Cartas e depoimentos na quarentena – Carta 1

Olá Ana Paula,

Escrever uma carta é, simultaneamente uma tarefa simples e complicada, dependendo do grau de conhecimento e proximidade entre as pessoas envolvidas. Mas escrever uma carta não solicitada, para falar da nossa experiência ou perspetiva sobre a vida e fazer a outra pessoa interessar-se o suficiente para nos responder, esse é um verdadeiro desafio!

Gostei do teu perfil: curto e incisivo. Gostei sobretudo da forma com te expuseste sem medos do julgamento de outrem. Foi esse tipo de coragem que me levou a escrever-se esta carta e a abrir-te uma porta para o meu Eu. Cabe-te a ti decidir se queres entrar ou se ficas do lado de fora, como um mero espetador.

Portugal, como todo o mundo, tem vivido a pandemia com algumas hesitações e muitas incertezas. Os políticos e as entidades de saúde andam perdidos, sem estratégia e com uma tática que muda todos os dias, tal é o desconhecimento da pandemia e da melhor forma de reagir a esta, para a controlar. Apesar disso, não estamos em negação e têm sido feitos esforços, por todos, para contribuir para o controlo desta calamidade e um melhor conhecimento da mesma.  Esses esforços têm resultado numa reclusão das pessoas, voluntária ou forçada, com impactos a todos os níveis: Económico, social e pessoal. O primeiro e o segundo níveis, terão consequências graves, mas que apenas se deverão manifestar mais tarde, portanto menos imediatas. Por ser o mais relevante e imediato, decidi dedicar esta carta às consequências pessoais da quarentena que somos obrigados a respeitar.

Sei que és muito jovem, mas não tenho dúvidas que este tipo de assunto te interessa, tenho filhos que são um pouco mais velhos do que tu e vejo como isso os preocupa. Viver limitado a quatro paredes, ainda que com as portas abertas para o mundo, devido à tecnologia, é complicado e stressante. Não apenas pelo simples facto de estarmos confinados, mas porque não sabermos viver assim. O nossa ADN, não tem registo de nenhuma vivência semelhante e reage de forma intuitiva. Tudo é novo e o novo desperta-nos e amedronta-nos, simultaneamente e a reação é, na maioria dos casos, de defesa: uma defesa contra o desconhecido. O grande problema é que não sabemos como nos defender e isso coloca-nos no seguinte dilema: Obriga-nos a decidir se nos encolhemos com medo ou nos aventuramos, explorando este mundo de oportunidades que se abrem, ao mesmo tempo que vemos fracassar antigos conceitos e dogmas.

Apesar de já não ser nenhum jovem, procuro passar a mensagem de que esta pandemia nos trouxe não uma provação, mas um momento de reflexão, uma pausa na voracidade com que este mundo nos devora o curto tempo de vida de que dispomos, para que possamos ponderar a mudança. No entanto, a mudança começa sempre dentro de nós e para que esta aconteça, cada um deve aproveitar para por a casa em ordem. Esta é uma casa com várias divisões: Primeiro, lidamos com o nosso quarto: temos resolver as coisas connosco próprios, dentro de nós. Estar em paz com o nosso eu. Aceitar aquilo que somos, sem perder de vista que podemos e devemos aproveitar todas as oportunidades para aprender e melhorar. Segundo, cuidar do resto da casa: significa olhar para os que nos são mais próximos e perceber de que forma os podemos ajudar e ajudá-los de verdade. Ajudar os pais, os filhos, os irmãos, os amigos, os colegas de trabalho eu da escola. Enfim, todos os que orbitam no nosso ciclo mais próximo. Por vezes basta um pequeno gesto. Uma ajuda a arrumar a cozinha, a carregar as compras, ou simplesmente estar disponível para ouvir. Devemos, no entanto, fazê-lo com abnegação. Terceiro, cuidar do exterior: Ver de que forma podemos contribuir para a mudança do nosso país e do mundo e contribuir de facto.

A juventude tem um papel crucial nesta trefa, pois a juventude é sempre o futuro de um país, tal como é o futuro do mundo. Essa é outra das razões porque decidi escrever-te, porque é em pessoas como tu, jovens e com paixão na alma, que aposto para que se construa um futuro melhor, mais sustentável e, consequentemente, mais duradouro.

Numa visão mais dirigida às consequências mais imediatas e pessoais desta pandemia, posso dizer-te que a quarentena não tem grande impacto na minha vida pessoal. Saio à rua sempre que posso ou necessito para um passeio ou para os afazeres obrigatórios. Sempre que posso vou passar o fim de semana fora de Lisboa, para me libertar da frieza da cidade e conviver com a natureza. Quando estou em casa, em teletrabalho, procuro manter uma rotina semelhante à que teria se fosse ao escritório. Faço os exercícios diários e as refeições à mesma hora. Uso o telefone e a vídeo conferência com frequência, para me manter em contacto com a minha equipa e alcançar uma proximidade que a pandemia não nos permite, mantendo a coesão e a eficácia, ao nível o mais elevado possível. Faço-o porque entendo que mesmo estando em casa temos que manter os negócios e as empresas a funcionar e quando isso é possível, à distância, temos uma obrigação profissional, moral e ética de o fazer.

Gostava e saber a tua opinião sobre estes assuntos e perceber como uma jovem, que olha para o mundo com tanta alma (dei uma espreitadela no teu instagram), olha para este mundo. Permite-me ver o mundo através dos olhos de uma jovem que o vê seguramente com muito amor e pretende viver nele por muitos anos. Guia-me com a sabedoria da tua juventude, que não podendo ser dotada de grande experiência, será certamente rica em criatividade, iniciativa e inovação.

Ficarei muito feliz se aceitares o meu desafio e decidires responder a esta carta e, se esse for também o teu desejo, prometo manter este canal aberto para outras cartas e para a troca de experiências e conhecimentos que nos podem enriquecer a ambos, não apenas pela grande diferença de idade, mas também pelo distanciamento geográfico e cultural.

Despeço-me com um abraço amigo

Manuel Mota

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