Cartas e depoimentos na Pandemia – Carta 5

Lisboa, 17/11/2020

Olá Priscila,

Espero que esta carta te encontre bem, da minha parte alegria e felicidade por poder escrever-te.

Deixaste-me encantado com duas palavras: Professora e poeta. Isso só por si foi razão suficiente para querer escrever esta carta. Não me ocorre uma conjugação mais perfeita para uma pessoa se realizar. Espero que, ao longos destas linhas simples, mas verdadeiras, consiga interessar-te ao ponto de obter uma resposta. Na verdade, escrevo porque assim o desejo e o teu perfil me motivou a fazê-lo e, embora deseje receber uma resposta, não foi isso que determinou a minha decisão.

Eu adoro poesia. Adoro ler poesia, mas também gosto de a escrever, embora reconheça que me falta muito para ser um poeta, facto que acentua a admiração que tenho pelas pessoas que o são. Escrevo poesia, ou pelo menos tomo a liberdade de lhe chamar assim, embora não esteja seguro de ir além de um mero versejar. Aquilo que escrevo é, normalmente, publicado no meu blog, mas tenho poesias que foram publicadas, pela Chiado Editora, em Portugal, nas antologias anuais de poesia contemporânea. Fui convidado a participar pois eles foram os editores do único livro que tenho publicado. Não creio que as poesias, de minha autoria, que foram publicadas, sejam de grande qualidade, pois acho que a preocupação deles era incluir o maior número de escritores possível, em detrimento de qualquer critério de seleção qualitativo. Participei em meia dúzia de edições e depois deixei de responder ao convite anual. Senti-me explorado!

Independentemente da qualidade que os meus poemas possam ter, eles são escritos com alma. Escrever poesia, para mim, é um acontecimento que eu não controlo. Muitas vezes quero escrever um poema e o cursor, no ecrã do computador, recusa-se a mexer, deixando-o em branco. Outras vezes eu nem estou a pensar escrever um poema, mas quando os dedos começam a teclar, a torrente da inspiração jorra e eu verto, sobre esse mesmo ecrã, palavras que crescem e se tornam frases, com um sentido poético, independente da sua rima ou estrutura. Isto é para mim escrever poesia!

Também gosto de escrever outras coisas e de ler quase tudo, embora a escrita me ocupe muito tempo e não leia tanto quanto gostaria. Mas deixa-me falar-te de outra coisa que temos em comum: a profissão de professor. Desde que terminei a faculdade que concilio a profissão de gestor com a de professor universitário. O curioso é que aquilo que ensino é algo que nada tem a ver com a escrita. Trata-se de uma coisa bem fria, mas muito importante: Avaliação imobiliária. Como eu costumo dizer a poesia está presente em todo lado, mas confesso que é necessária uma boa dose de boa vontade, para a encontrar em matérias tão técnicas e áridas. Ensinar, como deves saber, é um desafio seja qual for o nível a que isso seja feito, mas ensinar nos tempos que correm, apresenta desafios ainda maiores. Estar presente numa sala de aulas, com metade dos alunos, tendo a outra metade em casa a assistir, de forma remota à nossa exposição, eleva o nível de dificuldade, quer da nossa capacidade de resposta, quer da eficácia em motivar os alunos que estão em casa, em simultâneo com os presentes na sala. Fiscalizar a realização de um exame por vídeo conferência, ou discutir um trabalho, por essa mesma via, apresentam desafios para os docentes que ninguém tinha antecipado. São tempos interessantes estes que vivemos e que nos levam a aprender coisas novas em áreas distintas daquelas onde atuamos, como é o caso das tecnologias informáticas e de comunicação.

Falemos de coisas também interessantes como os nossos gostos e sonhos. Aqueles que acalentam a nossa alma e nos ajudam sempre a dar aquele passo adicional de que necessitamos para ir mais longe, para melhorar e para aprender. Conhecer pessoas diferentes, países diferentes, culturas diferentes é algo que também nos une e do qual estamos privados de momento, a não ser com o recurso à internet. As redes sociais estão cheias de engodos e falsidade pelo que expor-se sem critério é um risco. Assim, projetos com aquele onde estamos a participar são um bálsamo para a dor do afastamento social, que tende a criar um afastamento efetivo.

A Priscila fala de sonhos e enumera um bem nobre: contribuir para uma educação de qualidade. A educação é fundamental a todos aos níveis: no pessoal, no familiar, no do país e no mundial. A verdade é que o futuro do próprio planeta depende, em grande parte, dela. Assim, criar uma educação de qualidade deveria ser o principal objetivo de qualquer responsável governativo. Infelizmente, as prioridades desses são sempre outras! Isso torna a importância dos professores, na sua contribuição individual e coletiva, para esse fim, não apenas importante, mas crucial. Bem-haja, por ser um dos que luta por esse desiderato.

Mas voltemos à escrita. O objetivo de publicar aquilo que se escreve é perfeitamente legítimo, embora nem sempre seja fácil de alcançar. Não sei bem como funciona no Brasil, mas em Portugal, não é fácil ser-se publicado por uma editora. No entanto, mesmo quando esse objetivo é alcançado, estas abandonam os autores, jogando-os numa arena pejada de leões. Apenas os autores consagrados recebem alguma da sua atenção. Os restantes têm de se promover a si próprios, ficando a editora com a maior fatia do bolo, em termos das receitas. O autor vê uns míseros dez por cento do valor da obra, mas o pior de tudo nem é isso. O pior é não existir qualquer atitude de promoção tentando maximizar as vendas de cujo produto elas são o seu maior beneficiário. Não te quero desanimar, mas como já passei por aí sei o que isso é. Hoje publico o que escrevo no meu blog e os livros que escrevo (tenho quatro não publicados) estão guardados para melhor altura.

Efetivamente, receber cartas é algo maravilhoso. Eu ainda escrevi algumas e recebi umas tantas, mas lembro-me bem a ansiedade com que recebíamos as cartas do meu pai, nos tempos em que ele estava em Angola, antes de nos juntarmos a ele, naquilo que foi a nossa aventura africana e onde vivi entre o sete e os treze anos. Era uma emoção que não é fácil de entender para quem apenas conheceu a realidade atual ou mesmo a dos últimos vinte anos

Termino, por hoje, tendo deixado, nestas linhas, algo de mim. Espero que a sua leitura desperte o teu entusiasmo e que te tornes parte desta partilha de amigos.

Fico a aguardar notícias, na volta do correio, e despeço-me com um abraço amigo.

Manuel Mota

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