Cartas na Pandemia 22

Lisboa 04/01/2021

Olá Leandro,

Deixa-me, em primeiro lugar, desejar-te um excelente 2021. Desde o Natal que não escrevia nada e recomecei hoje com a resposta a algumas cartas, nomeadamente à tua. Espero de este ano seja, sobretudo, seja generoso e justo contigo e que não falte a saúde.

2020 foi um ano singular e penso não ser errónea a conclusão de que foi um ano mau para alguns humanos. No entanto, mesmo num ano mau podem acontecer coisas boas. Quando digo que foi um ano mau para alguns humanos, não sei se o poderei adjetivar da mesma forma, quando se fala das outras espécies ou mesmo do planeta. Por incrível que possa parecer, para alguns, (não me parece que seja nada incrível) o abrandamento da atividade dos humanos trouxe benefícios para todas as outras espécies e prolongou a vida do planeta. Essa é uma situação que não podemos ignorar, pois a conclusão que daqui se extrai é clara e alarmante: a atividade humana é destruidora para os outros seres e para o meio.

O egoísmo que subjaz a este significado deve levar-nos a refletir, quer quando nos lamentamos, em termos pessoais, sobre 2020, quer quando planeamos o ano de 2021 e os seguintes. Apesar desta reflexão, à laia de introdução, não deixarei de partilhar contigo o que me pedes.

Para mim e para a minha família o ano de 2020 não foi um ano difícil. Felizmente continuamos a ter trabalho e a ser apreciados positivamente pela execução do mesmo, embora em condições únicas e completamente novas. O confinamento não nos trouxe problemas pois somos uma família unida e muito bem estruturada, pelo que o tempo foi aproveitado para um maior convívio e o estreitamento da proximidade, que sempre foi elevada. No entanto, somos seres sociais e o afastamento dos amigos e até dos colegas de trabalho foram desafios que tiveram de ser superados, mas que vão deixar marcas.

O afastamento social vai trazer novas formas de sentir e expressar sentimentos e vontades, que para os mais velhos serão difíceis de interiorizar, mas que os mais novos já experienciavam. Neste contexto, não me sai da cabeça a imagem da cena, tantas vezes presenciada, de dois irmãos sentados à mesa, lado a lado, a enviar mensagens um para o outro pelo telemóvel, rindo-se, em simultâneo, da mensagem, mas sozinhos.

Provavelmente eles não se sentem sozinhos e seja apenas eu a vê-los dessa forma. Essa é a forma de comunicar trazida pelo afastamento social e que me leva a perguntar. Será que essa forma de comunicar conduzirá a um relacionamento tão intenso e sentido como o criado entre mim e os meus amigos? Talvez sim ou talvez não. Não nos esqueçamos de que aquilo que para um pode ser uma dificuldade, para outro poderá ser uma oportunidade.

Ainda em termos pessoais, as festas do Natal foram boas, embora mais uma vez com uma interação que não foi muito para além do âmbito familiar, o que para mim é sempre um pouco doloroso. Senti falta de ver e abraçar os amigos e nem os muitos abraços e sorrisos telemáticos permitiram colmatar essa falha.

Em termos económicos é inegável que a sociedade empobreceu. Mas isso talvez se deva, em grande parte, à forma como a riqueza é medida e à mentalidade de acumulação de valor, muito para além do necessário, para a satisfação das nossas necessidades pessoais. Se tivermos presentes que, com uma distribuição adequada dos recursos, todos os humanos podiam viver bem e o planeta veria os seus recursos menos exauridos, então, em termos coletivos, não tivemos empobrecimento. Talvez tenhamos tido enriquecimento, pelo menos em relação aquilo que seriam a perdas para o planeta e o coletivo, resultantes da atividade de um ano normal. O problema está na acumulação de riqueza individual ou de um país, que leva a duas coisas: a acumulação, em excesso, de alguns e à fome de muitos.

Portanto pergunto: 2020 foi assim tão mau? Se sim, para quem? A resposta é sim. Foi mau para o sistema dominante, foi mau para os muitos que perderam o emprego, foi mau para os muitos que perderam a vida, foi mau para os mais pobres, porque ficaram na miséria, foi mau para as microempresas, porque não vão conseguir sobreviver. Sim foi mau.

No entanto, convido-te a pensar um pouco sobre o seguinte. Será que 2020 não foi apenas mau porque a forma como a sociedade está organizada é a errada? Se assim foi, em vez de reclamarmos com o ano, dizendo que foi mau, não deveríamos estar a reclamar connosco próprios por não estar a fazer a coisa certa?

Hoje estou muito filosófico e nem pareço um gestor de um fundo de investimento de milhares de milhões de ativos. A verdade é que nem sempre pensei assim, mas as vivências de muitos anos, de muitas injustiças e de muitos desperdícios, levaram-me a estas reflexões.

Portanto, diria que existem razões para celebrarmos o fim do 2020, mas existem, sobretudo, muitas lições a retirar do ano que agora findou. Se os humanos não tiverem a capacidade de retirar essas lições, iremos ter muitas outras pandemias como a de 2020, até que o próprio planeta consiga impor-nos as regras de comportamento que impeçam a sua destruição. A minha dúvida é se o planeta vai ser suficientemente rápido a reagir e os humanos a aprender, ou se seremos confrontados com reações extremas, que conduzam, ou à liquidação da raça humana, ou à destruição do planeta.

Termino por aqui desejando um Novo Ano de cheio luz e sabedoria para a humanidade e que, iluminados, saibamos iniciar o caminho correto.

Um abraço

Manuel Mota

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