Cartas na pandemia 19

Lisboa 22/12/2020

Aproveito a pausa a seguir ao almoço para deixar que os dedos acompanhem o pensamento que voa para longe, indo ao teu encontro. Espero que estejas bem e que o trabalho tenha tirado férias, deixando-te um tempinho para cuidar do Natal, que é o mesmo que dizer para cuidar da família.

Hoje tenho uma surpresa para ti. Vou apresentar-te o Poeta e dar-lhe voz nesta carta. Vamos ver se ele não se excede!

«Quem? Eu? Eu nunca me excedo!»

Falo de poesia porque ela está em tudo e em todos. Tu é que tens a mania do pragmatismo! Isso agora não interessa para nada. A única coisa que me interessa é saber da minha querida Jaqueline. Deixa-me dizer-te como te vejo, depois de ler a tua maravilhosa carta.

Fiquei deliciado. A ideia de partilhar um pouco do teu céu foi algo incrível. Imaginei-me sentado no teu alpendre, olhando o céu, junto ao beiral, enquanto a palmeira oscilava, com aquela aragem que antecede a tempestade. Lá no alto, as nuvens engrossavam, com promessas de chuva derramada, tão pronto esta se tronasse demasiado pesada para se contida no seu seio. Tu, estás sentada no teu cadeirão e, lentamente, fechas os olhos. O matraquear da impressora são notas musicais e as classificações dos teus alunos desfilam na pauta de música, num concerto de autor desconhecido, mas cuja melodia te embala. Os cabelos loiros caem-te pelos ombros, emoldurando um rosto fino e elegante. Hoje estás mais bela do que nunca!

A musicalidade da impressora foi substituída pelo chilrear dos passarinhos e a brisa suave brinca com os treus cabelos, afagando-os com suavidade. Varre-te o rosto como um carícia e planta um sorriso nos teus lábios. O teu pensamento voa. Carrega a tua alma, numa demanda sem fim. Tem sede de conhecimento, de patilha, tem sede de poesia. Sim a poesia é o alimento da alma, pelo menos de algumas almas. O rosto ilumina-se e o corpo aquieta-se. Enfim encontraste o que procuravas.

Satisfeita a alma, deixas o pensamento prosseguir movido por grande inquietude. Os amigos partem, mas outros virão. Recebes, com orgulho, o reconhecimento merecido sob a forma de um convite. Fiel aos que te são fiéis recusas. Estás em paz e em paz contigo fico, congratulando-me com o teu sucesso.

«Chega! Estás a exceder-te. Chega-te para lá.»

Tal como no Brasil chegou a hora da vacinação e também da discórdia.  Discute-se o início, discutem-se os critérios e enquanto isso o tempo passa. É possível que a vacinação comece a vinte e sete de dezembro, devendo toda a população ser vacinada, de acordo com uma ordem que a dividiu em três grupos. Os que estão no último terão de esperar muitos meses até serem vacinados, pois a questão da disponibilidade da vacina também pode vir a ser um tema.

Vamos poder celebrar o Natal com um pouco mais de liberdade, mas as restrições voltam logo no dia vinte e sete, pois os números de contágios são pouco animadores e os números de mortos também. Como no resto do mundo as pessoas começam a ficar cansadas do confinamento e não resistem a sair e celebrar a vida. O irónico é quando a celebração da vida é o princípio do fim desta. Esta liberalização do Natal vai ser um desafio, pois sendo uma festa de família a possibilidade de resultar num grande contágio dos mais velhos é enorme. Tememos o pior, mas esperamos o melhor!

«Basta de lamúrias!»

Sempre que dizes alguma coisa é um negativismo que até enjoa. Só me apetece apagar os últimos parágrafos. Bom, o melhor é ignorar-te. Jaqueline fala-me de ti. Sei alguma coisa da tua vida, mas sei tão pouco de ti! Posso tentar imaginar-te de mil formas, mas tenho a certeza que o retrato será muito mais belo e fiel se for feito pela tua mão. Vejo em ti a musa inspiradora que leva os seus alunos à realização de concretizações fantásticas, providenciando-lhes um conhecimento e uma satisfação que apenas pode resultar de uma aprendizagem profunda. Uma aprendizagem que só é possível com os ensinamentos de um verdadeiro mestre. Deixa-me conhecer-te!

«Lá estás tu a ser intrusivo outra vez. Para!»

Desculpa Jaqueline. O poeta não consegue controlar-se. Ele não entende o respeito pela privacidade de cada um e custa-lhe a aceitar que uma amizade cresce devagar, sobretudo, quando tem como único sustento a troca de uma carta, entre duas pessoas que vivem em realidades distintas e a milhares de quilómetros de distância. Vamos ver se ele nos deixa trocar esta meia dúzia de linhas em paz.

O céu já esteve azul o que é uma novidade, depois de semanas de chuva. Está frio, mas não tão frio quanto podia estar e como podes ver pelo bocadinho de céu que vejo do sexto andar (fotografia em baixo), as nuvens já formam um tapete que quase esconde, por completo, o azul celeste. Assim, fazemos uma troca dos nossos pedacinhos de céu.

O trabalho abrandou um pouco e só a partir do dia quatro de janeiro é que deverá voltar a intensificar-se. É altura de irmos tratar das rabanadas e dos outros doces e Natal. Cá por casa comem-se poucos doces, mas as rabanadas são a minha especialidade, por isso, vou tratar delas ainda hoje.

Termino com um forte abraço… Um abraço! O que é isso? Sim um forte abraço do teu amigo… Espera. Termina com um beijo. Um abraço. Um beijo. Um abraço. Pronto um beijo e um abraço, dos teus amigos

Poeta e Manuel Mota

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s