CARTAS NA PANDEMIA 32

Lisboa 12/01/2021 (Portugal)

Olá Jucilaine,

Como já deves ter percebido sou Português e daí o meu tratamento por “tu” que equivale ao vosso “você”. Espero que esta carta te encontre bem, não apenas de saúde, mas, efetivamente, bem contigo própria e com o mundo, gozando essa criança, com que a tua vida foi abençoada. Por aqui tudo bem, no meio da azáfama do trabalho e aproveitando todos os momentos para acrescentar umas linhas a esta e outras missivas.

As origens definem, em grande parte, aquilo que somos, pois ainda que o destino nos carregue em voos diferentes e para locais distintos, levamos sempre connosco essa marca indelével, que se manifesta nos gostos e comportamentos, estejamos onde estivermos: a marca das nossas origens. Como eu entendo esse gosto pela liberdade de soltar os pés, como se, libertos de quaisquer atavios, eles se sentissem livres para escolher o caminho, mas, sobretudo para o saborear. Livres para sentir a sua textura, o grau de humidade ou a temperatura, em tudo tendo prazer. É a mesma sensação de liberdade que se sente numa praia, quando os pés se deliciam com a massagem da areia quente, enquanto o corpo se derrete com o calor do sol e, depois, em conjunto, mergulham na água, refrescando-se nesse choque de temperaturas. Como sei isso tudo? Porque também eu nasci numa quinta, no ambiente campestre e isso faz com que carregue comigo as sensações que descrevo e festeje cada regresso com a alma.

Por falar em choques, o maior choque de todos, é quando somos forçados a abandonar esse mundo de sensações, em que a mente também se envolve e a entrar no mundo real. Este mundo que hoje nos parece tão irreal como um sonho mau, diria mesmo um pesadelo. Felizmente, temos sempre a opção de nos focar nas coisas positivas, cuidando, dessa forma, da nossa sanidade mental, mas isso não altera a realidade. Vivemos momentos de algum dramatismo, fugindo da pandemia que continua a assolar o mundo. Refugiamo-nos em casa, por vontade própria ou forçados pelos nossos políticos, à espera que a vacina chegue a todos, rapidamente e nos permita voltar a viver.

Lamentamos os tempos que vivemos, mas não tomamos algum do tempo que temos, para pensar que, provavelmente, a humanidade apenas está a colher aquilo que semeou, durantes muitos anos e que, se não mudar o seu comportamento, receberá, no futuro, lições ainda mais duras. É o planeta a revoltar-se pela forma como tem sido tratado pelo seu maior predador: o homem.

Por falar em tempo está um dia lindíssimo. Um daqueles dias cristalinos em que a ausência de névoa e de nuvens nos permite usufruir de um céu tão azul, que mais parece uma pintura. O sol coloriu as paredes dos edifícios, tornando-os quentes e eu deixo-me relaxar, na cadeira que me abraça e me deverá abraçar, durante mais um dia de trabalho. Deixo-me conquistar por essa doce ilusão ao ponto de abrir a janela de par em par. O choque é brutal! Lá fora estão sete graus e dentro de casa vinte e três! Tal como para apreciar a beleza das rosas temos de passar pelos seus espinhos, para usufruir deste sol e dia maravilhosos, temos de suportar o frio. É como diz o ditado: Não há bela sem senão!

Fico na dúvida se as ruas estão desertas devido ao medo do vírus ou ao receio do frio. Talvez seja uma mistura das duas. O teletrabalho tirou das ruas o movimento costumeiro, mas o frio manteve os mais velhos, aqueles que depois de uma longa vida de trabalho, gozam o merecido benefício da sua reforma, dentro de casa.

Embora seja bastante mais velho que tu, ainda me recordo da época em que nasceram os meus dois filhos, por isso sei bem o que te vai na alma quando dizes que a vida ficou virada do avesso, com o nascimento do teu filho (ou filha). Ficamos diferentes quando somos pais. Ter um filho transforma-nos, tornando-nos muito melhores. Eu não trocaria a paternidade por nada, absolutamente nada! Dito isto, é bom que estejamos conscientes de que os filhos são uma fonte de trabalhos e preocupações, mas são também a maior riqueza que um pai pode desejar. Vê-los crescer e tornarem-se homens ou mulheres é uma sensação indescritível. Eu tenho dois filhos que, embora completamente distintos entre si, são dois seres humanos fantásticos! Serão, seguramente, muitos melhores do que eu, apesar de me orgulhar da vida que levo, quer em termos pessoais, quer em termos sociais ou profissionais.

Vejo pelas tuas palavras uma certa desilusão com os políticos. Infelizmente o sistema, seja qual for o país, produz cada vez homens piores. O “estar ao serviço da nação” foi substituído pelo “servir-se da nação” de forma descarada. Quando não atuam para o benefício económico pessoal deles ou dos amigos, atuam de acordo com os interesses que lhes permitem permanecer no poder, eternizando-se como um ditador, só que “legitimado” pela democracia. Também aqui a humanidade tem de encontrar um sistema mais adequado. A verdade é que essa necessidade é premente em tantas outras áreas…!

Falemos de uma paixão diferente: a paixão pela escrita e pela leitura. As pessoas que escrevem poesia, normalmente, têm uma sensibilidade superior à média. Conheço várias pessoas que a escrevem e, eu mesmo, apenas a escrevo em momentos especiais, em que essa sensibilidade se manifesta, enquanto a prosa me surge de uma forma mais natural. Portanto, estou seguro de que és uma mulher sensível (como se as mulheres não fossem todas sensíveis – risos) e assim sendo, entenderás a subtileza que, por vezes, a minha escrita assume. Eu também adoro escrever, mas dedico-me mais à prosa. Tenho alguns livros escritos e dois deles publicados: um através de editora e outro no meu blog. O que publiquei no blog foi um desafio interessante, pois foi escrito por capítulos. Cada semana era publicado um capítulo e o livro foi escrito em oitenta e uma semanas, sem a possibilidade de voltar atrás e alterar os capítulos publicados.

Para além dos livros, escrevo muitos contos e alguma poesia. Todas as semanas faço três publicações no meu blog o que significa escrever cerca de duzentas mil palavras por ano. Escrever tornou-se um vício! Evolui bastante ao longo dos últimos anos e para isso contribuíram, em muito, os vários cursos de escrita criativa que frequentei e ainda frequento. Neste momento, como exercício do seminário que estou a frequentar, estou a adaptar, por rescrita, o conto “Amor” de Clarice Linspector, uma escritora Brasileira. Conheces? Devo dizer que, dado o seu estilo de escrita, está a ser o maior desafio do curso. Vejo que escreves poesia desde os doze anos, eu gostava muito de ler alguns dos teus poemas. Aquilo que escrevemos diz sempre tanto de nós! Caso queiras ver algo do que escrevo podes ir ao meu blog e até tornar-te seguidora. Deixo aqui o link. (https://opensamentoescrito.com/).

Viajar é outra das paixões que partilhamos. Infelizmente, uma das coisas de que a pandemia nos privou foi de viajar. Isso deixa-me triste. Adoro conhecer outros locais, outras pessoas e outras culturas. Existem poucas coisas que sejam mais enriquecedores que o contacto com outras pessoas. Aprendemos muito através desse contacto, ainda que disso não nos apercebamos, no momento. Essa é, aliás, a melhor forma de aprender.

Esta carta já vai longa e quero deixar algo para te dizer nas outras, que penso escrever, em resposta à tuas. Despeço-me com um abraço amigo.

Manuel Mota

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