CARTAS NA PANDEMIA 29

Lisboa, 10/12/2020 (Portugal)

Olá amiga Vanessa,

A tua tardezinha transformou-se e é, para mim, um início de tarde. Leio a tua carta e, logo no fim do primeiro paragrafo, fecho os olhos e consigo ouvir a tempestade, com os relâmpagos, a chuva e a calma que se segue, tal é o colorido da tua descrição. Quem sabe se estas linhas, desta vez, te vão encontrar apreciando o fim de uma tarde de sol, daquelas com um tom de tijolo, vermelho fusco, com que o sol pinta tantas vezes o entardecer. Seja qual for o tempo, espero que estejas bem. Por aqui tudo bem, embora muito agitado.

O trabalho requer muito de mim e conseguir tempo para escrever, ensinar e formar, é uma luta que nem sempre consigo vencer. Mas cá estou eu conquistando uns minutos para escrever estas linhas e dar resposta à tua carta. Comecemos por falar do tempo.

Por aqui o tempo está chuvoso. Cai aquela chuva miudinha que se faz acompanhar de uma nevoa, pouco espessa, que te penetra os ossos, passando, passa para nós, uma sensação de humidade, que te possui e regela, até chegar à alma. É o inverno a querer assentar arraiais! Num repente, tudo muda e o sol, numa exibição de força, rasgas as nuvens e o dia cinzentão ganha uma luminosidade extraordinária. No ar, as pequenas partículas de água brilham de forma intensa, multiplicando a luz do sol. O alcatrão molhado ou os telhados vermelhos, antes baços, ganham vida e parecem sorrir-nos.

Uma energia invade-nos e a vontade de sair para a rua cresce dentro de nós, até se tornar incontrolável. Vestes o casaco, mas não te atreves a fecha-lo, pois o brilho do sol transmite uma mensagem clara: que belo dia de outono! O choque com o ar da rua é o choque com a dura realidade da vida. Está frio e o sol está para o dia, como as ilusões para a vida: apenas criou expetativas. Apesar do frio, aproveitas o intervalo da chuva para caminhar por entre as poças de água, apressando o passo para te manteres quente. O sol deu por terminada a sua bravata, ou as nuvens levaram a melhor na disputa e o dia está de novo cinzento. É tempo para regressar a casa!

Fiquei triste ao saber que o teu pai está infetado com o Covid 19. Espero que ele recupere rapidamente e que desse episódio fiquem apenas memórias das restrições a que o mesmo obriga, que até podem ser boas memórias, sem quaisquer consequências, em termos de saúde. Gostei da forma e do carinho com que falas deles. É assim que eu penso sobre os meus, que já têm muita idade. A minha mãe tem noventa e dois e o meu pai oitenta e seis. Vivem no campo e felizmente têm conseguido manter-se afastados do vírus. Espero que continuem assim, pois eles são pessoas de muito risco, não apenas pela idade avançada, mas pelos problemas de saúde que têm.

Não me surpreende que ainda vivas com os teus pais, pois tens um ar muito jovem, apesar de não saber ao certo a tua idade. A verdade é que não existe idade para deixar de morar com os pais, isso é uma decisão de cada um. Eu saí de casa quando vim para a faculdade e durante a mesma apenas regressava nas férias e depois sai definitivamente. Já o meu filho mais velho tem vinte e quatro anos e ainda vive connosco. Cada um tem a vida que escolhe ou que pode ter. Para mim, ter os meus filhos a meu lado, será sempre uma grande felicidade.

Ser pai é uma experiência indescritível, tal é o sentimento que nos assola e as variações que o mesmo regista ao longo de todo o processo de crescimento dos filhos. No entanto, posso dizer-te que o balanço é tão gratificante que considero que ninguém deveria passar ao lado da paternidade. A maternidade, tanto quanto sei, ainda é mais marcante, pois viver a experiência de gerar um filho dentro e nós deve ser algo sublime. Um dia, assumindo que continuamos a corresponder-nos, me contarás como foi para ti. A ligação entre pai/mãe e filho é uma coisa que nunca se perde, sejamos pai ou filho ou ambos. Mesmo que a distância geográfica se imponha, os reencontros são sempre uma continuidade da última conversa, ainda que esta tenha acontecido há alguns meses.

Conheço minimamente o mindfulness e já o pratiquei algumas vezes, mas pratico com frequência a questão do foco, no aqui e agora, embora já não possa dizer o mesmo da meditação. Tenho que treinar essa parte, pois a minha mente tem alguma dificuldade em esvaziar-se, embora não ofereça resistência a focar-se numa determinada atividade ou tarefa. Dito isto, admiro as pessoas que têm essa capacidade de meditar, isolando-se do mundo e focando-se no seu interior. Talvez um dia lá chegue!

Vou terminando, deixando um abraço gostoso e cheio de carinho para a minha amiga além-mar.

Manuel

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