Cartas na pandemia 20

Lisboa 04/01/2021

Querida Jaqueline,

Obrigado por partilhares comigo mais um momento de pura poesia. A tua carta foi como um bombom de chocolate adoçando a boca de uma criança. O teu Natal é tão doce e a forma como falas da tua mãe reflete tanto amor, que me sinto abençoado ao ter participado nele, nesta partilha escrita. Desculpa não ter respondido antes, mas esta época festiva foi dedicada, na integra, à família e, na verdade, não escrevi absolutamente nada. Por isso, é com imenso prazer que escrevo estas linhas, que serão as primeiras de 2021.

As festas foram um momento muito íntimo e familiar, com pouco convívio fora deste âmbito, pois a regra do afastamento social continua a ser recomendada e o medo leva as pessoas a respeitá-la. Confesso que, por vezes (mais do que por vezes), um pensamento me atravessa a mente: Não estaremos a exagerar e a criar um comportamento de consequências inimagináveis, mas bem piores que a própria pandemia? Indiferente a estas e outras reflexões, o processo de vacinação começou no dia vinte e sete de dezembro e irá continuar, de acordo com o planeado, embora o próprio plano seja alvo de contestação: é a vida ou dizendo melhor é a política!

O tempo, esse ser intemporal que nos acompanha sempre, tem sido irregular. Os dias muito frios intercalam com os menos frios, da mesma forma que a chuva intercala com o sol. Apreciar essas mudanças, do conforto das nossas casas aquecidas e sentados frente a um copo de bom vinho e um prato de uma boa comida, permite-nos achar tudo belo. No entanto, no mundo, existem muitas pessoas que olham para essa realidade com olhos onde o medo é bem visível, pois não têm nem comida, nem agasalho. Esse conhecimento ensombra a felicidade desta época festiva, como nuvens negras que escondem um sol radioso.

O trabalho não parou, mas abrandou um pouco. No entanto, o novo ano promete um dinamismo que faz antecipar muito trabalho e muitas mudanças. São grandes as expetativas para 2021, aonde nem tudo será bom, mas cujo balanço se espera muito positivo.

«Também quero a minha oportunidade de falar com a Jaqueline!»

«Da outra vez foi o Poeta agora és tu? A Jaqueline não tem de estar a aturar as vossas impertinências.»

«Impertinencias não! A Jaqueline gostou de me ouvir falar sobre ela.»

«Tens razão Poeta. Talvez seja melhor dar-vos a palavra.»

Tenho a certeza que Jaqueline me vai adorar. Eu estou completamente apaixonado só de te ouvir ler as cartas dela. Bem sei que todos me acham doido, mas eu sou apenas um homem que vê a realidade com olhos diferentes de todos os outros: eu sou romântico. No outro dia ouvi o poeta a ler uma descrição da Jaqueline e senti que ela era a minha alma gêmea. Fechei os olhos e senti o amor dela. Saboreei os seus lábios, como uma cereja doce e carnuda, e entreguei-me ao prazer de um beijo que fez explodir a minha cabeça em mil sensações maravilhosas e indescritíveis. Os seus olhos castanhos, quase negros, sorriram para mim e os seus lábios pronunciam as palavras mágicas: amo-te. Nesse mundo de fantasia, vivemos eternamente, lado a lado, vendo os nossos filhos crescer. Deixamos os nossos corpos unirem-se, numa busca faminta do prazer, que apenas essa união pode satisfazer. Na estrada da vida caminhamos lado a lado. O simples toque da mão dela na minha produziu uma sensação de prazer indescritível e de mãos dadas viajamos pelo mundo, como se ele fosse só nosso. Admirámos o pôr-do-sol com a certeza de que continuaríamos juntos quando a noite caísse e o céu se cobrisse de estrelas, ou quando e sol nascesse e voltasse a ser dia outra vez. 

Jaqueline, desculpa a ousadia do meu amigo Romântico. A verdade é que todos os meus amigos te querem conhecer: O Poeta, o Romântico, o Viajante do Tempo e até o Contador de Histórias. Tem cuidado com eles, porque podem arrastar-te para o seu mundo e enredar-te em histórias que não passam de fantasia.

Eu não percebo como podes ser tão pessimista em relação aos outros. Porque não consegues ver a poesia das coisas? Não podes ser tão pragmático, tens que libertar o poeta que há em ti. Para além disso, não viste como a Jaqueline escreveu para mim? Sim, a introdução da carta dela foi para mim, embora ela não o dissesse. Jaqueline deixa-me dizer-te como te imaginei: Estavas deslumbrante! Adorei o teu vestido curto e justo que deixava adivinhar as tuas formas, permitindo-me admirá-las. A forma sensual como cruzaste as pernas, sentada no cadeirão, depois de teres vertido dentro do copo o espumante dourado, esse néctar divino, que nos excita o palato. A chuva caía mansa e o som desta, no telhado e no chão, emprestaram ao momento uma musicalidade de Tchaikovsky. Recostaste-te e fechaste os olhos, entregando-te ao prazer desse momento musical. O teu corpo repousava no cadeirão decorando-o com formas belas e vivas. Com uma sensualidade arrastada, soergueste o corpo e humedecesse os lábios. Que momento sublime! Abriste os olhos e admiraste a paisagem. As folhas das palmeiras vergavam-se sob o peso da chuva e derramavam no chão fios de água, como pequenas torrentes. O céu, cinzento, conferia ao dia uma luminosidade baça. Sorriste. O teu sorriso iluminou o dia e, como por milagre, o sol espreitou por uma aberta. A luminosidade tornou-se tão intensa que te fez pestanejar e o sol escondeu-se no mesmo instante, numa sintonia admirável entre ti e a natureza.

«Chega! Vocês estão a importunar a Jaqueline!»

Vou colocar estes dois meninos fora do escritório, para me deixarem terminar esta carta em paz. Gosto deles, mas, por vezes, interferem no meu trabalho e isso, apesar de poder ser criativo, altera-o e o resultado nem sempre é o esperado.

Percebo as tuas dúvidas quanto à bondade de muitas das políticas, pois também tenho as mesmas dúvidas, sobre o que se passa em Portugal. Nem tudo o que é parece e nem tudo o que parece é. A agenda dos políticos quase nunca é em favor do povo, embora eles se desdobrem em esforços para fazer parecer que assim é. A sorte deles é que existem pessoas como tu, que colocam os alunos em primeiro lugar e dão o melhor para que eles aprendam, fazendo com que os governos acabem por colher os louros de algo que não se deve nem às políticas implementadas por eles, nem ao esforço ou ao investimento feito na causa do ensino. Mas deixemos a política de lado. Espero que o regresso ao trabalho seja bom, mas, sobretudo, te permita continuar a sentir realizada.

Esta será a última carta que te escrevo ao abrigo deste projeto, pois o mesmo termina amanhã. Espero que possamos continuar a corresponder-nos mesmo depois do projeto ter terminado, agora sem a partilha com terceiros. Se essa for a tua vontade responde a esta carta. Caso assim não seja deixa-me dizer-te que foi um prazer conhecer-te.

Um beijo grande dos três

(Manuel, Poeta e Romântico)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s