Cartas e depoimentos na pandemia-Carta 6

Lisboa, 18/11/2020 (Portugal)

Olá Rita,

Espero que esta carta te encontre bem, por aqui, sorrisos e boa disposição ao escrever-te esta meia dúzia de linhas.

Não sei porquê, mas ao escrever esta carta veio-me à memoria o mapa do mundo e de repente realizei que estamos a oriente do Brasil. É uma constatação, não uma novidade, que é apenas relevante porque, em simultâneo, somos o país mais ocidental da europa. Isto demonstra a relatividade das coisas. Neste caso, trata-se de uma relatividade geográfica, mas podíamos estar a falar de língua, clima ou de outra coisa qualquer. Assim, é importante que no diálogo entre duas pessoas, ainda mais sendo estas originárias de países diferentes, embora com uma língua comum, a consciência dessa relatividade esteja sempre presente para garantir um entendimento correto da mensagem que cada um pretende transmitir. O objetivo desta minha missiva é falar-te um pouco de mim, aproveitando o pouco que sei de ti, na expetativa de despertar a tua curiosidade e estabelecer um canal de comunicação entre nós.

Realço duas palavras: professora e escritora. Aqui está uma dualidade que é seguramente motivo de grande satisfação e realização profissional. Ter o privilégio de partilhar o nosso conhecimento, com a garantia de que as nossas palavras vão encontrar ouvidos atentos e espíritos sedentos, é algo que pode e deve ser aproveitado para passar ensinamentos e conhecimentos, estes de ordem técnica, mas também princípios e valores, tão necessários para garantir a melhor convivência possível entre todos. Aproveitar este solo fértil, para lançar a semente, como faz o agricultor sábio e consciente, é um dever e uma obrigação de todo e qualquer professor.

Tal como tu, eu também sou professor e escrevo. Não sei se sou escritor, pois aparentemente, para tal é preciso um reconhecimento das editoras, dos críticos, enfim de pessoas que na minha opinião nem deviam ser chamadas a pronunciar-se sobre o assunto. O leitor deveria ser soberano. Mas, como qualquer consumidor de outros bens, ele acaba por ler o que lhe é colocado à frente dos olhos e isso faz com que existam muitos escritores ignorados, que em nada ficarão a dever a outros tantos afamados. Falo sobre isto sem amargura, mas apenas com algum conhecimento de causa.

Escrevo bastante. Escrevo quer sob a forma de prosa, quer de poesia (bom talvez seja apenas um versejar…), mas optei, faz algum tempo, por disponibilizar isso no meu blog, de forma gratuita e para quem quiser ler. Isso é verdade em relação a pequenas histórias e contos, mas não em relação às obras mais complexas. Tenho um livro publicado por uma editora e outros três aguardando melhores dias. Na verdade. já publiquei um livro no blog. Foi escrito em formato de novela: um capítulo por semana, durante oitenta e um semanas.

A atividade de professor, para mim é, imagino que seja assim para todos, muito gratificante. Adoro ensinar! Adoro a sensação de ter contribuído para a formação dos meus alunos e para o seu enriquecimento como técnicos e como pessoas. Isto é possível, porque dentro um uma temática abrangente como as avaliações imobiliárias, matéria que leciono, eu dedico uma boa parte do tempo à ética. Trata-se do capítulo mais aliciante e mais participativo, o que o torna também o mais desafiante. Naturalmente que o ensino destas matérias resulta muito enriquecido pelo facto de serem aulas de um mestrado e os alunos serem licenciados, em matérias diversas, com uma vasta experiência profissional.

Os tempos que vivemos dificultam um pouco a atividade do professor porque, pelo menos durante alguns períodos, tudo aconteceu à distância e por meios telemáticos.  Isso foi mais um desafio, mas os professores estão acostumados a ultrapassar desafios! Outra coisa que tu encaras como bem-vinda. Dito isto, eu prefiro claramente o contacto visual, sobretudo em matérias onde a análise e discussão de casos é o cerne. A videoconferência não consegue, nem o realismo, nem a paixão ou o dramatismo das intervenções ao vivo e isso empobrece o resultado, logo o processo de aprendizagem.

Achei o teu interesse pela poesia interessante e motivador. Foi, aliás, um dos motivos que me levou a escrever esta carta. A poesia é a linguagem das almas. Quando leio uma poesia, sinto-me transportar para uma outra dimensão. É como se fosse invadido por milhões de imagens desordenadas, que se agrupam para criar a sequência de uma cena de um filme animado e a cores. Mas escrever poesia é um outro processo. É um processo ainda mais grandioso! É algo, simultaneamente doloroso e gratificante. Escrever poesia, para mim, é como se vertesse o meu Eu, mais puro, mais intenso, pleno de sentimentos, numa folha de papel.  É um turbilhão de palavras feitas sentimento que sai de mim, sem que eu o solicite, para me esvaziar momentaneamente, diminuindo-me, para, em seguida, me elevar, enriquecido com a leitura do que foi escrito.

Comungo do teu gosto pela natureza. Existem sensações maravilhosas e insubstituíveis, como o mergulho nas águas revoltas do mar, furando as ondas ou simplesmente dando umas braçadas, num mal calmo que nos ampara, fazendo-nos flutuar. Sentir a areia molhada e fresca, sob a planta dos pés, enquanto passeamos na praia e o sol nos aquece a nuca o nos beija a face, é algo que todo o ser humano deveria experimentar.  Mas passear debaixo da copa frondosa das árvores de uma mata ou uma floresta, ouvindo o chilrear dos pássaros ou os gritos dos animais selvagens, enche-nos de uma paz inigualável.

Juntar às experiências anteriores o prazer de conhecer novos lugares e novas pessoas, multiplica, várias vezes, o sentimento de satisfação que estas nos proporcionam, e aí vem a gratidão. Sim, sentimo-nos gratos pela possibilidade de usufruir de tais maravilhas. Infelizmente, o nosso comportamento para com o planeta não é o reflexo dessa gratidão, mas antes um sentimento de proprietário rude e explorador. Um proprietário inconsciente de que uma exploração desastrosa pode conduzir à destruição da sua própria propriedade.

Alonguei-me sobre princípios que podem parecer maçadores ou com reflexões das quais podes discordar, mas isto sou eu. É sobre este eu que gostaria de receber a tua carta, falando-me de ti a propósito do que eu disse de mim.

Termino desejando que tenha despertado em ti a vontade de me responder e despeço-me com um abraço amigo.

Manuel Mota

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