O cinto

O primeiro ministro ia a meio do discurso quando o mundo desabou. Juliana deixou de o ouvir, fechou os olhos e as lágrimas escorreram livremente pelas faces. A perspetiva de ter de passar outra vez pelo mesmo tormento deixou-a em desespero. O peito doía-lhe e o coração batia acelerado, como se quisesse saltar cá para fora. Tinha de tomar uma decisão! O pensamento transportou-a para a altura do primeiro confinamento…

Desde meados de março que o país estava confinado. Tiago ainda teimou em ir à empresa, mas a partir do dia vinte e dois de março foi abrigado a deixar de ir escritório. A atividade de advogado iria exigir que fosse ao escritório uma ou outra vez, mas a maior parte dos dias estaria em casa. O governo tinha sido claro e o escritório implacável: todos os colaboradores deveria ficar em teletrabalho.

As primeiras duas semanas até foram interessantes. Estar em casa todo o dia, junto da esposa e dos filhos, foi refrescante, embora tenha sido muito exigente para a Juliana. A empregada tinha deixado de vir e ela tinha de tratar de tudo. Tiago tinha sempre muito que fazer durante o dia e a seguir ao jantar era o primeiro a ir sentar-se no sofá. Os filhos, um casal de sete e dez anos, respetivamente, iam logo ter com ele. Tiago brincava com as crianças aproveitando a oportunidade para os repreender, mais uma vez, pelas interrupções que tinham feito ao longo do dia. No entanto, quanto chegou o fim da segunda semana, as coisas azedaram.

Era preciso limpar e aspirar a casa e Juliana entendeu que não era obrigada a fazer tudo sozinha, como tinha acontecido com a comida ou as limpezas mais leves. Tiago quando ouvir falar em limpezas entrou em ebulição.

«Eu sou advogado e ganho o suficiente para sustentar a casa e pagar a uma empregada.»

«Pois, mas a empregada agora não está aqui e eu não consigo fazer tudo sozinha. São as crianças, é a casa, as refeições… Não consigo fazer tudo sozinha!»

«Se tu, para além de não conseguires sustentar a família, com o mísero ordenado de funcionária pública, também não consegues cuidar da casa, então é melhor eu pensar em arranjar outra mulher!»

Tiago saiu do quarto, bateu com a porta e foi fechar-se no escritório. Juliana não se deu por vencida e foi atrás dele. Entrou no escritório de rompante e soltou os cachorros!

«Se pensas que só porque ganhas mais do que eu, vou ser a tua escrava estás muito enganado!»

A mão dele assentou-lhe no rosto com tal violência, que ela se estatelou no meio do chão. Tiago estava transfigurado. Colocou-se de joelhos ao lado dela, apertou-lhe o pescoço e disse, em tom baixo e rouco.

«Vais sair daqui e fazer a tua obrigação, antes que te arrependas!»

Juliana levantou-se a custo. Aquela chapada pesava-lhe uma tonelada. Não era tanto a dor, embora o rosto latejasse e o lábio sangrasse. Era a humilhação. Ela sempre dissera que o homem que lhe tocasse se arrependeria e agora estava naquela situação. Uma raiva surda tomou conta dela, à medida que se dirigia para a porta. O impulso foi mais forte do que ela e voltou-se lentamente.

«Se me voltas a colocar a mão em cima vou direta à polícia!»

Tiago aproximou-se dela muito devagar e com um olhar trocista.

«Se alguma vez alguém souber algo do que se passa dentro desta casa eu mato-te. Mas primeiro dou cabo do desgraçado do teu filho.»

João, tinha dez anos e era filho do primeiro marido. O pai tinha morrido quando ele tinha dois meses e o único pai de que tinha memória era o Tiago. Juliana sentiu um calafrio na espinha quando ele mencionou o filho. Ela já tinha percebido que o marido favorecia sempre a filha, embora disfarçando sempre com o facto de esta ser mulher e ser mais nova.

O medo tomou conta dela e encolheu-se de encontro à porta. Tiago lançou-lhe um olhar de superioridade e virou-lhe as costas. Juliana estava apavorada. Não sabia o que fazer nem a quem pedir ajuda. A família vivia toda no norte de Portugal, portanto demasiado longe para a socorrer e os amigos eram comuns. Ela não tinha a certeza de que lado eles iriam ficar se ela contasse alguma coisa. Seguramente que iriam falar com ele. Ela não podia correr o risco de o colocar numa situação em que ele fosse levado a cumprir a ameaça. Tratou da casa, dos filhos e do almoço. Tiago, quando foi para a mesa, estava um mel. Foi carinhoso com ela e simpático com o João. Pela primeira vez chamou à atenção de Leonor por esta abusar do irmão. Juliana estava fria e distante. Não conseguia esquecer o que ele lhe tinha dito e feito no escritório. Para além disso, tinha no rosto a masca da violência que tinha sido exercida sobre ela.

Durante o fim de semana Juliana manteve-se afastada dele, falando o mínimo indispensável e no sábado foi para a cama cedo, fingindo que estava a dormir quando ele se foi deitar. A verdade é que não conseguia adormecer. O seu casamento era um fracasso e ela tinha de encontrar uma solução.  Amava aquele homem com todas as suas forças. Amava-o com a mesma intensidade com que o queria fora da sua vida. «Meu Deus ajuda-me que eu não sei o que fazer!» Disse numa prece muda. Adormeceu já a alva se anunciava e quando acordou já Tiago estava a tomar o pequeno almoço com os filhos.

«Mão estás doente?» Perguntou o filho, quando ela entrou.

Juliana olhou para o marido interrogadoramente e este encolheu os ombros. Beijou os filhos, mas não cumprimentou o marido.

«Por que perguntas isso João?»

«Estás com um ar muito cansado! O pai disse que se calhar estavas mal da cabeça… por isso é que precisavas e dormir tanto.» Respondeu o filho.

«És tão querido meu filho. É pena nem toda a gente ser assim.»

O domingo foi péssimo. No passado eles iam sempre almoçar fora e passear, sendo o dia mais divertido da semana, mas aquele foi um domingo negro. Quando ela disse que ia para a cama Tiago foi atrás dela. Ela deitou-se primeiro e ele jogou-se para cima dela e começou a beijá-la.

«Deixa-me. Não me apetece estar contigo. Quero dormir.»

«Vais ter a noite toda para dormir, mas primeiro o teu maridinho vai amar-te do jeito que tu gostas.»

Por regra aquele tipo de comentário deixava-a louca, mas naquele dia não surtiu o efeito desejado. Juliana fechou-se em concha e repetiu.

«Deixa-me!»

«Antes de te recusares a fazer amor é bom que penses no teu futuro e no do teu filho. Outra coisa: antes de começares a ter ideias parvas, como a do divórcio, pensa que eu vou conseguir a guarda partilhada do teu filho. Imagina o inferno que seria ele passar comigo duas semanas por mês.»

Juliana cedeu. Ela adorava sexo e ele sabia como satisfazê-la. A verdade é que sentiu prazer. Depois do primeiro clímax ele queria mais. Nessa noite estava endiabrado. Até parecia que a violência o excitava! Juliana ofereceu alguma resistência e ele ficou ainda mais excitado. Colocou-a com ao abdómen para baixo, sem contemplações e sentou-se sobre ela. Sendo bastante mais alto e pesado dominou-a sem dificuldade. Para a manter submissa prendeu-lhe os pulsos à barra da cama, com recurso a umas gravatas. Juliana resistia, mas a verdade é que isso lhe dava um prazer incontrolável. Tiago percebeu a excitação dela e amordaçou-a. Depois pegou no cinto e começou a bater-lhe. As primeiras pancadas foram quase só prazer, mas as últimas foram apernas dor. Juliana apesar de amordaçada demonstrou claramente que não queria aquele tipo de tratamento. Quando se deu por satisfeito ele penetrou-a sem cerimónias e atingiu o orgasmo dentro dela. A penetração não lhe foi indiferente, mas ela esteve muito longe de atingir o prazer que a relação lhe costumava dar.

Na semana seguinte Tiago começou a ir trabalhar para o escritório e voltou a ser o homem de sempre. Apesar disso, Juliana dizia para si própria que nada faria com que ela o voltasse a ver da mesma forma que antes. Na sexta feira Tiago disse que precisavam de conversar e Juliana pensou o pior. O primeiro pensamento que lhe veio à mente foi: ele vai pedir-me o divórcio. Ela estava muito magoada com ele, mas não estava preparada para o perder. Foram horas de suspense e sofrimento. Mentalmente, ela perdoou-lhe mil vezes e mil vezes o condenou. Não conseguia resolver aquela disputa entre os dois “eus”. Era uma disputa sem vencedor nem vencido!

A surpresa foi tão grande que ela teve dificuldade em digerir o que estava a ouvir. Tiago estava arrependido do seu comportamento e foi com palavras entrecortadas por lágrimas, que lhe abriu o coração. Ver o homem que amava, ajoelhado a seus pés, a pedir-lhe perdão, foi demais para ela. Deu-lhe o perdão e muito mais: entregou-se novamente a ele, de alma e coração.

Com o agravar da pandemia, em outubro, começaram a trabalhar alternadamente, uma semana no escritório e outra em casa. Tiago decidiu que deviam alargar o horário da empregada, para cuidar das crianças até mais tarte e ele não ser constantemente interrompido. Para as coisas funcionarem melhor, a semana em que ele estava em casa, ela ia para o escritório e vice-versa. Isso acabou por funcionar muito bem. No entanto, na altura do Natal, houve um facto que causou alguma destabilização. Era o ano de irem ao norte, passar o Natal com os pais dela. Tiago entendeu que não o deviam fazer, para proteger os velhotes e Juliana concordou. Nesse mesmo dia, escutou uma conversa que não devia e não consegui evitar uma explosão de desagrado.

«Mãe consegui inventar uma justificação para não passarmos o Natal com os pais da Juliana. Assim podemos passá-lo convosco.»,

Tiago estava no escritório e quando se virou deu de caras com a Juliana, encostada na ombreira da porta, com o olhar fixo nele. Percebeu logo que ela tinha escutado a conversa e engoliu em seco.

«Eu gosto de estar com a tua família, até porque a considero a minha família. Mas ver-te usar um estratagema como este para não ir ao Norte, apenas com o objetivo de passar o Natal com os teus pais é demais. Nós não vamos a lado nenhum. O Natal este ano é a quatro!»

De nada valeram as tentativas de Tiago para a demover ou os pedidos da sogra. A família dele não gostou e Tiago ficou furioso. A única pessoa que ficou do lado dela foi o sogro, quando percebeu o artificio a que o filho tinha recorrido. Ele fez algumas ameaças veladas e ainda cresceu para ela, mas no último instante conteve-se. Foi um Natal triste. Juliana colocou o marido a “pão e água” e ele estava furioso. Foi neste contexto que Juliana ouviu o primeiro ministro a anunciar o novo confinamento.

Tiago não tinha conseguido lidar, psicologicamente, com o isolamento, durante o último confinamento, pelo menos essa tinha sido a justificação apresentada. Este seria, apesar de tudo, um confinamento diferente. O problema é que Juliana estava cada vez mais convencida de que o problema não era o confinamento: o problema estava dentro do Tiago. Embora não tivesse provas disso, o mais provável era que tivesse outro relacionamento do qual o confinamento o privava e ele não conseguia lidar, nem com a privação, nem com a rejeição. Isso tornava-o violento. O mais irónico é que mesmo que fosse essa a razão real, a justificação dele não deixava de ser verdadeira.

Ela tinha chegado a casa mais cedo e o marido só chegaria daí a duas horas. Juliana chorou tudo o que não tinha chorado antes. Chorou até por antecipação! Custava-lhe muito tomar aquela decisão, mas não estava disposta a passar outra vez pela mesma humilhação. Ou dizendo melhor, tinha de passar outra vez por ela, para fazer com que tal nunca mais voltasse a acontecer.

Juliana ainda estava zangada por causa da cena do Natal e manteve-se afastada, mas a verdade é que ele também não a procurou a não ser ao fim da primeira semana de confinamento.

«Ainda não saíste do castigo. Deixa-me em paz!»

«Se nem para me satisfazer tu serves o melhor é eu procurar outra!»

«Tenho a certeza que já a encontraste. O teu problema é que quando está confinado não tens acesso a ela. Nas últimas três semanas não me procuraste, porque vinhas para casa satisfeito.»

Tiago foi apanhado de surpresa pelo comentário e não reagiu de imediato. Ela olhou para ele e pensou «Acertei em cheio!» Um sorriso irónico preencheu os lábios dela. Tiago quando tomou consciência da mensagem que o corpo imanava reagiu de imediato, entrando em negação. Não valeu de nada. Eles sabiam ambos que ela tinha razão. Vexado com a situação ele amarrou-a e amordaçou-a rasgando-lhe o pijama. Presa à barra da cama ela estava indefesa, mas mesmo assim evitaria que ele a penetrasse. Encolheu-se em concha, colocando-se em posição fetal. Tiago estava completamente fora de si. O rosto estava transformado numa máscara de ódio. Vê-la indefesa, mas ao mesmo tempo inacessível, fê-lo perder as estribeiras! Pegou no cinto e espancou-a. Só parou quando a carne flagelada pintou o próprio cinto de vermelho. Nessa altura, soltou um urro, num misto de raiva e medo, dando-lhe mais algumas chicotadas. Os gritos dos filhos trouxeram-no de volta à realidade. Eles tinham acorrido ao quarto, alertados pelo barulho e presenciaram a parte final da agressão.

Tiago saiu do quarto, num rompante, empurrando, com violência inusitada, o filho, que estava plantado a meio da porta, em estado de choque. O embate na parede abriu-lhe a cabeça, mas isso não o impediu de ir em socorro da mãe. Depois de solta, Juliana levantou-se com muito custo. Fechou a porta do quarto, com a ajuda dos filhos e colocou a cómoda encostada a esta. Depois fez o telefonema.

A campainha da porta tocou insistentemente e Tiago foi ver quem era. A presença de um partner do escritório onde trabalhava deixou-o intrigado. Ainda bem que a mulher e os filhos estavam trancados no quarto. Assim o colega não perceberia o que se tinha passado.

«Podemos entrar?»

Tiago tinha a porta meio aberta e olhava, boquiaberto, para o colega e para os dois polícias, que estavam atrás dele.

«O que se passa?»

«Temos um caso de polícia para tratar.» Respondeu o colega com tranquilidade, voltando a insistir.

«Podemos entrar?»

«Claro que podem. Estejam à vontade. “mi casa es tu casa”»

Tiago estava nervoso e utilizou a expressão espanhola para suavizar a situação. O que ele não realizou, na altura, é que estava a franquear a casa ao advogado da mulher e às autoridades.  O colega foi direito ao quarto e quando as autoridades depararam com a Juliana e o filho, naquele estado, ele foi de imediato colocado sob prisão. A judiciária chegou pouco depois e Tiago ainda alegou que tinha sido ela a infligir os danos a si própria, mas o cinto, que tinha levado com ele para o escritório e os vestígios de sangue na roupa e nas mãos, gritavam a uma só voz: culpado! O testemunho dramático das crianças, secundado pelo da esposa, puseram um ponto final à situação.

Tiago foi condenado. Juliana, ao contrário do expetável não se sentiu vitoriosa. Estava confusa. Sentia alívio por estar protegida, sobretudo por ter protegido os filhos, de um agressor, mas sentia um peso e uma dor enorme, por ter condenado o homem que amava. A psicóloga, a quem tinha pedido ajuda, dizia que ela tinha de aprender a viver uma vida nova. Ela estava de acordo, mas vivê-la sozinha era muito duro!

Para além do que o marido lhe tinha feito o que a marcou por demais foram as palavras da sogra, que ditaram a proibição de esta ver os netos, até estes atingirem a maioridade. Quando questionada, em pleno tribunal, sobre a atitude do filho foi perentória:

«Duvido que o meu filho tenha feito isso, mas se fez foi porque ela o mereceu. Nesse caso é pena que não tenha acabado com a vida dela. Assim, eu podia ficar com a minha neta e colocar esse fedelho num orfanato, que era onde ele devia estar!»

Aparentemente, o número de casos de agressão doméstica tinha aumentado, com a pandemia, mas o que era mesmo incompreensível era a cobertura que lhe era dado por mulheres como a sogra dela!

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