O DESPERTAR

O DESPERTAR

Estávamos em setembro de 1961. Um setembro quente e seco. Estava quase ao nível do de 1955, que tinha sido o ano com a média das temperaturas máximas mais elevada, das últimas décadas. Apesar de já serem quatro horas da tarde, o calor era abrasador, mas isso não assustava Alice. O marido bem lhe tinha dito para ficar a repousar, mas nem as palavras dele, nem o estado avançado da gravidez, foram capazes de a fazer parar.

«O calor rebenta as vagens dos feijões e apanhar grão a grão é muito mais difícil. Repouso uns dias, quando a criança nascer.»

Os astros alinharam-se e a criança nasceu às cinco da tarde, mas Alice apenas alertou o marido bem depois das quatro. Foi uma correria! Ela foi para casa lavar-se, enquanto o Pedro corria até à casa da parteira: uma mulher experiente que tinha dado à luz três meninas, mas ajudado a nascer umas dezenas de bebés.

Quando a parteira chegou a criança já estava com a cabeça de fora e Alice preparada para a receber.

«Eu não precisei de fazer nada. Ele tinha uma vontade de nascer incontrolável!» Disse Alice, com calma e sorrindo.

A parteira nem queria acreditar naquilo que estava a ver. Cinco minutos depois a criança tomava o seu primeiro banho e a mãe aconchegava-o junto ao peito. Enquanto isso Pedro esperava, nervoso, no exterior do quarto.

«Ganhaste mais um herdeiro.» Disse a parteira ao sair do quarto.

Era o terceiro barão. Ele bem precisava de homens para o ajudar no amanho das terras! Apesar de ser essa a realidade em que vivia, ele sonhava dar aos filhos um futuro diferente. Deixou a mulher entregue à parteira e foi para o campo. Eram muitos os afazeres e estes não condescendiam, nem no dia em que nascia mais um filho. Cuidou dos animais e das tarefas urgentes de forma a ir para casa mais cedo. Apesar dos afazeres era um dia especial!

A parteira cuidou do jantar e foi-se embora. Pedro serviu a esposa no quarto e comeu com o sogro e com os dois mais velhos, que tinham três e quatro anos, respetivamente. Quando a casa ficou em silêncio, Pedro pôde finalmente admirar o seu primogénito. Segurou-o com as mãos, erguei-o bem alto e, em silêncio, fez uma oração. Alice acompanhou-o.

«É verdade que se a parteira tivesse demorado mais cinco minutos o rapaz tinha nascido sozinho?»

A esposa assentiu e olharam a criança com admiração. Tinha um ar saudável e robusto, embora fosse um bebé pequeno. Aquilo que lhes causava grande admiração não era nada de extraordinário. A mãe tinha estado todo o dia a dobrar-se, na apanha dos feijões e a criança foi sendo pressionada para nascer, através daquele movimento natural. Como a dilatação era a adequada, não foi necessário mais nenhum esforço para ela nascer. No entanto, para eles era algo de extraordinário. Olhavam para o bebé como quem admira um herói! O destino, esse olhava para ele com outros olhos!

O bebé tinha pouco apetite. A verdade é que a mãe não tinha muito leite, mas nem assim ele conseguia esgotar-lhe os seios, em cada mamada. Foi necessário recorrer à bomba para os esvaziar. Apesar de comer pouco era um bebé muito vivo, mas tranquilo. Não chorava, mas passava muito tempo de olhos abertos a falar com o mundo. Tudo lhe despertava a curiosidade. O avô materno achava muito estranho que a criança dormisse tão pouco, mas também ele dormia pouco, por isso fazia-lhe muitas vezes companhia.

Ao fim de quatro dias Alice retornou ao trabalho no campo. Cuidar da casa, coisa que fazia a partir do segundo dia, já não era suficiente para ela. O bebé ficava aos cuidados do avô, enquanto os outros andavam por ali em correrias. Os pais tinham muito trabalho, por isso as crianças tinham toda a autonomia do mundo, até porque o avô já não tinha energia para eles.

Na véspera do décimo quinto dia de vida o bebé não quis mamar. Estava bastante quieto e tinha perdido aquela curiosidade que lhe costumava preencher o olhar. O sorriso tinha desaparecido dos lábios e um tom amarelo cobria-lhe a pele. Apesar de preocupados os pais confiavam na vontade divina e antes de dormir, embora já tivessem rezado o terço em família, ajoelharam-se ambos, fazendo uma prece pelo bebé. Quando ele adormeceu os pais adormeceram também. De manhã a criança não choramingou com fome e isso fez soar os alertas. O bebé estava quase sem sinais de vida.

«Não podemos deixar a criança morrer sem a batizar!» Exclamou Alice, entre lágrimas.

Talvez o mais adequado fosse procurar um médico, mas a verdade é que isso não fazia parte dos seus hábitos. Alice nunca tinha ido a um médico, apesar de ter trinta e três anos de idade e Pedro apenas tinha sido visto por um quando cumpriu o serviço militar. Assim, correram para os braços de Deus. Reuniram os únicos avós vivos; o avô materno e a avó paterna e foram para a igreja, que ficava a mais ou menos dois quilómetros. Alice carregava a criança nos braços deixando as lágrimas escorrer-lhe pelas faces livremente. Se o filho lhe morria nos braços era por vontade de Deus. No entanto, por mais que dissesse isso a si própria o coração não se acalmava. Pedro olhava o filho de lado e percebia que este desfalecia nos braços de Alice. Controlando a emoção, instigava a mãe e o sogro a andarem mais depressa, pois depositava todas as esperanças em Deus.

À volta deles a vida continuava. Os pássaros chilreavam com as crias à volta deles, aprendendo a voar. Por todo o lado se ouvia o ruído da azáfama de um dia de final de verão. As crianças alegres, brincavam, soltando pequenos gritinhos e rizadas cristalinas. Aqui e acolá, vozes masculinas e femininas, misturavam-se em cantos populares, para afastar o calor e o cansaço. As cigarras zumbiam, no seu canto preguiçoso, aproveitando a época das colheitas para se deliciar sem ter trabalho, mas o coração daqueles quatro estava pesado e em silêncio.

Mal chegaram à igreja o padre Carlos, quando tomou conhecimento dos factos, ficou zangado. A ignorância era uma coisa inacreditável! Não se conteve e explodiu.

«A criança está morta! O que vieram para aqui fazer? Deviam tê-la levado ao médico.»

«Mas, senhor padre ela não pode morrer sem se lavada do pecado original!» Exclamou Alice.

O Padre abriu a boca para responder de forma desagradável, mas conteve-se ao ver tal manifestação de fé. Fé e ignorância!

«Podiam tê-la batizado vocês, com a água de qualquer fonte e tê-la levado ao médico. Em seguida renovávamos o batismo.»

Os pais entreolharam-se sem saber o que dizer ou fazer.

«Vamos rapidamente para a pia batismal.» Ordenou o padre.

Enquanto se apressavam para o fundo da igreja, começando a cerimónia pelo fim, o padre refletia sobre a inutilidade daquele ato. A vida já tinha abandonado aquele corpo e os pais também sabiam disso, embora não tivessem, ainda, interiorizado a morte do filho. Era como se esperassem da ação do batismo um milagre. Ele, um padre, estava prestes a matar-lhes todas as ilusões!

Quando se aproximaram da pia batismal, o padre mergulhou a concha na água fria e, ao mesmo tempo que a levantava para derramar a água na cabeça do bebé, fitou os quatro familiares. Choravam em silêncio, como se tivessem medo de emitir qualquer som e este tivesse o condão de confirmar a morte. As lágrimas humedeciam-lhes a face, em transe, numa prece silenciosa. A fé e a esperança que emanava daqueles rostos era enternecedora e comovente. Foi carregado de emoção que ele pronunciou as palavras.

«Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.»

O choro ecoou, no silêncio da igreja, de forma ensurdecedora. A surpresa foi generalizada! O sacristão, que optara por ficar na porta da sacristia, constrangido pelo sofrimento dos pais, veio a correr, igreja abaixo, enquanto os pais riam e choravam abraçados um ao outro. Chamaram-lhe Manuel, que quer dizer “Deus está connosco”. De facto, Deus tinha estado ali e o milagre tinha-se operado. Essa era a única justificação que encontravam para aquilo que tinham presenciado. O padre era o menos convencido deles todos e passou a chamar o rapaz, sempre que esta aparecia, na missa de domingo, como o “morto vivo”, em tom de brincadeira. Os pais não fizeram nenhum alarde do acontecimento, mas agradeceram a Deus o facto de lhes ter conservado o filho. Para eles todos os filhos eram abençoados, mas aquele tinha sido abençoado por Deus de uma forma especial. Tinha sido abençoado com a dádiva da vida!

O bebé é hoje quase um sénior. Ouviu os relatos vezes sem conta e a perceção de que devia a vida ao batismo acompanhou-o ao longo da vida. Essa era uma verdade inegável. Muitos anos mais tarde veio a demonstrar-se que ele tinha uma deficiência no campo elétrico do coração, que o obrigou à implantação de um pace maker. Isso trouxe alguma luz sobre o evento do seu batismo. O mais provável era que o coração tivesse batimento tão baixos ao ponto de parecer ter deixado de bater e o choque da água fria reativou-o, trazendo-o à vida. Foi de facto um milagre. Talvez um milagre numa aceção diferente daquela que é utilizada pela Igreja, mas, todavia, um milagre. A sua missão tinha que ser cumprida e para isso ele tinha de viver…

Da primeira vez o milagre foi obra de um padre e o instrumento foi a água fria da pia batismal. Da segunda o milagre foi obra de um médico e o instrumento foi o bisturi. Como diz o ditado: à terceira é de vez, ou talvez não.  Será que tudo isto não foi apenas aquilo que era necessário para o seu despertar para a espiritualidade?  Entretanto, consciente de que a sua missão ainda não está concluída, continua a deitar mãos à obra, todos os dias, à espera de um terceiro milagre!

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