A CAMINHADA

A CAMINHADA

Paula não sabia mais o que fazer. Talvez a única solução fosse ser ela a tomar a iniciativa. No entanto, coibia-se de o fazer, embora sem um motivo real. Talvez tivesse um: a educação. Tinha tido uma educação bem conservadora, uma daquelas em que uma mulher é ensinada, entre outras coisas, a deixar ao homem a iniciativa de dar o primeiro passo. Isso implicava dar um conjunto de sinais não explícitos, mas suficientemente fortes, para dar a confiança necessária ao homem para ser ele a tomar a iniciativa. Naturalmente que não funcionava muito bem com os mais tímidos, mas esse não parecia ser o caso do Manuel. Essa constatação representava um problema: se não era timidez, era falta de interesse.

O caso era complexo. Ele, ao mesmo tempo que não dava o primeiro passo, dava muitos outros, deixando no ar insinuações e indiretas, repletas de um sentimento não expresso, mas subentendido. Os amigos já tinham percebido aquilo que eles sentiam um pelo outro, eles suspeitavam ambos do mesmo, mas o impasse mantinha-se. Paula, quando estava ao lado dele, sentia-se, simultaneamente, bem e desconfortável. A presença dele enchia-lhe o peito de uma leveza que ela não conseguia explicar, ao mesmo tempo que as pernas lhe tremiam e o abdómem reclamava, como se os intestinos se enrolassem um no outro. Apesar disso, adorava estar a seu lado. A vontade de o abraçar e beijar era tão grande que tinha de fazer um grande esforço para conter o impulso. Quando saía de junto dele era invadida por uma tristeza e uma saudade enormes, mas o pior de tudo era a pressão que sentia no peito quando o via rodeado de outras mulheres a quem ele parecia dar muito mais atenção do que a ela: eram os ciúmes a consumi-la.

Era sexta feira e as amigas tinham organizado uma saída em grupo. Ela tentou resistir, mas quando soube que o Manuel fazia parte do grupo animou-se logo. Foi uma noite fantástica! Apesar de estarem lá também as duas lambisgoias que estavam sempre a tentar chamar a atenção dele, Manuel não lhes deu troco e centrou-se nela. Durante toda a noite ele brincou e dançou com ela, enaltecendo-a de forma quase coquete. Por várias vezes ela pensou que ele se ia declarar ou, mesmo agarrá-la e beijá-la. Isso pareceu que ia acontecer tantas vezes que ela já nem sabia se tudo não tinha passado de um produto da sua imaginação, intoxicada com o desejo que sentia por ele. A noite acabou numa desilusão. Deitada na cama ela sentia uma raiva surda. Não sentia raiva dele, mas sim dela. Sentia raiva do facto de não o ter agarrado e beijado. Isso teria colocado tudo em pratos limpos. Levantou-se e registou no diário.

A tua imagem não me sai do pensamento e a vontade de estar contigo consome as minhas forças. O som da tua voz deixa o meu coração em sobressalto, ainda que seja do outro lado da linha. Quando oiço os teus passos, ao fundo do corredor ou aproximando-se na calçada, toda eu me exalto, leda, na antecipação de te ver. O baque do coração, quando os meus olhos poisam em ti, é mais forte que o caturrar de um navio em plena tempestade. Quedo-me, pregada ao chão, com receio de não controlar o abraço que o meu corpo exige. O dever… sempre o dever!

O drama e o dilema em que vivo são tão grandes, que, não conseguindo viver sem ti, criei um mundo só nosso. Um mundo onde apenas existimos nós os dois. Nesse mundo, imaginário, vivo contigo momentos de singular felicidade. É o sonho dentro de um sonho. No meu sonho eu passeio contigo de mãos dadas, mostrando ao mundo o nosso amor, sem pejo, nem temor. Deitada a teu lado, sinto o calor do teu corpo que, quando se sobrepõe ao meu, me proporciona momentos de prazer indescritíveis. Vivemos noites de festa, com os nossos amigos e momentos íntimos de romantismo medieval, deitados numa rede, debaixo de um alpendre e vendo as estrelas. Por cada estrela cadente um desejo de viver eternamente essa felicidade.

Passeio pelo mundo, tendo o teu ombro como apoio para a minha cabeça e o teu braço para me amparar quando vacilo. Sou uma mulher feliz, até que a realidade cruel me desperta. Apesar disso, vislumbro, no pouco que dizes, um sentimento escondido. Uma reciprocidade que o meu coração bebe com sofreguidão. Será possível? Será amor o que vejo brilhar nos teus olhos, quando, com voz máscula, me dás os bons dias? Talvez, mas a realidade esmaga-me.

Por vezes penso que tudo não passa de uma fantasia. Antes fosse, pois assim não sofreria tanto. No entanto, este amor é bem real. Habita dentro de mim com uma intensidade e uma violência que me esventra, deixando a nu as fragilidades do meu ser. Não, este amor não é fantasia! Este amor é tão real que o sinto circular nas minhas veias, dando-me vida ao mesmo tempo que me consome. Este é um amor profundo e verdadeiro que se sente só e triste por não ser correspondido.

Depois de desabafar com as páginas do diário, adormeceu com o pensamento nele e ele continuou com ela nos seus sonhos. Acordou de madrugada, toda transpirada e ofegante, apenas para constatar que estava sozinha na cama.  Depois disso, só conseguiu voltar a adormecer já era dia.

Às dez horas o toque do telefone acordou-a em sobressalto.

«Já estás pronta?»

Era a sua melhor amiga que estava em pulgas para ir dar início à caminhada. Tinha começado a namorar com o José, na véspera e não via a hora de voltar a estar com ele.

«Bom dia para ti também. Acordei com o teu telefonema.» Disse Paula.

«Então trata de te vestir e comer para saíres. A caminhada é às onze horas.» Disse a amiga.

Paula já nem se lembrava de que tinham combinado fazer a caminhada. Gostava imenso de andar, sobretudo à beira rio, mas precisava de dormir e, sobretudo, não tinha o incentivo da amiga. Ainda assim, apressou-se.

Depois de ter estacionado o carro, junto ao monumento dos descobrimentos, tinha saído para o exterior, sentando-se no capô e tinha deixado o pensamento vogar. A manhã estava esplendorosa! Estavam em plena primavera e o dia prometia ser quente. Apesar disso, a aragem da manhã convidava a vestir o casaco do fato de treino. A natureza manifestava-se de forma exuberante: cada elemento à sua maneira. As árvores, cobertas de flores, enchiam-se de brotos verdes, numa mescla que maravilhava o olhar. Os passarinhos chilreavam por entre a ramagem, num frenesim indicativo de construíam os ninhos para albergar a nova geração. O rio tinha ganho vida e os barcos à vela, manejados com mestria, cruzavam-se em manobras de perícia invejável. A regata estava ao rubro! Esta mistura de sons e de cores assemelhava-se a uma sinfonia. Uma sinfonia sem autor. Fechou os olhos e sonhou. Estar à beira da água trazia-lhe sempre muita paz.

Abriu os olhos no exato momento em que um carro estacionava ao lado dela. O que viu fez com que ficasse parada, como se tivesse sido hipnotizada. Manuel acenou-lhe com a cabeça e sorriu-lhe de uma forma encantadora. O coração dela disparou e ela levou a mão à boca, num gesto instintivo, como se quisesse impedir o coração de fugir por ali e ir ao encontro do homem que amava. «O que estaria ali a fazer o Manuel?» Interrogou-se. Não tardou muito a perceber que ele fazia parte do grupo da caminhada. Foi um passeio muito interessante. Ela e o Manuel trocaram olhares e palavras recheadas de um amor implícito, sem que nenhum deles se atrevesse a verbalizar o que efetivamente sentia. Apesar disso, era claro que gostavam um do outro. A caminhada terminou à mesa do café, onde saciaram a sede.

A melhor amiga e o José tinham levado uma boa parte da caminhada a discutir o facto de um homem dever ou não oferecer flores a uma mulher. Enquanto ela achava que isso era obrigatório, José entendia que era um desperdício de dinheiro.

«Eu não acho que seja um desperdício de dinheiro, nem acho que seja obrigatório. No entanto, acho que é um gesto muito bonito, um homem oferecer rosas à mulher que ama.»

«Só à mulher que ama?»

«Não. Pode ser a uma amiga, pois as cores das rosas têm significados distintos. Por exemplo, as rosas vermelhas significam paixão, amor, beleza e consumação.»

Manuel calou-se e ficaram todos em silêncio, como se esperassem que ele continuasse a dissertação.

«Haverá coisa mais bonita que um homem se declarar a uma mulher, oferecendo-lhe um ramo de rosas vermelhas?» Concluiu Manuel.

Paula estava encantada. Olhava para ele enlevada e não resistiu a comentar.

«Não te sabia tão romântico.»

«Existem tantas coisas que não sabes de mim…»

Seguiu-se um silêncio embaraçoso que a amiga quebrou com humor.

«Eu sei que agora queres ir para casa almoçar!»

Riram-se todos com vontade e separaram-se. Na hora da despedida, Manuel segurou a mão de Paula umas milésimas de segundo mais do que seria normal e ela sentiu o corpo ser percorrido por uma corrente elétrica que lhe acelerou a pulsação. Parou e aguardou, como se esperasse que ele se dissesse algo.

«Até mais…» Disse ele.

Ela estava tão emocionada que não conseguiu falar e limitou-se a levantar a mão e a acenar-lhe.

O resto do dia foi um tormento. Ao mesmo tempo que se sentia feliz por se ter tornado mais claro que ele gostava dela, sentia um desassossego que a consumia. Pegou no telemóvel, vezes sem conta, para lhe ligar, mas acabou por jogá-lo em cima da cama de todas as vezes. A amiga ia sair com o José e insistiu para ela a acompanhar. Paula recusou. Não tinha vontade nenhuma de ir segurar a vela, ou de empatar o convívio entre os dois. Adormeceu tarde, depois de ter tentado concentrar-se na leitura de um livro e de ter começado a ver vários filmes, cujo fim continuou desconhecido para ela.

O almoço de domingo era normalmente em família e o irmão mais velho, que já era casado, veio almoçar com eles. Paula adorava o sobrinho e este a tia. Quando chegaram o pequeno foi acordar a tia que ainda dormia. Paula arranjou-se rapidamente e foi para a sala brincar com o sobrinho. Parecia uma maria rapaz às cambalhotas no sofá e no tapete. O sobrinho adorava as cabrioladas. Quando a campainha tocou ela nem lhe ligou e foi o irmão que recebeu a encomenda.

«Mana, isto é para ti.»

O irmão estava parado, à entrada da sala, com um grande ramo de rosas vermelhas, na mão e um sorriso rasgado. A família juntou-se na sala, em silêncio, enquanto Paula se levantava, lentamente e se dirigia para junto do irmão. Enquanto o fazia procurava afastar o pensamento que a tinha assaltado. Não queria criar essa expetativa, porque sabia que a desilusão seria muito dolorosa. Abriu o cartão com nervosismo e leu o bilhete.

Rosas vermelhas são amor e paixão,

Por ti, no dia de hoje, reveladas.

São beleza, oh! são consumação!

Que ouso anunciar-te, mui desejadas.

A este amor há muito adivinhado,

Quero hoje e sempre dizer que sim.

Escolhi que hoje fosse revelado,

Por ser o dia de são Valentim!

Escolhi rosas vermelhas de rara beleza, mas duração efémera, para te dedicar um amor eterno.

Manuel

Paula parecia que ia explodir. O rosto ruborescido e a agitação de movimentos deixavam adivinhar uma grande comoção e não tardou muito as lágrimas brotaram em cascata. O irmão abraçou-a, ao mesmo tempo que lia o bilhete e levantava o polegar para toda a família. Tinha sido uma declaração brutal. As rosas vermelhas falavam por si, mas os versos e a dedicatória final tinham-lhe acrescido um significado especial.

Paula não sabia muito bem o que fazia. Andava de um lado para o outro como se flutuasse ao acaso. A mãe ordenou-lhe, de forma gentil, que se sentasse à mesa e ela obedeceu. Quando terminasse o almoço iria ligar ao Manuel, mas primeiro precisava acalmar-se. Ela precisava de lhe dizer o quanto o amava. Queria dizer-lhe não apenas com palavras. Queria cobri-lo de beijos. Queria abraçá-lo, num amplexo forte, como quem o guarda dentro de si para a eternidade. Numa palavra, queria amá-lo.

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