A CALÇADA

O seu nascimento perdia-se na memória do tempo, embora registado pela História. Estava ali, inerte, como se não existisse, para todos os que a pisavam. Servia o seu objetivo há tanto tempo que as pessoas se tinham esquecido dela. No entanto, guardava memórias incríveis. Por ela tinham desfilado tantos acontecimentos que já nada a podia surpreender, ou talvez pudesse. Apesar de tudo, lembrava-se perfeitamente do seu nascimento.

Quis a ironia do destino que fossem “os grilhetas” a dar-lhe vida. Uma vida de quase duas centenas de anos. Decoraram toda uma praça, enfeitando-lhe o chão com uma calçada desenhada. Durante todo esse tempo foi testemunha silenciosa de tantos acontecimentos e sentiu na pele o toque de tantas pessoas, que era admirável conseguir recordá-las a todas, com tanta clareza e riqueza de sensações.

Bastava fechar os olhos para sentir o toque delicado, mas áspero dos pés nus das varinas ou dos saloios, apregoando o peixe, os grelos, as alfaces ou a fruta. O grito que lhes saída das gargantas era um apelo à sobrevivência, tão doloroso quanto as gretas dos pés.  De repente um tropel e o coche real, secundado por alguns dos membros da corte e escoltado por esbeltos cavalos, embonecados pelos cavaleiros com farda de gala, abria caminho por entre a populaça, que se apressava a desviar-se, para não serem atropelados. Era o triste espetáculo de um reino em decadência!

Num salto, qual viajante do tempo, apreciava o caminhar calmo e marcado pelo compasso da bengala e da sombrinha, dos passeantes de domingo. Ele em jaqueta de gala e ela num vestido rodado e prendado de rendas. De braço dado, percorrem o Rossio, parando aqui e ali, para dois dedos de conversa. O senhor ourives, cumprimenta o dono da alfaiataria, ambos de renome, de braço dado com as esposas emproadas, ao passarem pelo chefe da repartição de finanças, que sendo menos em haveres, se fazia grande nas cobranças e como uma mão lava a outra, impunha-se a vénia, neste passeio de vaidades.

Do lado de fora, ouviu o Bocage e outros poetas dissertarem ou declamarem, no Nicola, ou os políticos conspirarem contra a monarquia e a ditadura, num grito legitimo, mas quase sempre ignorado. Até um assassinato real ela tinha testemunhado, embora à distância, pois aconteceu numa praça vizinha.

Assistiu à implantação e ao fracasso da república, para logo em seguida testemunhar o início da ditadura. Viu os barcos afastarem-se no tejo carregados de soldados que partiam para a guerra do ultramar e testemunhou o regresso de muitos, envoltos em mortalhas e dentro de caixas de tábuas de pinho. Assistiu a cargas policiais e ao desfilar da Mocidade Português e da Legião, com a impotência de quem testemunha a injustiça sem nada poder fazer. Cá de baixo, viu a rendição do regime no Quartel do Carmo, no dia em que os cravos substituíram as balas.

Viu os cafés invadirem a praça com as explanadas e os turistas encherem as ruas, facilitando a vida aos carteiristas. Testemunhou dramas de dogados e sem abrigo e viu a euforia de tantos beijos apaixonados, que lhes perdeu a conta. Secou as lágrimas de muitos desgostos e sentiu o passo apressado dos jornaleiros correndo para o trabalho. Viu tantas e tão variadas coisas que nada a deveria surpreender. Assistiu, abismada, à passagem do primeiro carro, assustando-se com o ronco do motor e tossindo com o fumo libertado pelo escape. Nessa altura reclamou, depois reconsiderou. Não sabia qual das sensações lhe era mais penosa, estar coberta de bosta fresca e malcheirosa ou engolir o fumo preto dos motores. Humanos… Nunca conseguiria entendê-los!

Reclamou quando as manifestações trouxeram milhares para a praça, não deixando nenhuma das suas pedrinhas em descanso, para logo em seguida, sentir saudades das pessoas nas madrugadas frias de inverno onde os raros transeuntes passavam apressados, cosidos com as paredes dos prédios, como se tivessem medo de pisar a calçada. Gritou com os pombos por fazerem dela retrete, mas deliciou-se com as cocegas que o suave caminhar destes lhe produzia, no seu deambular errático, em busca de uma migalha perdida.

Deslumbrou-se com o brilhante discurso de tantos políticos que com arte e dialética encantavam a populaça, arrancando gritos e aplausos, que nem sempre se traduziram em votos, mas que satisfaziam o ego. Bocejou com os slogans, gritados no bocal do megafone, que defendiam causas perdidas e outras bem justas, mas quase todas condenadas a ser esquecidas, por um regime, que se preocupa apenas com a sua perpetuação.

Tinha visto o bom e o mau, o bonito e o feio a pobreza a desgraça e a fortuna. Dir-se-ia que tinha visto tudo, que nada a poderia surpreender, mas nada a tinha preparado para o silêncio que o destino lhe reservava.

O verão tinha sido inesquecível. Os milhares que pisaram as suas pedras tinham-lhe proporcionado viver, mais uma vez, experiências tão dispares e em tantas línguas, que se sentia uma cidadã do mundo. Portugal estava na moda e a calçada à portuguesa partilhava o gaudio e a glória. Apesar de sentir que lhe desgastavam a pele e lhe martirizavam a alma, a calçada não trocaria as pessoas por nada do mundo. Por isso, foi um choque quando constatou a sua ausência, dias a fio. Essa ausência não era determinada por uma questão de frio, chuva ou proibição política.  Era o medo que mantinha as pessoas confinadas. As ruas estavam desertas e até os pombos tinham desaparecido. Não por estarem abrangidos por alguma proibição estranha, que os afastasse da rua, mas porque também o milho e as migalhas tinham desaparecido da calçada e eles tiveram que procurar sustento noutro lado.

Nessa altura os dias sucediam-se uns atrás dos outros, com grande monotonia e sem a marcação da cadência habitual, gerada pelas pessoas, passeando ou correndo para os seus empregos.

Era a pandemia do COVID-19!

Os humanos tinham de aprender a viver confinados, mas a calçada tinha de viver com a saudade. O abandono a que fora votada e a consequente solidão são traumas que, ainda que aparentemente resolvidos, irão precisar de tempo para serem verdadeiramente curados. Apesar do muito que conhecia e de tudo por que tinha passado, ao longo de dois séculos, nunca vira nada igual.

O bulício dos cafés e das lojas fora substituído por um silêncio estranho e incomodativo. Um silêncio que lhe pesava como se carregasse o mundo às suas costas. As estradas perderam os carros e os céus perderam tudo: os pássaros, que buscaram outras paragens e os aviões que repousavam em terra, impedidos de realizar os sonhos ou as necessidades de tantos. Sozinha com os seus pensamentos, ela podia ouvir os ruídos da solidão e os gemidos do abandono de todos eles, no silêncio que se tornara ensurdecedor.

No meio do silêncio e da solidão ecoou um grito de revolta. Ninguém sabe ao certo de onde veio, mas a dor e a magoa que carregava era tão profunda que calou fundo nas gentes. Trazia dentro de si um protesto denso e variado. Era contra a violência física e psicológica, contra o viver confinado a quatro paredes, contra o desabar da economia e o desaparecimento de tantos empregos. Era ainda contra esta forma de viver que destrói mais do que cria, exaurindo os recursos do planeta. Mas, escutando com atenção, poderia identificar-se também uma réstia de esperança na mudança. Uma mudança do comportamento de todos nós, que desse perspetivas de sustentabilidade à humanidade.

Muito se disse sobre a origem deste grito. Era coisa de humano por isso foi-lhe naturalmente atribuído. Mas existem vozes e sussurros, que se ouvem na noite e que juram ter sido a calçada do Rossio, que depois de tantos anos calada, lançou um grito de protesto.

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