Cartas e depoimentos na pandemia – carta 8

Lisboa, 19/11/2020 (Portugal)

Olá Simone,

Espero que esta meia dúzia de palavras, que dão cor à tela, te encontrem bem, junto dos que te são mais queridos. Por aqui tudo bem. O sol brilha e está um lindo dia de outono.

Li o teu perfil várias vezes e tenho de confessar que gostei do que li, mas o que me desafiou, verdadeiramente, foi o que não li. Perante esse facto considerei que a única saída era desafiar-me a mim próprio a escrever esta carta indo ao encontro do que não estava escrito, mas que eu “vi”. Espero não defraudar as espectativas, pois estou a falar com uma psicanalista, quando eu sou um mero gestor. Em todo o caso, gostava de saber mais sobre ti, por isso aguardo a tua resposta.

Ser amante da literatura é uma caraterística que partilhamos. Pessoalmente, sou viciado em literatura. Até aos vinte anos, altura em que deixei a minha cidade natal, no norte de Portugal, eu devorava qualquer livro que me aparecesse à frente. Depois disso continuei a ler, mas tornei-me mais seletivo. Recordo-me de não ter mais nada de interessante para ler na biblioteca, até chegar ao ponto de ler enciclopédias. Antes de chegar à faculdade tinha lido coisas como a Ilíada, a Eneida e a Odisseia. Clássicos lidos por muito poucos e desconhecidos de uma grande maioria. Naturalmente que também tinha lido os Lusíadas, bem como a maioria dos livros dos autores portugueses do século XVIII, XIX e XX. Ler, quer seja em prosa ou em poesia, é algo que me transporta para um universo diferente, em que, seguindo as orientações escritas num livro, crio, na minha mente, um mundo inteiro de locais e personagens, que acompanho durante toda a leitura. Vivo com eles as agruras, os dissabores e as alegrias. Festejo as suas vitórias com emoção e choro as derrotas com profunda tristeza. Emociono-me indo das lágrimas ao sorriso distendido, com a facilidade de um estalar de dedos. Sou um leitor rápido e atento, mesmo que tenha na minha frente um livro técnico ou um contrato complexo, que também leio em grande quantidade, devido à minha profissão.

Escrever é outra das minhas paixões, por isso tento construir pontes com outras pessoas que escrevem e isso acontece connosco. Dizes que te aventuras pela escrita e imagino que tenhas algumas publicações. Eu também já fiz esse caminho. Tenho um livro publicado por uma editora e outro no meu blog, numa modalidade de capítulos semanais. Tenho ainda mais três livros escritos, que esperam dias melhores para ver a luz do dia. Entretanto, vou escrevendo no meu blog, onde faço três publicações semanais e, em simultâneo, tenho um livro que cresce, mais ao sabor do tempo disponível do que da imaginação.

Ambos gostamos de ensinar. Tu és professora de língua portuguesa e eu de Avaliações Imobiliárias, num mestrado, de uma das mais conceituadas universidades portuguesas e com várias certificações internacionais. Ensinar é uma atividade que me dá uma satisfação pessoal e uma realização tão completa, que tenho dificuldade em a traduzir com palavras. É uma verdadeira paixão! Ensinar é, em primeiro lugar, um privilégio.  Ter à nossa frente um grupo de pessoas ávidas de aprender e, portanto, disponíveis para nos ouvir é uma oportunidade única, que implica uma responsabilidade tremenda. No meu caso existe uma matéria que me dá um prazer muito especial: o capítulo da ética. É verdade, no meio da aridez que é a avaliação imobiliária, a ética é um oásis. Na discussão dos casos de ética, nós expomo-nos, nos revelamo-nos, mostramos o nosso verdadeiro eu, no julgamento de comportamentos, ainda que hipotéticos.

Não sei como foi no Brasil, mas em Portugal este ano os professores passaram por uma experiência que implicou uma grande capacidade de adaptação e algum sacrifício, que foi o ter de ensinar à distância. Naturalmente que as novas tecnologias facilitaram imenso a tarefa, mas, mesmo assim, a mudança foi tão drástica e feita em tão pouco tempo, que exigiu muito de todos., inclusive dos alunos.

Acho muito interessante que te dediques a projetos (causas) que ajudam a curar algumas das enfermidades da humanidade. Eu também tenho alguns projetos, um dos quais se situa em Moçambique. Pertenço a um grupo que suporta a educação, num colégio, no norte de Moçambique, de um conjunto de jovens meninas. É gratificante ver como o pouco que lhes damos, para elas, não é apenas muito: é tudo. Vê-las crescer física e culturalmente, até chegarem à faculdade, como acontece num ou noutro caso, enche-nos o coração de alegria e os olhos de água. Dar um pouco do que temos, quer seja do nosso dinheiro, do nosso tempo ou do nosso conhecimento, sem esperar receber nada em troca, é definitivamente muito gratificante.

Conhecer novos países, novas culturas e novas pessoas é algo que mexe comigo no fundo do meu âmago. Infelizmente os tempos que vivemos são de afastamento social e consequentemente de permanência no nosso pais e até dentro de casa. Estamos confinados! Felizmente existem as tecnologias para nos ajudar a estabelecer canais de comunicação e é por isso que estamos aqui a escrever um ao outro, mesmo sem nos conhecermos. No entanto, para mim nada pode substituir uma boa conversa, olhos nos olhos, sentados num café ou numa cadeira de praia e, quiçá, com uma cerveja bem fresquinha, escorrendo pela goela. Adoro conversar. Escutar as pessoas falar de outros sítios e outras culturas e tentar perceber as diferenças para a minha é uma sensação muito gostosa. Na verdade, é no conhecimento das diferenças que nos aproximamos, que criamos aquela sintonia, que faz com que sejamos primeiro conhecidos e depois amigos. Existe prazer maior do que fazer um amigo? Não. Não existe. A amizade não acontece de um dia para o outro, nem entre todas as pessoas, mas quando acontece ela nos fortalece de uma forma em que o somatório de um mais um não é apenas dois, mas três ou quatro.

Mas comunicar através da fala pode ser útil para muitas outras coisas ainda que não se traduza numa amizade. Quantas vezes ajudamos outra pessoa só por escutar o seu desabafo? Desabafar alivia   a pressão que o problema está a causar, criando a sensação de que este se tronou mais pequeno. Na verdade, é essa pressão que faz com que só vejamos o problema, focando-nos nele e aumentando ficticiamente a sua dimensão e ao invés de nos focarmos na solução. É que, ao fazer com que a pessoa deixe de estar tão focada no problema, na maior parte dos casos, ela própria consegue identificar a solução para ele. Isto é muito mais a tua área, mas eu também me interesso por estas temáticas, não sendo, no entanto, nada mais que um curioso no assunto.

Deixei-te aqui um pouco daquilo que sou, numa abordagem que foi alinhada por aquilo que vi de ti. Espero que tenha sido interessante pra ti “ler-me” e que na volta do correio possa ler algo sobre ti, bem interessante também.

Termino com um abraço amigo

Manuel Mota

2 thoughts on “Cartas e depoimentos na pandemia – carta 8

  1. A amizade não acontece de um dia para o outro, nem entre todas as pessoas, mas quando acontece ela nos fortalece de uma forma em que o somatório de um mais um não é apenas dois, mas três ou quatro.- pura verdade!

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