Cartas e depoimentos na Pandemia – Carta 12

Olá Leandro,

Não sei se esta carta alguma vez chegará às tuas mãos por força das circunstâncias em que a mesma é escrita. Se for esse o caso, espero que a mesma te encontre bem e que esta possa servir de aviso sobre o futuro que nos espera.

Mais adiante te contarei sobre o que aqui se passa: divulga-o. Fá-lo por mim, uma vez que quando regressar, se o conseguir fazer, não conseguirei recordar nada do que aqui se passou. Tudo o que leve de volta comigo irá desaparecer durante a viagem, até as minhas memórias. Estranhamente as memórias sobre quem sou e onde vivo estão sempre comigo. Recentemente descobri um canal, através do qual, em princípio, posso mandar mensagens e estou a utilizá-lo para te enviar esta. Achei que eras a pessoa ideal para a divulgar, pois possuis os meios e o interesse para tal. Publica-a. Fá-la chegar ao maior número de pessoas possível!

Estou no planeta terra, no ano dez mil e cinquenta e três. O tinir das espadas e os gritos de guerra que sobem do vale são ensurdecedores e medonhos. A carnificina é geral e impiedosa. Os homens, de ambos os lados, tombam, uns sob o gume da espada outros sob a espada de epidemia que sobre eles se abateu. Apesar disso, mais ou menos três semanas antes a paz reinava no vale…

Quando cheguei fiquei prostrado pelo esfoço que a transição exige e fui encontrado por uma mulher que comandava um pequeno grupo de homens descomunais.  Fui transportado numa maca rudimentar, carregada por quatro homens enormes, que comunicavam ente si com grunhidos e com a mulher com meia dúzia de palavras, em castelhano. Apenas mais tarde percebi a razão de tal comportamento.

Durante o período em que me transportaram eu era incapaz de me levantar a andar sozinho. Os movimentos eram lentos e o corpo parecia pesar toneladas. Chegados à caverna colocaram-me num pequeno compartimento e adormeci profundamente. Acordei em sobressalto. A mulher estava acocorada na entrada da divisão onde eu repousava. À minha frente, depositado num recipiente de madeira, repousava algo que tinha sido assado na brasa. O cheiro era semelhante ao de galinha no churrasco. Sem dizer nada ela apontou para a comida. Estava com fome e não me fiz rogado. Satisfeito, levantei-me e saí da caverna, espreguiçando-me. No lado de fora estavam uns quantos homens enormes e de aspeto grotesco. Entre eles distingui um dos que me haviam carregado, por ser mais corpulento que todos os outros e usar uma espécie de estola a tiracolo, que tanto podia ser um adorno como uma distinção.

Os homens tinham o dobro do meu tamanho, quer em altura, quer em largura. Carregavam à cintura pesadas espadas e nos braços escudos enormes, que manejavam com uma facilidade incrível. Alguns deles praticavam um exercício que consistia em levantar pesados troncos, acima da cabeça e arremessa-los o mais longe possível. Os troncos deviam pesar à volta de cem kilos e eles conseguiam arremessá-los a uma distância, que calculei aproximadamente entre os doze e os quinze metros. Era uma demonstração de força e destreza extraordinárias. Fiquei a observá-los, boquiaberto, sem que se apercebessem da minha presença.

A mulher saiu da gruta atrás de mim, emitiu um som gutural, que foi entendido como uma ordem, fazendo com que todos se voltassem e se colocassem de joelhos. Com um gesto ordenou-lhes que me rodeassem. De imediato formaram um círculo à minha volta. O seu ar não era, nem amistoso, nem hostil, era apenas de expetativa. Depois num castelhano perfeito disse:

«Atarlo!»

O homem da estola avançou na minha direção com tranquilidade. Amarrar um ser minúsculo como eu era, seguramente uma tarefa fácil. Eu tremia de medo, sem saber bem como reagir. Instintivamente, levantei os braços e agarrei o homem pelos pulsos, na tentativa de retardar o mais possível o contacto das manápulas dele com o meu corpo. Algo de incrivelmente extraordinário aconteceu! Eu tinha adquirido uma força inimaginável e joguei o homem pelo ar, de encontro aos que formavam o círculo, lançando muitos deles por terra. Ficamos a olhar uns para os outros. Eu com ar de espanto e eles com um ar aterrorizado. A única que estava tranquila era a mulher, que deu nova ordem.

«Atarlo. Ahora todos juntos!»

Uma chusma de homens avançou sobre mim, prontos para me subjugar. Distribuindo socos e pontapés afastei-os a todos, deixando-os com algumas mazelas, mas sem ossos partidos. Ainda não refeitos da surpresa eles levantaram-se prontos para me voltar a atacar. Não imaginava o que se estava a passar, mas sentia-me invencível e aguardei de braços cruzados. A mulher levantou a mão e interrompeu o ataque. Em seguida dirigiu-se a mim em castelhano e explicou-me que aqueles homens estavam dispostos a lutar por ela até à morte, mas que, ao inverso, apenas a morte impediria os seus inimigos de lhe por fim à vida. Eu devia lutar até à morte com quatro homens que eram prisioneiros dela.

Os quatro homens estavam num espaço, destinado ao treino militar, cercado de uma paliçada, que deveria ter dois metros de altura e era guardado por homens com arcos e flechas. O jogo estava prestes a começar. Os quatro homens poderiam partir livremente se me matassem e conseguissem saltar o cercado. Eu apenas tinha como missão matá-los. Caso o não fizesse seria morto por um grupo de arqueiros que me tinha rodeado e se mantinha a uma distância de segurança. Estava perante o velho dilema: matar ou morrer. Disse à mulher que aceitava subjugar os homens, mas me recusava a matá-los. Ela sorriu e respondeu.

«Ahora lo veremos!»

Subjuguei os quatro homens em poucos segundos, deixando-os amarrados de pés e mãos e dirigi-me para a paliçada. Ultrapassei-a com um salto, que me surpreendeu a mim próprio e deixou os homens encolhidos.

Depois de me explicar que tinha sido sujeito a um teste, a mulher, cuja idade eu não consigo definir, mas que diz ter visto trinta e seis mil duzentas e setenta e cinco faces negras do dia, o que, pelas minhas contas, significa que tem noventa e nove anos, embora não aparente mais do que trinta, convidou-me a segui-la e eu obedeci. Passamos ao lado da entrada da caverna, por uma passagem estreita na rocha, onde existia uma ponte levadiça e um portão de estacas de madeira, que foi levantado para passarmos. Por detrás das rochas que albergavam a caverna, estendia-se um planalto extenso, coberto de vegetação. Havia um prado enorme, onde pastavam vários animais, de considerável dimensão e que terminava num bosque frondoso, na orla do qual, se erguia um pequeno forte, que escondia uma aldeia. Estes eram os domínios da mulher. Mais tarde fiquei a saber que ela era uma feiticeira famosa e que por essa razão, vivia sozinha na caverna. Era raro ela ali entrar, pelo que os homens e mulheres se prostraram à nossa passagem.

A mulher mandou-me sentar numa espécie de trono, que ficava num palco, situado na praça central e falou para a multidão. Falava lentamente e com palavras simples, sem o cuidado de construir frases completas. Eu tinha sido enviado pelos Deuses para os salvar. Nesse momento comecei a ficar preocupado. Se eu estava ali era porque algo muito mau estava a acontecer naquele ano. Em 2020 grassava na terra uma pandemia: o Covid-19, que tinha sido o evento do ano. Portanto, o evento do ano em que me encontrava, agora, seria também uma pandemia. Essa era a regra da minha movimentação no tempo. A pergunta surgiu-me como uma revelação: se estava no futuro, como podia o futuro representar um retrocesso tão grande em relação à civilização existente em 2020? Tinha que perceber qual era a minha missão naquela viagem e sair dali o mais depressa possível. Interrompi o discurso da mulher e disse à multidão que os Deuses não tinham a certeza que eles pudessem ser todos salvos. Eles teriam de pagar pelos seus erros, como outros já tinham pago no passado ainda que bem distante.

A mulher olhou para mim com uma expressão estranha e conduziu-me para a caverna. Depois de entrarmos a abertura foi fechada por uma laje de pedra descomunal o que a disfarçava, quando vista do exterior. Apenas Úrsula, assim se chamava a mulher, sabia abrir e fechar a caverna, coisa que aprendi rapidamente. Usando uma tocha, para alumiar o caminho, ela conduziu-me através de diversos túneis e câmaras, mostrando-me uma história contada com desenhos, pintados nas diversas paredes. Há vários milhões de anos os habitantes do planeta tinham explorado os seus recursos até à exaustão. Quando os recursos se tornaram demasiado escassos, exterminaram-se uns aos outros, usando armas nucleares. Apenas sobreviveram alguns habitantes nas zonas mais remotas onde, por coincidência, a civilização era mais rural. Viveram escondidos em refúgios debaixo da terra, até que a atmosfera fosse respirável. A civilização recuou centenas de milhares de anos, mas os homens não aprenderam e a história voltava a repetir-se.

Eu estava estarrecido. Como era possível a humanidade ter recuado tanto? Aqueles homens mal dominavam o metal! Paramos em frente a uma parede tão polida que parecia feita de betão. A mulher olhou para mim observando atentamente a minha reação. Eu avancei e passei a mão pela parede. Aquilo era betão. Como era possível.

«Este es concreto!» Disse eu, como se falasse comigo.

A mulher sorriu e abanou a cabeça. Como podia ela conhecer uma coisa que ainda não fora descoberta por aquela civilização? Úrsula manobrou uma alavanca, escondida na parede e esta moveu-se. Um grande quadrado de betão recuou e deslizou para o lado. À minha frente estendia-se um bunker recheado de artigos do século XXI. Paramos em frente a um grande espelho e ela apontou para as nossas imagens.  Eramos ambos iguais e nada tínhamos a ver com os humanos que habitavam a terra naquele momento.  Úrsula não sabia como tinha vindo ali parar, nem se tinha vindo do passado ou do futuro. Tinha acontecido um problema com a sua transição e ela tinha esquecido quem era. Isso significava que não podia regressar à sua era, pois para isso era necessário recordar-se dela. Tinha ficado presa naquele local. Era possuidora de uma grande força, embora bastante inferior à minha e de uma capacidade de produzir fogo com as mãos, entre outras habilidades. Para além disso, parecia imortal, ou pelo menos conseguia viver muito mais que os restantes, cuja esperança média de vida era de trinta anos. Isso tudo tinha-a tornado numa feiticeira. Úrsula pretendia que eu ficasse com ela, mas contentou-se com partilhar a sua cama comigo. Sim, no bunker existiam camas a sério. Dessa forma talvez pudesse vir a ter um herdeiro.

Saímos para o exterior e o ar parecia possuído por espíritos! Os homens estavam calados e assutados.  Os ruídos subiam do vale até à montanha ensombrando-nos. Uma mistura de lamentos de dor, gritos de guerra e tinir de metais, subia até nós. Eu olhei à minha volta tentando perceber o que se passava. Tínhamos ficado três semanas no bunker e muita coisa tinha acontecido. Pelas indicações da mulher nós estávamos algures, a meio da encosta da Serra Nevada e, lá em baixo, no vale onde outrora fora Granada, decorria uma batalha sangrenta. Em disputa estavam os terrenos à volta da serra, que sendo propriedade da feiticeira, permitia a quem dominasse os terrenos à volta controlar o acesso à feiticeira. A paz, promovida pela feiticeira durava há mais de duas gerações, mas a epidemia tinha vindo colocar em causa o equilíbrio. A feiticeira tinha curado um chefe, que veio de longe às escondidas. Ela apenas o curara de uma febre, mas, aparentemente, esse era o sintoma de uma epidemia que grassava no planeta e começava a ceifar mais vidas que as guerras. O conhecimento das suas capacidades depressa se espalhou e isso desencadeou uma luta pelo domínio do acesso à serra, como não existia memória. No vale, defrontavam-se várias centenas de milhares de homens e, de acordo com os espiões de Úrsula, nem todos morriam pelo fio da espada. Olhamos um para o outro interrogando-nos sobre o que perderíamos fazer por eles. Quando os primeiros homens chegaram à paliçada que impedia os acessos à serra, saímos para o exterior às escondidas e inspecionamos alguns dos doentes. Em 2020, alguém com os sintomas que eles tinham, seria portador do Covid 19. Se apanhasse a doença podia não conseguir sair dali. Corria, portanto, um grande risco. Um risco que eu não estava disposto a correr. Tinha chegado o momento de regressar a casa!

Despeço-me com um abraço

O Viajante do tempo

Caro Leandro,

Espero que esta meia dúzia de linhas te encontre bem. Esta noite voltei a ter um daqueles sonhos em que viajo no tempo. O sonho durou apenas umas horas, mas parece que estive ausente várias semanas. Desta vez pensei que tinha arranjado uma forma de fazer chegar uma mensagem a alguém, sobre o que vi por lá. Esse alguém eras tu, mas, entretanto, não sei o que se passou e se tive ou não sucesso. Apesar de não me recordar de nada, sinto uma angústia terrível, como se tivesse vivido um sonho mau. Se por acaso te fiz chegar notícias, partilha-as comigo.

Entretanto, despeço-me com um abraço amigo até à volta do correio.

Manuel Mota

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