A JORNALISTA | PARTE VIII | CAPÍTULO 9

O puzzle

Perestrelo foi acordado pelo telefone. Tinha dormido a noite inteira sem qualquer sobressalto.

«Bom dia. Está tudo bem por aí?»

«Sim…» Respondeu Perestrelo, com ar estremunhado.

«Acordei-te?»

«Sim. Estava a dormir profundamente.»

«Então está tudo bem.»

«Sim. Se aconteceu alguma coisa foi no exterior.»

O dia revelou muitas surpresas. Os vários grupos suspeitos comportavam-se como verdadeiros turistas, criando uma verdadeira dor de cabeça à judiciária para os seguir. Perestrelo sugeriu que não seguissem ninguém, mas que investissem na vigilância de três locais: a sua casa, a casa de Maria Eduarda e o palacete da Lapa. Depois de muita discussão a sugestão foi aceite tendo a vigilância sido reforçada, mas sem que isso fosse visível. Era importante que os bandidos se sentissem impunes. Nem o próprio Perestrelo estava à espera que a sua estratégia desse resultados tão rapidamente. Por volta das três da madrugada a luz do quarto de Maria Eduarda acendeu-se deixando os homens em estado de alerta. Na contraluz era visível que estavam no quarto pelo menos três pessoas. Mónica mandou vir reforços. Eles tinham conseguido iludir a vigilância na entrada, mas ela fazia questão de os apanhar à saída.

Entretanto, dentro da casa a cena era bem mais macabra do que os agentes imaginavam. Maria Eduarda tinha sido acordada violentamente e impedida de gritar. Os três homens encapuçados tinham um ar ameaçador. Um deles tinha uma estatura elevada e movimentava-se de forma que lhe parecia demasiado familiar. Durante longos minutos ela ouviu um dos homens mostrar-lhe provas de que o detetive Marcus tinha sido o mandante do assassinato da sua família. A prova era esmagadora.

«Então quer dizer que o meu falecido não teve nada a ver com as mortes da minha família?»

O chefe mandou os restantes sair do quarto com um gesto e só depois falou.

«Podes crer que não. Eu nem sempre me portei muito bem contigo, mas tinha muito respeito por ti e pela tua família. Nunca lhes faria mal!»

Maria Eduarda abriu a boca de espanto. Aquela voz… Não podia ser! Jair estava morto.

«Tu roubaste-me, mas eu perdoo-te. Isso não quer dizer que possas ficar com o dinheiro. Vais vender-me as ações da empresa por um euro.»

«Como vai aparecer publicamente?» Disse ela com um sorriso de escárnio.

«Está aqui a escritura que vais assinar amanhã, ao quinto cartório, na rua Defensores de Chaves. Se o não fizeres morres.» Disse ele de forma fria, ao mesmo tempo que retirava a máscara de ski.»

Maria Eduarda arregalou os olhos o rosto dele estava completamente mudado, mas tinha o mesmo olhar e o mesmo físico. Isso era notório quando ele se despiu.

«Vou deixar-te uma última recordação minha. Tenho a certeza que vais gostar. Quem se entregou ao assassino da família não deve ter pejo a fazê-lo ao marido. Sim, porque nós não chegamos a divorciar-nos.»

Maria Eduarda arregalou os olhos à medida que o viu avançar para ela. Estava amordaçada e algemada, mas ainda podia lutar. Ele sentou-se em cima dela e amarrou-lhe as mãos na cabeceira da cama. Depois serviu-se dela. No início ela lutou com ele, depois teve de lutar com ela para não se entregar sem reservas. Jair foi paciente e não a largou até ela se render. A partir de determinada altura ela entregou-se pedindo mais e mais. Foi uma noite de sexo como apenas tinham tido nos primeiros anos de casamento. Apesar de se ter entregue, quando o prazer foi satisfeito, ela ficou furiosa com ele, mas sobretudo consigo própria. Conhecendo-o bem, procurou disfarçar os sentimentos para não ficar exposta à sua zombaria.

«Podes soltar-me?»

Ele tinha acabado de se vestir e olhou para ela com surpresa. Encolheu os ombros e disse:

«Não te esqueças da escritura. Eu estava a falar muito a sério.»

Chamou os homens ao mesmo tempo que a soltava. Maria Eduarda tirou uma arma debaixo do colchão e atingiu-o de raspão, no lado esquerdo da cintura. Os homens intervieram de imediato e ela tombou para o lado, sem sentidos, com uma violenta coronhada. Os homens saíram dali o mais rápido possível, não sem antes colocar a minuta da escritura entre os documentos que ela tinha no quarto. Tinham arranjado uma forma de entrar e sair que era à prova de fogo. Jair era o único que conhecia o túnel secreto que mandara construir fazia alguns anos.

Entretanto, lá fora os agentes da judiciária reagiram rapidamente, mas quando entraram em casa os homens já tinha desaparecido e Maria Eduarda estava desmaiada. Mónica apressou-se a tapá-la com o lençol e correu em seu auxílio. Ela recuperou os sentidos e deu um salto para trás, apontando o braço direito, como se ainda tivesse a arma. Mónica sorriu e mostrou-lhe o revólver. Quando reconheceu a agente olhou em volta, atónita, tentando perceber o que se passava. Depois de se acalmar Maria Eduarda contou uma história mirabolante. Os peritos da polícia recolheram amostras do sangue e do sémen e levaram a bala que tinha ficado incrustada na parede. Isso devia ser suficiente para identificar a pessoa que ela tinha atingido. Entretanto, ainda durante a madrugada, foi desencadeada uma autêntica caça ao homem. O puzzle ao invés de se completar parecia ter cada vez mais peças novas!

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