A BURLA

A BURLA

Beatriz recostou-se na cadeira, esfregou os olhos e puxou os cabelos para trás, deixando-os escorregar entre os dedos. Estava cansada de ver e rever o assunto, mas não podia ir falar com o Pedro sem ter provas suficientes. Ela tinha a certeza de que as suspeitas tinham fundamento, mas precisava de documentar a sua tese.

Tinha vindo para a GFK Gestão de Ativos SA, de forma perfeitamente involuntária. A sociedade onde trabalhava estava insolvente e a GFK, como credora, ficou com um conjunto de ativos que, por interesse próprio, foram adquiridos com a natureza de um estabelecimento: ela veio por arrasto. Isso gerou alguma desconfiança em relação às suas capacidades. Pedro fora o único a acreditar nela. Os restantes ou a olhavam de lado, mas com indiferença ou a detestavam. A rainha do ódio era a Dra. Gertrudes! Desde o primeiro dia tinha implicado com a Beatriz e era ela que bloqueava o seu crescimento profissional. O argumento era sempre o mesmo.

«A Beatriz, para além de não ser sido uma escolha nossa, entrou para aqui com um ordenado e uma posição demasiado elevados!»

Aos trinta e dois anos ela ainda era solteira e parecia não ter muita vontade de se deixar amarrar a uma relação. Era uma mulher independente. A morena, de estatura média e cabelos longos, possuía um corpo elegante e um rosto muito interessante. Mais do que a beleza era a sua sensualidade que chamava à atenção. No seu rosto perfeito sobressaíam os lábios carnudos, que, de tão sensuais, despertavam o desejo imperioso de ser beijados, incessantemente. O conjunto era coroado com um sorriso demolidor! Para a tentar desmoralizar tinham posto a circular o boato de que ela e Pedro, que era o CEO e acionista maioritário, eram amantes. Ela ignorava-os, mas o assunto incomodava-a.

Olhou em volta e percebeu que os dois colegas ainda não tinham saído. Isso, apesar de pouco comum, tinha-se tornado um hábito nos últimos tempos. «Estes dois andam a prestar demasiada atenção àquilo que faço!» Pensou. Era melhor fazer os telefonemas fora dali. Desligou o computador, despediu-se e foi para casa. Como vivia nos arredores de Lisboa, aproveitou a viagem para fazer meia dúzia de telefonemas. A informação que obteve deixou-a preocupada. Os números não batiam certo. Se estes estivessem corretos significava que a empresa iria fazer um negócio ruinoso. Não era possível que os dois sócios envolvidos no negócio, mesmo sendo os minoritários, não percebessem isso. Tinha que verificar a informação recebida. Quando estava a estacionar veio-lhe uma ideia à cabeça e agarrou-se a ela com todas as forças.

No dia seguinte, falou com o chefe e pediu para gozar férias na sexta feira. Depois disso estabelecido, ligou para a imobiliária e colocou o processo em marcha. Falou em inglês e apresentou-se como sendo a representante de uma sociedade gestora de fundos britânica e bem conhecida do mundo empresarial Português. O antigo chefe trabalhava lá e arranjou-lhe uma carta, atestando que ela estava mandatada para os representar naquele negócio.  A encenação estava montada, agora só faltava a sua atuação. À medida que o dia se foi aproximando o nervosismo aumentou. Se fosse descoberta era certo que perderia o emprego, mas o pior para ela seria não ter conseguido ajudar o Pedro. Sentia que lhe devia isso, pela forma decente como a havia tratado. Solicitou à imobiliária um vasto conjunto de informações e a partir destas elaborou um dossier detalhado, com todas as perguntas que pretendia fazer. Naturalmente que cruzou isso com as dúvidas que a análise do dossier de aquisição da GFK lhe tinha levantado. Aparentemente, existiam outros interessados no negócio o que para ela não era novidade.

Na quinta feira, ao fim do dia, alugou um carro e viajou até ao algarve, pernoitando num hotel local, onde o agente imobiliário a viria buscar, na manhã seguinte. Mal chegou ao hotel cruzou-se com uma pessoa conhecida, com quem chocou deliberadamente. Esse foi o teste de fogo. Ele olhou para ela e nem pestanejou. Antes de sair de casa tinha pintado o cabelo de loiro, tinha colocado umas lentes azuis e uns óculos falsos, que simulavam uma deficiência visual acentuada. Ela pediu desculpa, em inglês e ele sorriu-lhe. Beatriz retribuiu o sorriso. Depois do jantar decidiu ir até ao bar e mostrar-se, para testar o seu disfarce. Voltou a cruzar-se com Vitor, que tentou seduzi-la. Ela alinhou no jogo e beberam uns copos. Apesar da proximidade entre os dois ele, em momento algum, suspeitou que ela era a Beatriz. Helen Kinkaid tinha passado na prova com distinção.

O dia seguinte começou com a apresentação aos vendedores, os acionistas do grupo, que disponibilizaram a sua equipa para lhe prestar todos os esclarecimentos. Durante a manhã ela visitou as propriedades e esteve reunida com as equipas dos hotéis. Estavam todos maravilhados com ela. Era impressionante a velocidade com que assimilava a informação e a lucidez da análise que fazia: tinha sempre a pergunta adequada na ponta da língua. Parecia que conhecia os ativos e os números desde sempre. Durante o almoço ouviu os maiores elogios dos vendedores.

«O seu conhecimento do negócio e a sua capacidade de o analisar são impressionantes!»

«Obrigado.» Disse ela com simplicidade.

O que eles não suspeitavam era que ela conhecia os ativos quase tão bem quanto eles e tinha estudado muito para perceber o sector e colocar as questões corretas. A tarde foi dividida em dois: visitou os ativos imobiliários e reuniu-se com o responsável financeiro. Depois de duas horas intensas de perguntas e respostas ela estava devidamente esclarecida e o CFO, dos vendedores, impressionado. Os números contradiziam a informação que ela tinha. Só existiam duas possibilidades: ou ela estava enganada ou eles lhe estavam a esconder alguma coisa. A ênfase do último parecer de auditoria fez acender uma luz vermelha.

«Que garantia é esta mencionada na ênfase do último parecer de auditoria?»

O CFO olhou para ela em silêncio. «Eu sabia que ias lá chegar!» Pensou. Fingiu procurar alguma coisa nos seus papéis, enquanto e cérebro trabalhava a uma velocidade estonteante, para encontrar a resposta adequada.

«Não é nada de especial. Essa garantia não deve ter impacto nas contas, por isso é que aparece apenas como ênfase, no parecer dos auditores.»

«Não me parece que seja bem assim. A garantia é um facto subsequente e mesmo assim deu lugar a uma ênfase, por isso deve ser algo grave.»

Depois de muita insistência ela percebeu tudo. O negócio estava avaliado em quatrocentos e cinquenta milhões, mas a garantia era de duzentos e cinquenta milhões. Entretanto em junho a garantia tinha sido executada e a empresa tinha até ao fim de setembro, para proceder ao pagamento. Isso significava que as contas do final do mês deveriam refletir um endividamento com um montante igual ao valor do pagamento. Quando terminaram de expor o assunto, Beatriz ficou a olhar para eles em silêncio.

«Isto significa que o grupo, dando como certas as avaliações existentes, valerá no máximo duzentos milhões de euros.»

«Pois… quer dizer… Isso significa assumir que a responsabilidade pela garantia é total.» Disse o CFO.

«De acordo. Existe alguma possibilidade de retroagir sobre o beneficiário da garantia ou sobre a entidade garantida?»

Depois de alguma hesitação o CFO disse que não. O mistério tinha sido esclarecido. O resultado da investigação não podia ser melhor. Ela tinha identificado o problema do negócio, mas tinha, também, arranjado um argumento para colocar o fundo de fora, sem levantar suspeitas. Isso cumpria a exigência que o antigo chefe lhe tinha colocado.

«Irei fazer o meu relatório, mas para isso preciso de toda a documentação sobre as garantias, para além dos pareceres jurídicos e as decisões da gestão, sobre o assunto. Recordo que a forma como tentaram esconder esta responsabilidade não foi a mais elegante, nem a mais adequada numa relação negocial e eu preciso de argumentos para tentar convencer o fundo. Ainda assim, tenho algum receio sobre a reação do comité de investimentos.»

Beatriz só em Lisboa se desfez do disfarce. Passou o resto do dia à volta dos papéis e quando terminou tinha elaborado um dossier encabeçado por um relatório demolidor. Estava ali a resposta a todas as questões sobre o negócio, no entanto faltava responder à mais importante: qual a motivação dos sócios minoritários para se arruinarem a si próprios? Olhou novamente para a forma como a GFK estruturou o negócio. Eles iriam comprar o grupo imobiliário através de uma multinacional. O grupo imobiliário era português, logo isso só fazia sentido se existisse uma transação intermédia. Era isso! Como é que não tinha percebido antes? A multinacional comprava o grupo imobiliário por duzentos milhões e vendia-o por quatrocentos e cinquenta. O mais provável era que a multinacional fosse detida pelos acionistas minoritários da GFK. Recorreu novamente ao seu amigo do fundo Inglês. Depois decidiu aproveitar o que restava do fim de semana.

Na segunda feira ela estava muito bem disposta, mas ansiosa. Era urgente que recebesse informações sobre a multinacional irlandesa que iria intermediar a operação da GFK. A escritura estava agendada para quinta feira, por isso quando a segunda feira chegou ao fim, sem notícias, ela estava bem desanimada. À hora de jantar recebeu um telefonema do amigo. Eureka! A Multinacional era detida pelos dois sócios minoritários O João Ferragudo e a Gertrudes Keller, na proporção de quarenta por cento cada e o restante estava dividido pelos oito membros da equipa. Estava em curso um golpe palaciano! Na terça feira a empresa acordou virada do avesso. Aparentemente os sócios minoritários não estavam de acordo com a realização do negócio e ameaçaram com a demissão, caso este se realizasse, estando disponíveis para ceder as suas posições por um valor simbólico. Mas o pior era que a equipa operacional estava solidária com eles e ameaçavam sair todos em conjunto. Este foi o cenário que Pedro apresentou a Beatriz quando ela entrou no gabinete, na sequência do pedido de reunião da noite anterior. Beatriz não conseguiu conter-se e desatou à gargalhada. Pedro olhava para ela embasbacado, mas com um ar irritado.

«Desculpa!» Disse ela, quando conseguiu controlar-se.

Em poucas palavras expôs aquilo que sabia do negócio. Pedro depois de a ouvir percebeu que a operação que os sócios estavam a montar era uma burla. Estava, simultaneamente, irritado com ele próprio e furioso com os sócios, assemelhando-se um leão enjaulado. Percorria o gabinete, de um lado para o outro, em passos largos, vociferando impropérios. Beatriz encolheu-se e manteve-se silenciosa: nunca o tinha visto daquele jeito! Pedro quando se acalmou, olhou para ela e sorriu.

«Desculpa, não queria assustar-te. Tu és a minha heroína!»

Sentou-se na cadeira à frente de Beatriz e olhou-a nos olhos.

«O que farias tu no meu lugar?»

Beatriz foi apanhada de surpresa. Nunca tinha sonhado que o grande Pedro Gonçalves lhe pedisse opinião, ainda mais sobre um assunto tão importante. A verdade é que tinha pensado que ele devia desmascara-los, mas depois daquilo que Pedro lhe tinha contado mudou de opinião.

«Penso que deves aproveitar-te da charada que eles montaram. Deves dizer que o negócio se vai realizar e que se eles se querem demitir o melhor é fazerem-no já e propões comprar as participações deles por um euro cada.»

«Não estás a pensar que vou fazer um negócio onde vou perder duzentos e cinquenta milhões, pois não?»

«Claro que não. Eles demitem-se, mas tu não fazes esse negócio com a multinacional deles, mas sim diretamente com os donos portugueses e pelo preço certo.»

Nessa altura Beatriz apresentou-lhe Helen Kinkaid. Pedro achou a ideia simplesmente brilhante. Chamou os sócios e armou um escândalo. Se eles queriam sair, saiam nesse mesmo dia.  Os sócios ainda mostraram resistência, mas ele foi perentório. Depois de debaterem um pouco o assunto entre eles, acabaram por concordar e quarta de manhã a GFK era detida a cem por cento por Pedro e a equipa tinha sido reduzida em dez pessoas. Pedro colocou Beatriz à frente da operação e em quinze dias tinham fechado a aquisição aos portugueses. A multinacional tentou obrigá-los a cumprir o contrato assinado, mas em troca receberam uma carta dos advogados da GFK a acusá-los de má fé. Pedro tinha ganho em toda a linha.

Depois da tempestade ter acalmado Pedro propôs a Beatriz uma posição de direção que ela agradeceu, mas rejeitou.

«Com este processo acabei por descobrir a minha vocação. Vou dedicar-se à atividade de detetive particular.»

Pedro ficou a olhar para ela sem palavras. Devia-lhe muito e ela podia dar um contributo significativo à empresa, mas se era isso que ela queria, então que assim fosse. Estendeu-lhe um envelope dizendo.

«Tinha esperança que quisesses ficar ao meu lado, mas respeito a tua decisão. Em todo o caso, gostava que aceitasses este prémio pela realização do negócio.»

Beatriz abriu o envelope em formato A4. O documento era volumoso e referia que ela era dona de cinco por cento da empresa. Era um quarto das ações que Pedro tinha adquirido aos minoritários, mas representava um valor de dois milhões e meio e um volume de dividendos anuais de, aproximadamente, duzentos mil euros. Estava completamente siderada. O olhar saltitava entre o documento e Pedro sem saber o que dizer. Saltou-lhe para o pescoço, e abraçou-o, beijando-o no rosto.

«Obrigado.» Disse com as lágrimas nos olhos.

«Eu é que agradeço. Para além de teres evitado que tivesse sido arruinado, ainda fiz um negócio fantástico, com a aquisição das ações. Aquilo que te estou a dar é apenas uma parte do que ganhei, quando aqueles traidores saíram. Para além disso, tu ainda conseguiste fazer o negócio imobiliário por um valor muito interessante.»

Beatriz seguiu o seu sonho. Saiu da empresa no final do ano, para se dedicar àquilo que lhe dava prazer. As contas finais foram uma grande surpresa! Pedro decidiu distribuir, pelos trabalhadores, uma parte do resultado e Beatriz recebeu umas centenas de milhares de euros em bónus. Não podia ter começado a sua nova vida de melhor forma.

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