O SUCESSOR

O entusiasmo era geral. Ter um cão era o sonho de sempre dos filhos e o sonho estava prestes a concretizar-se, ainda que fosse apenas por uma semana. Pedro tinha ido, com a filha mais velha, buscar o Beagle, que haviam reservado há mais de um mês. O cachorro tinha apenas dois meses e estava um pouco confuso. Tinha sido apartado da ninhada! Para trás ficaram os cinco irmãos e a mãe, bem como todo o conforto e segurança que conhecia. O coração batia forte e o corpo tremia de nervosismo.

Apesar de terem ido munidos de uma caixa o cachorro estava demasiado irrequieto para vir lá dentro. Teresa enrolou-o no seu casaco e foi assim que ele fez o trajeto entre a antiga e a nova casa. Quando chegou, apesar de continuar irrequieto, comeu, bebeu e tratou de marcar o terreno, ainda que se tratasse apenas da cozinha da nova casa. Recebeu muito carinho e amor, mas a verdade é que estava afastado da família e isso não seria facilmente compensável. Apesar de tudo, ao fim dos primeiros cinco dias o cachorro estava acostumado à sua nova casa e à forma como era tratado. Na verdade, era muito bem tratado.

Margarida nunca tinha aceite ter cães em casa, apesar do marido, e os três filhos, duas raparigas e um rapaz, sempre o terem desejado. No entanto, durante o período em que o cão esteve lá em casa, deu por si a limpar a porcaria que este fazia, sem grande contrariedade. A família estava apaixonada pelo cachorro e ela sentia o mesmo, embora contivesse as suas emoções: custava-lhe dar o braço a torcer.

O Natal estava à porta e isso significava uma despedida. O King, assim se chamava o cachorro, iria conhecer o seu verdadeiro dono: a mãe de Pedro. Leonor tinha oitenta anos e vivia com a sua cadela Laica e com um filho, que tinha sofrido um acidente que o tinha colocado numa cadeira de rodas. Era uma vida complicada, sobretudo porque o filho vivia revoltado com a sua condição e se vingava, ora na mãe, ora na cadela, que se ressentia da hostilidade. A Laica estava na fase final da vida. «Assim que entrar em sofrimento o melhor é abatê-la, mas antes disso não é necessário.» tinha dito o veterinário. A ideia era que a Laica adotasse o King e pudessem ser companheiros da família, suavizando a partida da cadela. Mãe e filho ficaram, de imediato, apaixonados pelo cachorro, mas a Laica deixou o ciúme falar mais alto.

O Natal foi passado em família, sendo que o King e a Laica também tiveram de partilhar o espaço. No entanto, por mais tentativas que o dono fizesse ela não aceitou que o cachorro se aproximasse dela e o King, como bebé que era, insistia em brincar com ela, ao ponto desta lhe virar o dente. Ao fim de três dias a situação ficou clara: a conivência entre os dois animais era impossível. King era suposto se um companheiro de fim de vida, mas a falta de entendimento entre os animais transformou-o apenas num sucessor.

Esta conclusão teve consequências inesperadas e dolorosas. Mãe e filho não queriam deixar partir o cachorro, pois tinham ficado encantados com o animal. Por seu lado, a nora teve de aceitar um cão lá em casa que, para além de tudo, não podia ir à rua, e fazia as suas necessidades espalhadas pela casa. Miguel tinha-se afeiçoado de tal forma ao cachorro que ficou ainda mais revoltado quando este partiu. Tinha-se acostumado às suas lambidelas e a tê-lo aninhado no seu colo, coisa que era impossível com a Laica.

Pedro sentia-se infeliz e irritado consigo próprio. A decisão de comprar um cachorro tinha sido bem-intencionada, mas a possibilidade dos cães não se entenderem não tinha feito parte da equação e isso tornava a mesma irresolúvel. A mulher estava aborrecida por ter um cachorro bebé lá em casa e a mãe e o irmão aborrecidos por não o terem consigo. A solução era abater a Laica, mas ele não se atrevia a sugerir tal coisa. A cadela tinha tido uma trombose e ficou com a boca de lado, babando a casa toda. A isso acrescia o cancro que se espalhava rapidamente pelos seus órgãos e que seguramente a faziam sofrer, mas o veterinário insistia que enquanto ela comesse, deveria viver.

O drama prolongou-se por um mês ao fim do qual se deu um verdadeiro milagre. A Laica acabou por ser abatida para evitar mais sofrimento e, no mesmo dia, o King mudou de casa. Felizmente já podia ir à rua e estava ensinado a fazer as necessidades num único local. Ensiná-lo a fazê-las num local diferente foi fácil. No entanto, o verdadeiro milagre foi operado pelo King. O cachorro com a sua energia, simplicidade e jeito de bebé atrevido, trouxe uma harmonia ao lar que este já não conhecia fazia algum tempo. Miguel em vez de reclamar da vida dedicou-a a cuidar do animal, ensinando-lhe pacientemente como se comportar. Enquanto Margarida, liberta do stress causado pelo filho, gozava os merecidos momentos de descanso, usufruindo, também, da companhia do cachorro. O animal parecia que entendia exatamente qual era o papel que dele se esperava e desempenhava-o com afinco.

O primeiro almoço de família, após a Laica ter partido, foi quinze dias depois. Pedro e a esposa nem queriam acreditar naquilo que viam. Mãe e filho partilhavam o cachorro com um sorriso e um entendimento que eles nunca tinham visto, desde o acidente. Os filhos deles juntaram-se à festa e a reunião de família foi memorável. Afinal o sucessor estava à altura do seu papel. Pedro pegou no cachorro ao colo e acariciou-o. O animal lambeu o rosto dele e o da Margarida, que se tinha aproximado, ao mesmo tempo que soltou um latido amistoso. O cachorro estava feliz e Pedro também. Margarida sorriu para ele e piscou-lhe o olho, numa mensagem muda: acertaste em cheio!

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