CARTAS NA PANDEMIA 30

Lisboa 08/01/2021 (Portugal)

Olá Carol,

Espero que seja assim que te chamam hoje em dia. Seja como for, para mim, Carol tem mais a ver com a imagem que faço de ti ao olhar o teu perfil. Dito isto, espero que esta carta te encontre num dia de sol radioso e que ele brilhe também dentro de ti. Por aqui, tudo bem neste final de tarde de uma sexta feira.

Isso de ser muitas coisas é algo que me fascina, nos outros e em mim. É bom poder ser muitas coisas, mas, sobretudo, é muito bom saber ser muitas coisas. É gostoso sentir, dentro de nós, aquele formigueiro que nos carrega entre o papel de esposo e o de pai ou entre o professor e o gestor ou ainda entre o escritor e o blogger. É bom, mas também pode ser perigoso, pois podemos perder-nos entre esses mundos e não saber sair de um para o outro ou saber deixar que eles se cruzem, sem se atrapalharem mutuamente.

Achei interessante a coincidência de ambos trabalharmos na área da administração (em Portugal usa-se mais o termo gestão), e ao mesmo tempo sermos apaixonados pela leitura e pela escrita. Oiço muitas vezes o comentário de que é surpreendente, alguém tão ligado aos negócios e aos números, uma realidade tantas vezes classificada como fria, ter uma paixão tão grande por algo considerado quente e artístico, como a escrita e a poesia. Eu não acho nada surpreendente. No meu caso penso que são coisas que se complementam. Desde muito novo que sou um leitor compulsivo e que a escrita de poemas despertou em mim um sentir, que me completa, compensando a monotonia da mecânica dos números. Depois veio a escrita. Primeiro com pequenos textos, artigos de opinião ou artigos técnicos, que tiveram boa aceitação do público. Finalmente, surgiu o primeiro livro, que infelizmente, ainda espera pela divulgação que penso merecer, pois as editoras publicam-nos, mas só querem saber dos famosos.

Mas deixemos o trabalho e falemos dessa tua vontade de viajar e conhecer pessoas. Isso é algo que também comungamos. Conheço algumas dezenas de países, entre os quais está o Brasil, que conheço desde o Nordeste até Iguaçu, passando pelo Pantanal e Amazónia. Subir o rio Amazonas de barco é uma experiência inesquecível. Adoro o Brasil! Conhecer novos locais é algo sempre excitante, mas mais interessante do que conhecer os locais é conhecer as pessoas desses locais. Entender os seus vocábulos. Beber dos seus lábios as palavras com que descrevem o seu viver e discorrem sobre os seus costumes. É como saborear um chocolate deixando-o derreter na boca sem pressas e depois ficar a sentir o seu sabor diminuir, gradualmente, deixando uma saudade que doi.

Achei bem interessante essa oscilação de personalidade entre “velha rabugenta” e “criança brincalhona”. Não sei porquê, mas fiquei com a ideia de que esses são apenas os extremos e que personalidade mais presente será, seguramente, a de uma mulher adulta, com os pés bem assentes na terra (pé no chão, como diz o Brasileiro).

Voltemos à escrita. O sonho que alimentas pode ser muito mais do que isso. Pode ser uma realidade! Escrever é também uma questão de hábito e quando se escreve pouco, escrever um livro parece uma tarefa quase impossível: apenas um sonho! No entanto, acredita que se pode tornar realidade, para o que apenas é necessária força de vontade e persistência. Para ajudar a “desemborrar” podes começar por frequentar uns cursos de escrita criativa, virtuais ou presenciais. Isso vai dar-te algumas ferramentas técnicas, mas, sobretudo, vai começar a criar o hábito de escrever. Depois tens que ter uma ideia sobre o tema do livro (a história que queres contar), desenvolver um plano, investigar sobre o tema e a partir daí é escrever… Não te preocupes se a meio mudares de direção ou perceberes que o livro será diferente do planeado. Simplesmente escreve. Deixa a história fluir por entre os dedos, enquanto estes dedilham o teclado. Não te preocupes com as incoerências, com a ortografia, mas cuida do estilo literário. De qualquer forma tudo isso poderá ser melhorado, nas dezenas de revisões que vais fazer, até que a história seja do teu agrado. Aí apenas vais precisar de coragem para tomar uma decisão e dizer: chega! Sim, o livro nunca será perfeito, mas em determinado momento vais ter de tomar a decisão sobre a sua conclusão.

Eu escrevi o meu primeiro livro em 2011 (o único publicado por uma editora), mas depois disso já escrevi mais quatro e neste momento tenho dois em curso. No entanto, desde há algum tempo que escrevo pequenas histórias ou poesias, para o meu blog, onde faço uma média de três publicações semanais (https://opensamentoescrito.com/). Nos últimos dois anos também fiz uma experiência interessante, que foi escrever um livro por capítulos: um capítulo por semana. No total foram oitenta e uma semanas.

Por tudo isso digo-te: Força! Avança com o teu projeto. Concretiza o teu sonho.

Entretanto, a escuridão desceu sobre a cidade. As ruas iluminaram-se e os candeeiros, quais guardiões da noite, verdadeiros gigantes soltando fogo pelos olhos, alumiam o caminho dos poucos que se atrevem a enfrentar as baixas temperaturas, que a deslocação do Vórtice Polar trouxe a toda a Península Ibérica. O vento, apesar de não ser muito forte, assobia ao passar pela pequena abertura da janela que me permito ter, para renovar o ar, pois está mesmo muito frio.

Termino, por hoje, despedindo-me com um abraço até à volta do correio.

Manuel Mota

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