CARTAS NA PANDEMIA 27

Lisboa, 02/12/2020 (Portugal)

Olá amiga Vanessa,

A noite já caiu sobre a cidade e o frio convida ao recolhimento. O aquecimento jorra calor sobre os meus joelhos e o cadeirão acolhe-me as costas, num abraço. Estou tranquilo e confortável. É com este sentimento delicioso, que escrevo estas linhas, fazendo votos para que estas te encontrem bem, junto dos que te são mais queridos.

A tua carta foi uma surpresa deliciosa. Foi uma combinação de tantas coisas boas, que tenho alguma dificuldade em alinhá-las todas, sem correr o risco de ser monótono. A rapidez da tua resposta foi surpreendente e a simplicidade da mesma muito gostosa. Ao ler o que escreveste, senti-me uma criança lambuzando-me com uma guloseima. Degustei-a até à última migalha e ainda lambi os dedos!

Manuel é efetivamente um nome de que gosto muito. Não sei porque recebi o nome, mas como é muito popular em Portugal, imagino que se tratou apenas disso. Sou o terceiro filho de um conjunto de sete e depois de um António e um Fernando, veio um Manuel. Não sei se sabes, mas Manuel tem um significado bíblico, pois em hebraico significa “Deus está connosco”. Eu costumo brincar com isso e dizer aos meus amigos: Estás comigo estás com Deus. Brincadeirinha! Gosto do meu nome e não me estou a ver usar outro.

Levanto os olhos da tela do computador e fixo o olhar no relvado artificial, que avisto da minha janela, onde um grupo de jovens se dedica a treinar as suas habilidades com a bola. As luzes das torres de iluminação do campo são como um farol, marcando posição na noite escura e guiando os jogadores. Volto à escrita da carta.

Como te disse adoro conhecer pessoas, por isso se um dia vieres a Portugal, espero que nessa altura tenhas despertado a minha curiosidade, o suficiente não apenas para te querer conhecer, mas para o desejar com sinceridade.  Já nos imagino sentados no alpendre da minha casa de fim de semana, rodeados pela minha família, apreciado o mar, ao fundo e degustando um copo de vinho (adoro um bom vinho!)  ou apreciando um café. O café para mim é mais um complemento. Uso-o como desculpa para estar com as pessoas de quem gosto e não por sentir o prazer que se manifesta em ti, quando ingeres esse néctar negro e excitante. 

Quando li a tua carta fechei os olhos e imaginei uma casa rodeada de árvores, povoadas de pássaros, num chilreio desenfreado. Imaginei uma brisa soprando através da folhagem e a tua rede embalando-te suavemente, enquanto uma xicara de porcelana alva, sobressaia junto ao teu rosto moreno. Olhaste o seu conteúdo e sorriste. Um sorriso que casava com a xicara e que entrava num jogo de cores que se fundiu no sorver do um gole de café. Cerraste os olhos e saboreaste o líquido negro sentido, simultaneamente, o seu aroma e o seu sabor. Isso transportou-te para um local onde o amor e a felicidade eram sentimentos tão intensos que se tornavam palpáveis. Um novo sorriso brotou dos teus lábios! O papagaio da vizinha chamou: “Vanessa! Vanessa!” e tu voltaste à realidade. A brisa acariciou-te o rosto e os olhos perderam-se na paisagem. Era altura de eu abrir os olhos

também.

Uma coisa que me impressionou na tua carta foi essa capacidade de viver o “aqui e agora”. É uma perspetiva tão “mind fulness” com raízes em determinados princípios budistas, que vê-la assim em ti, quando me  pareceu que a experienciavas, mesmo sem estar familiarizada com estes conceitos, me causou estranheza ao mesmo tempo que despertou a curiosidade. Gostei! Sabes dizer-me a origem dessa forma de viver?

A pandemia em Portugal, como na grande maioria dos países do mundo, interrompeu o nosso modo de vida. Pôs em suspenso projetos, negócios e até vidas. Quantas viagens ficaram por fazer? Quantos concertos por realizar? Quantos casamentos por materializar? Quanta vida adiada! Mas a vida continua e o relógio não para. No meu caso pessoal retirou-me o prazer de me deslocar e conviver com o cidadão anónimo. Impediu-me de ir até à praia e sentir o cheiro do mar. Confinou-me. Os filhos estão crescidos e a família bem estruturada, por isso tudo tranquilo. Vivemos a pandemia como um acontecimento temporário, do qual sairemos mais fortes e mais conhecedores, por termos a oportunidade de viver uma experiência, que de outra forma não estaria acessível. O trabalho é feito a partir de casa e os fins de semana deixaram de ser para passear. Vivemos em recolhimento. Talvez a humanidade aprenda algo com esta experiência. Eu tenho aprendido muito. Tem sido um ano com acontecimentos que deixaram a nu a fragilidade do ser humano. Em Agosto, tive de colocar um “pace-maker” e por momentos vi as portas do outro mundo abrirem-se para mim. Não era a minha hora e aqui estou eu escrevendo estas palavras.

Adoro escrever! Usar as palavras para expressar sentimentos, para criar imagens. Estimular a imaginação, a minha e a dos outros, é um jogo em que me envolvo de alma e coração. Podes ver isso mesmo indo ao meu blog (O pensamento escrito). Se gostas de ler podes tornar-te minha seguidora, essa também será uma forma de me conheceres melhor, pois quando escrevo deixo a minha marca, que é o mesmo que dizer que me dispo de um pouco do que sou, para dar roupagem aos meus personagens.

Gostava de saber mais sobre ti. Qual é o tambor que marca o ritmo da tua vida? Para onde caminhas e quem são os que te acompanham? O que dizem os teus olhos? São estas e outras perguntas que me assaltam o espírito, à medida que as palavras se juntam nesta carta.

Termino por aqui. São horas de jantar e a família exige a minha presença. Despeço-me com um abraço e até à volta do correio.

Manuel

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