A ACOMPANHANTE

A ACOMPANHANTE

Fátima já estava acostumada à rotina. Arrumou a mala e saiu. O seu companheiro ainda tinha que fechar a conta do hotel, por isso esperaria, confortavelmente, no carro. Estava tão concentrada no telemóvel, que quase esbarrou com o casal que saía do quarto ao lado. No último instante levantou a cabeça e deu de caras com ele. O CEO da empresa beijava, apaixonadamente, uma mulher, ainda com a porta do quarto entreaberta. Ficaram a olhar um para o outro, embaraçados. Ele ficou de tal forma nervoso que se limitou a olhá-la com o rosto ruborescido. Ao ar surpreso, sucedeu-se rapidamente uma cara de poucos amigos. Depois de alguma hesitação Fátima deu meia volta e dirigiu-se para o elevador, sem dizer nada. Era tão estranho que o poderoso Francisco Esteves tivesse perdido o pio, que ela nem sabia o que pensar. «O melhor é esquecer que o vi, senão ainda arranjo problemas!» Pensou ela.

O caminho para chegar ali tinha sido longo e sinuoso. Fátima conheceu o Fábio numa festa de fim de ano e apaixonou-se de imediato por ele. Ela achou-o simplesmente lindo! Fátima era uma mulher interessante, possuidora de um corpo escultural, embora algo desproporcionado. Era uma daquelas mulheres com o tronco maior do que as pernas. No entanto, quando calçava uns sapatos de salto alto, transformava-se num mulherão. O rosto branco e sardento era longo e o sorriso mostrava uns dentes alvos e perfeitos. Não tinha um rosto bonito, mas os olhos azuis brilhavam como dois sóis, com um ar trocista e sedutor. Os cabelos castanhos claros, bem cuidados, pareciam uma moldura que emprestava ao conjunto um ar de pintura celestial. Era o tipo de mulher que exigia um segundo olhar! Fábio perdeu-se no mar que parecia desafiá-lo dentro daquele olhar e não a largou o resto da noite.  O namoro foi curto e dezoito meses depois estavam casados.

Tinham ambos origens humildes, embora ela fosse bem mais pobre e nem um nem outro eram brilhantes, tendo apenas concluído o décimo primeiro ano de escolaridade. Isso dificultava um pouco a careira profissional. Fábio tinha sido, toda a sua vida, o centro das atenções das mulheres, a começar pela mãe, pelo que possuía uma arrogância que o levava a não saber lidar com as limitações dos seus conhecimentos. No entanto, entre as mulheres ele era um ídolo. Tinha um metro e oitenta e cinco de altura, cabelos castanhos, olhos verdes e uma compleição física invejável. As mulheres estavam dispostas a quase tudo para ter a sua companhia! Saltou de emprego em emprego, sem conseguir uma estabilidade compatível com o papel de pai de família. Sim, Fátima queria ter filhos! Isso começou a criar alguns atritos entre o casal, pois Fátima não estava disposta a sustentá-lo, enquanto ele se pavoneava pela cidade. Cansado da situação ele decidiu dedicar-se a fazer aquilo em que era bom: conviver com o sexo oposto. Foi assim que se inscreveu no CrushMe. Subitamente Fábio tinha um grupo de amigos, que ela desconhecia e que andava sempre na farra. As ausências noturnas e aos fins de semana, tornaram óbvio que alguma coisa não estava bem. Com a ajuda de um amigo, especialista em informática, ela descobriu o tipo de vida que ele levava e, para o espiar decidiu inscrever-se também no site de encontros. Nesse dia ela abriu a caixa de pandora. Depois de acompanhar a atividade dele durante algum tempo acabou por o confrontar e o resultado foi o divórcio.

A casa onde viviam era emprestada pelo sogro, pelo que ela teve de sair e voltar para casa dos pais. Isso representou um retrocesso na sua independência, mas sobretudo no seu estilo de vida. Os pais eram muito pobres e ela, para além de partilhar o quarto com a irmã mais nova, tinha que ajudar a pagar as despesas da casa. Tinha de encontrar uma solução que lhe permitisse sair dali!

Fazia algum tempo que não visitava o CrushMe e foi com surpresa que verificou que o perfil estava inundado com propostas que nunca lhe tinham passado pela cabeça. Os homens estavam loucos com ela, sobretudo o segmento entre os quarenta e cinco e sessenta e cinco. Sentiu nojo de tudo aquilo e desligou o computador. Entretanto, em casa as coisas iam de mal a pior e a ideia começou a tomar forma dentro dela. O fim de semana tinha sido especialmente mau e na segunda feira ela tomou uma decisão. Entrou em contacto com um dos homens que pretendia jantar com ela e quando ele lhe disse o valor que estava disposto a pagar pela companhia dela ficou boquiaberta.

O homem era um empresário do interior, que estava de visita a Lisboa, e revelou-se uma excelente companhia. Ela estava de tal forma encantada que teria passado a noite com ele sem qualquer problema.  Por isso quando este lhe ofereceu aquela quantia para dormirem juntos ela não hesitou. Fátima adorava sexo e essa noite revelou-se. Experimentaram todas as posições e ele possuiu-a de todas as formas. O empresário ficou de tal forma satisfeito que lhe pagou mais do que o combinado. Fátima, sentada no Uber, que a levava para o trabalho, pensava no dinheiro que tinha feito numa só noite. Era inacreditável! Naquela noite tinha ganho quase um salário e livre de impostos.

Quando a viatura parou à frente da empresa ela foi chamada à realidade. Aproximava-se o fim do primeiro período de seis meses do contrato de trabalho e o chefe já lhe tinha dito que estavam com duvidas sobre a renovação do mesmo. Isso era um problema, pois sabia o quão difícil era arranjar um emprego, sendo que no seu caso concreto essas dificuldades eram agravadas pela falta de competências. «Será que posso fazer desta vida a minha vida?» Interrogou-se. A manhã foi complicada em termos de trabalho e a má disposição do chefe não ajudou.  Quando ao início da tarde o chefe lhe disse que tinha sido chamada ao gabinete do CEO, antecipou pior. Tinha uma história pouco sólida na empresa e aquela manhã era mais um capítulo negro. Acrescia a isso o facto de se ter cruzado com o chefe e com a mulher no fim de semana e de este não ter gostado nada de a ver. Não havia dúvidas que estava num grande aperto! Enquanto esperava, no gabinete da secretária, esta apresentou-lhe a mulher do CEO, que tinha vindo fazer uma surpresa ao marido. Fátima ficou a olhar para ela boquiaberta.

Francisco Esteves abriu a porta do gabinete e veio receber a mulher pessoalmente. Quando deparou com as três no gabinete da secretária teve um choque. Disfarçou o melhor que pôde, mas a sua atrapalhação era óbvia.

«Quem é essa Fátima?» Perguntou a esposa.

«É uma administrativa, inexperiente, mas com potencial. Porquê?»

«Quando a tua secretária me apresentou ela ficou a olhar para mim como quem viu um fantasma!»

Francisco encolheu os ombros e não deu qualquer resposta. A mente trabalhava a mil à hora para tentar encontrar uma saída. A esposa fez a sua própria leitura do encolher de ombros, tendo-se dado por satisfeita com a resposta.

Quando Fátima entrou no gabinete estava descontraída. Tinha um plano B, que era ser Acompanhante Profissional, para além disso, sempre queria ver a reação do chefe, agora que ele sabia que tinha sido apanhado a trair a esposa. Francisco foi extremamente simpático com ela, mas não se coibiu de a ameaçar com retaliações se ela alguma vez falasse da cena que tinha visto no fim de semana. Para demonstrar que ela só tinha a ganhar em ficar calada, prometeu passá-la a efetiva, com um amento considerável de salário. Fátima nem queria acreditar naquilo que estava a ouvir. Passava a ter um emprego, razoavelmente pago, que, se a vida de acompanhante rendesse o que esperava, passava a ser apenas uma fachada. A sua vida tinha melhorado significativamente nas últimas trinta e seis horas.

Quatro anos depois, fazia a mesma viagem entre o hotel e a empresa, e passou em revista o passado recente. Tinha um bom emprego, considerando as suas capacidades e a vida de acompanhante, permitira-lhe comprar um apartamento e tinha-a levado a conhecer o país e o estrangeiro, em hotéis e restaurantes de luxo. As pessoas, ainda que sem saber o que ela fazia, diziam que era errado prostituir-se, mas cada um vendia aquilo que tinha de melhor: uns vendiam a mente, ela vendia o corpo.

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