sempre que estavam juntos e começou a utilizar o meio irmão com arma.  Quando Nicos se casou Céline tentou afastá-lo definitivamente, mas a esposa de Nicos desarmava-a sempre. Era uma mulher fantástica! Quando o pai de Nicos pegou o neto nos braços as coisas mudaram radicalmente e Céline teve de refrear o seu ímpeto, pois começou a perceber que o marido já não a apoiava incondicionalmente. Depois do período em que a mãe era viva, este foi o mais feliz da sua vida. Nicos e a esposa estavam apaixonados e tinham um filho que adoravam. Ele era um homem feliz e realizado. O pai vivia no paraíso! Para além do filho adulto, tinha um neto recém-nascido e um filho com nove anos. O filho mais novo adorava o sobrinho e Céline viu-se forçada a aceitar um convívio que não queria. Foi também por essa altura que o pai de Nicos se recusou a ajudar um primo de Céline, que tinha fugido do Brasil, depois de cumprido um curto período de prisão, por falsificação de documentos. Esta nota sobre o primo, aparece como uma pincelada numa tela branca. Efetivamente, num relato tão isento de detalhes, esta nota sobre o primo intrigou-me.

Nicos fez uma pausa e ficou parado como se a mente tivesse ficado vazia. De tempos a tempos ele tinha essa reação. Era um efeito secundário, resultante do facto de ter estado dois anos em coma. Nós estávamos suspensos das suas palavras. O contraste entre a situação descrita e aquela em que se encontrava, presentemente, era gritante, pelo que ansiávamos pelo relato dos factos que o tinham conduzido ali.

«A sorte é madrasta!»

Saiu-lhe com raiva, como uma explosão e retomou a narrativa. O rosto tinha-se tornado granítico, contraído pela dor. Um belo dia, tinha o filho de Nicos dois anos, estavam a passear na Avenida 5 de Outubro e de repente ouviu um chiar de travões e virou-se. Ainda teve tempo de ver o carro voar, em direção a eles e depois tudo se apagou. Quando acordou tinham decorrido dois anos.

«Dois anos! Veja bem… Dois anos!» Disse ele num grito lancinante!

Nicos tremia de emoção e nós também na expetativa de saber o que tinha acontecido com a família. O que nos contou a seguir foi uma sucessão de desgraças inimagináveis! A esposa e o filho não sobreviveram ao atropelamento. Quando tomou conhecimento disso Nicos só queria morrer. Não houve apoio psicológico que lhe valesse. A forma como ele descreveu a dor e o sofrimento que tomaram conta dele foi demolidora. Nesse momento estávamos todos possuídos pela emoção e era impossível disfarçar as lágrimas que nos escorriam pelo rosto. Vivíamos a história de Nicos como se fosse nossa, apesar de conscientes de que não conseguíamos experimentar, a nem a profundidade, nem a intensidade da sua dor.  Nicos ficou calado durante longos momentos ora vivendo a dor, ora vegetando naquele estado meditativo, que o possuía com intervalos regulares. Respeitamos a sua dor e controlamos a nossa emoção!

«Procurou o seu pai?» Perguntei.

Nicos pareceu despertar de um sonho e olhou-me com um sorriso tão carregado de tristeza que todo ele parecia transformar-se nesse sentimento. Emudeci. Nesse momento não sabia o que esperar, mas estava longe de imaginar o que ouvimos em seguida.

«O meu pai tinha falecido, entretanto.»

«Como?» Indagou o meu filho mais novo.

Era duro demais para ser verdade! Mas era essa a realidade… Os amigos do pai ter-lhe-ão contado que este chorou amargamente a morte do neto e da nora e se recusou a visitar Nicos. Não suportava vê-lo em coma. Céline aproveitou isso para o focar no filho e afastá-lo de todos, principalmente dos amigos mais chegados. Estes apenas tomaram conhecimento do AVC porque o médico que o assistiu conhecia um dos amigos do pai e informou-o. Na altura foram levantadas algumas suspeitas sobre a possibilidade de o ataque ter sido induzido, mas não havia elementos para suportar essa tese e tudo não passou de suspeitas. Depois do ataque o pai de Nico desfez-se de todos os ativos que tinha e um ano após suicidou-se, jogando-se do décimo segundo andar, onde viviam.

«De certeza que foi suicídio?» Perguntou o meu filho mais velho.

Nicos olhou-o com um sorriso que foi mais um esgar de dor. Os amigos do pai acreditam que foi Céline que o empurrou, mas esta apresentou como testemunhas, duas amigas em casa de quem terá estado a almoçar. No entanto, a empregada de limpeza dizia que lhe pareceu tê-la visto a descer pelas escadas, logo após a queda do marido. Ela não tinha a certeza e o testemunho foi desvalorizado. Quanto ao filho, tinha ido passar o dia em casa de um amigo do colégio. Tinha sido uma ausência providencial. A investigação policial tinha sido encerrada, concluindo que se tratava de um suicídio, tese suportada pelo estado em que o coma do filho e a morte do neto o tinham deixado.

«Mas o Nicos tinha bens próprios, para além da herança do pai.» Disse eu.

Para nossa surpresa o seu sorriso foi irónico. No meio da desgraça ele ainda era capaz de expressar ironia!

«Esfumou-se tudo!»

Estas palavras não esclareciam nada e insistimos. Nicos narrou-nos um dos aspetos mais mirabolantes da história. As investigações da polícia judiciária apontavam para um responsável pelo atropelamento: o primo de Céline. Na altura ela também foi interrogada, mas quando isso aconteceu já o primo tinha regressado ao Brasil e ela conseguiu provar que não tinha nada a ver com o primo e que nunca tivera contacto com ele. Isso era falso, mas as pessoas que o podiam testemunhar não estavam vivas.

«O Nicos acredita nisso?» Perguntei.

«Não! Claro que não!» Disse, cerrando os punhos e martelando a mesa.

Depois de uma pausa ele continuou. A polícia nada conseguiu provar, como também não conseguiu provar que a procuração que o pai usou para vender a casa de Nicos e esvaziar a sua conta bancária, era uma falsificação. Nicos suspeitava de que Céline dominava o primo e era amante dele, tendo-o levado a cometer os crimes de assassinato e falsificação de vários documentos. O resto foi obra dela! Nós estávamos sem palavras, simplesmente boquiabertos…

«Sim quando acordei do coma não tinha nem família, nem bens!»

«Eu ia atrás dela e nem sei o que lhe fazia.» Exclamei.

Nicos olhou-me de forma benevolente e continuou. Céline tinha partido para o Brasil fazia algum tempo. Todas as vendas de ativos tinham sido liquidadas com cheques visados que foram descontados numa conta que não pertencia ao pai de Nicos. Apesar de formalmente ter sido o pai de Nicos a fazer todas as operações, quem ditava os seus termos era Céline e um advogado contratado por esta. Quando se desfizeram dos bens e limparam as contas, quer ela, quer o advogado desapareceram. Nem os bens nem o dinheiro deixaram rasto que a pudesse incriminar.

«Foi por isso que veio parar a esta vida?» Perguntei.

«Não!»

Era mais uma resposta pouco esclarecedora, pois ele ali estava… Quando sofreu o acidente ele era diretor de um dos maiores bancos Portugueses. Quando acordou do coma o seu lugar fazia muito que estava ocupado, mas o banco deu-lhe uma oportunidade e reintegrou-o, numa posição equivalente. Apesar de todas as desgraças Nicos estava disposto a tentar reconstruir a vida, mas esta fintou-o mais uma vez e pregou-lhe uma última rasteira. Rapidamente se percebeu que ele não tinha condições para desempenhar a função que o banco lhe atribuiu. Nos momentos de lucidez ele era muito superior aos colegas, mas quando a mente se fechava ele era incapaz de realizar a tarefa mais simples. Foi nessa altura que ganhou a alcunha de Nicos. Um dos antigos subordinados, que tinha assumido o seu lugar, durante o coma, encarregou-se de o batizar. «Tu és uma nulidade. Sabes o que és? Tu não és nada. Tu és um nico!» Disse-lhe numa reunião em que Nicos bloqueou. A alcunha pegou e não tardou nada a ser conhecido como o Nicos. Quando o banco o despediu, com uma indeminização insignificante, ele não conseguiu arranjar outro trabalho. Uma coisa levou à outra e ele deixou de ter dinheiro para pagar a renda e para comer. Foi assim que passou a primeira noite ao relento.

Era verão e foi engraçado, mas fazia um ano que andava nesta vida e a realidade tinha-lhe ensinado que nem ser sem abrigo era fácil. Não era apenas necessário competir pela caridade de quem passa. Tudo era uma competição. Existia uma máfia que geria os sem abrigo. Os lugares para pedir, sobretudo os melhores, eram pagos, os lugares para dormir também. Tudo tinha um preço e obedecia a uma ordem. Mesmo os sem abrigo que chegavam primeiro e nalguns casos que tinham acesso, aos abrigos das instituições de caridades ou às distribuições de comida, eram definidos pela máfia e esta fazia-se pagar.

Nicos ficou parado. A sua expressão era de ausência e ficamos sem saber se o relato terminava ali ou se queria partilhar connosco algo mais. Aquele homem, ali sentado, ao nosso lado, era um ser humano, com uma elevação, uma formação e um conhecimento extraordinários. No entanto, tinha sido vítima das circunstâncias. Castrado pelo acidente, tinha sido impedido de reconstruir a sua vida e, apesar do estatuto de sem abrigo, não era, nem pena, nem piedade, aquilo que sentíamos por ele. O nosso rosto refletia um misto de espanto e admiração.

«Pai esta história não pode terminar assim!» Disse o meu filho mais novo.

Olhei para o mais velho e estávamos todos do acordo. Algo tinha que ser feito por aquele homem…

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