Cartas e depoimentos na pandemia – carta 13

Lisboa, 23/11/2020 (Portugal)

Olá Evita,

O sol de outono aquece a minha janela (hoje estou em teletrabalho, por isso trabalho do meu escritório, em casa), mas o ar fresco que passa pela abertura, que mantenho para a circulação do ar, arrefece-me as pernas. Enquanto isso, escrevo esta carta, esperando que ela te vá encontrar bem. Por aqui tudo tranquilo, dentro da azáfama que é minha vida.

Quando comecei a ler tua carta fui tomado por um turbilhão que se transformou numa urgência em lê-la. Não consegui parar até que atingi o fim, numa derrapagem louca, tal era a velocidade estonteante da mesma. Adorei! Os altos e baixos e a aparente desconexão, criam uma coerência que não é fácil de construir e não seria expectável. Parabéns!

Escrevo de uma forma mais pausada do que tu, o que não quer dizer que a minha vida o seja, porque os dias são preenchidos, entre as sete da manhã e as vente e quatro, com as atividades mais variadas, sendo que a sua maior parte é tomada pela atividade profissional: Sou gestor de empresas!

Os dias nunca são monótonos, apesar de existirem tarefas que se repetem, o contexto em que se realizam muda quase todos os dias. Ser o administrador financeiro (penso que no Brasil se diz diretor) de um fundo imobiliário e turístico com mais de mil milhões de euros de ativos, entre os quais se encontram muitos hotéis, não é tarefa fácil, sobretudo devido à crise provocada pela pandemia. O afastamento social e o confinamento levaram ao desaparecimento dos turistas e consequentemente dos clientes, mas a vida tem de continuar. Temos de pensar na continuidade do negócio, mas sobretudo em cuidar das pessoas que dele dependem. São tempos difíceis, em que por vezes somos forçados a tomar decisões muito difíceis!

Para conseguir realizar tudo o que pretendo durante o dia, tenho que o planear muito bem e acomodar todos os imprevistos de forma a conseguir ser Eu e para além disso ser esposo, pai, filho, professor, formador, escritor, gestor e ainda cuidar do bem estar físico. Fazer tudo isto exige alguma disciplina. Sim, sou disciplinado.

Por isso, entendo muito bem quando falas da tirania do relógio, a que eu adicionaria a do calendário. Infelizmente, existem sempres prazos e datas que tenho de respeitar e um conjunto muito vasto de pessoas que contam comigo, para uma miríade de coisas, desde acordar a esposa com um batido e uma dúzia de beijos, logo de manhã, até garantir o emprego e o salário de milhares de pessoas. Durante o dia as solicitações não param, quer provenham dos filhos, dos colegas de trabalho ou dos alunos. Todas têm que ser atendidas! Bem gostaria de me libertar dessa tirania, mas para isso teria de me dedicar a uma tarefa que o permitisse e, para ser honesto, não conheço nenhuma.

Por tudo isto, o turbilhão que é a tua forma de ser, representa para mim uma lufada de ar fresco que eu quero respirar. Quero encher os meus pulmões dessa rebeldia contra os grilhões do tempo e viver, ainda que por efémeros instantes e apenas nos meus sonhos, essa liberdade. Obrigado por me proporcionares esse sentimento!

De Lisboa e de Portugal o que te posso dizer é que vivemos hoje com um conjunto de regras e restrições à liberdade que me incomodam, embora entenda a sua necessidade. Apesar de entender a necessidade das regras, sempre prezei muito a prerrogativa de lhes poder desobedecer e quando essa deixa de existir, aí sim, eu sinto que estou numa prisão.  A história ensina-nos que os grandes regimes ditatoriais começaram todos por criar pequenas restrições, em nome de um bem maior e perfeitamente aceitáveis. O problema é que a tentação de governar sem contestação é grande e isso pode abrir portas que eu gostaria que estivessem sempre fechadas.

Não conheço o escritor que mencionas na tua carta e a busca na internet revelou que publicou algumas histórias num blog até 2013 e desde essa altura não encontro registo dele. Sabes dizer-me o título de algum livro que tenha escrito?

Sim conheço o Mulherio das Letras, como agrupamento de mulheres escritoras. Estão lá todos ou quase todos os talentos femininos portugueses o que apenas abona a qualidade do grupo. Não consegui encontrar aí, os livros de que és autora. Podes enviar-me um link que me leve diretamente a estes? Deixo aqui os links para o meu livro na FNAC e na Chiado Editora, que o editou.

https://www.fnac.pt/Codigo-Impala-Manuel-Mota/a702444

https://www.chiadobooks.com/autores/manuel-mota

Colaborei também com a Chiado Editora em algumas coletâneas, nomeadamente a de Poesia Contemporânea, a de Contos de Natal e a de Cartas de Amor. No entanto, ao fim de algum tempo senti que apenas estava a alimentar a editora, que aproveita estas coletâneas para aumentar as suas receitas, sem qualquer partilha com os autores que têm de comprar a coletânea, se a quiserem possuir. Deixei de responder aos seus pedidos para envio de material literário!

Termino por aqui, esperando que as minhas lamentações não te macem, pois elas fazem parte daquilo que sou.

Fico a aguardar resposta tua, na volta do correio e despeço-me com um abraço amigo

Manuel Mota

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