O ROUBO

O ROUBO

Beatriz ficou triste e magoada com a descoberta de que o namorado era casado e traía, simultaneamente, duas pessoas: ela e a esposa dele. No entanto, não era mulher para ficar parada a lamentar as infelicidades da vida. Chorou até não ter mais lágrimas, durante um dia e depois secou-as e fez-se ao caminho. Apesar disso, não conseguia esconder a tristeza que ofuscava o brilho que o olhar tivera em tempos de felicidade. Ironicamente, Luisa, a esposa traída, tornou-se sua amiga. Encontravam-se com alguma regularidade e foi com ela que celebrou a obtenção da certificação, em várias áreas, pela academia Drakonx Academy e a obtenção do IP da Associação Nacional de Investigadores e Detetives Privados Profissionais (ANIDEP). A certificação implicou a ida à Espanha e à Bélgica, várias semanas, para uma abordagem mais profunda da atividade de Detetive Privado.

Sendo mulher preocupou-se também com a aprendizagem de várias técnicas de defesa pessoal, sendo uma excelente praticante de Judo e Krav Maga. Infelizmente a atividade continuava a ser exercida à margem da lei, devido à falta de regulamentação, mas respeitando esta e o respetivo código deontológico.

Entretanto, as solicitações de orçamentos para execução de serviços continuavam a aparecer, mas a falta de experiência dificultava-lhe a vida. Apesar disso, as coisas tinham melhorado desde que adotou a estratégia de cobrar 50% cinquenta por cento do preço apos conclusão do serviço e apenas em caso de plena satisfação do cliente. Estava a correr um grande risco, pois a satisfação dos clientes podia ser subjetiva. Ela procurava obviar esse aspeto com a assinatura de um contrato onde os objetivos a atingir ficavam bem claros.

«Tu és uma mulher diferente da maioria. Admiro a tua independência e tenacidade.»

«Tu podias vir trabalhar comigo.»

Luisa soltou uma gargalhada. Nunca tinha feito nada na vida. Esta não fora suficientemente generosa para lhe dar filhos pelo, desde que o marido partira, que era uma mulher só. Tinha tirado uma licenciatura em letras à qual não dava utilidade nenhuma e não se imaginava a trabalhar como detetive privado.

«Eu apenas preciso de alguém que me liberte do trabalho administrativo.»

Luisa acabou por aceitar e foi assim que a equipa da agência de detetives privados Ribeiro, passou a ser constituída por duas pessoas, uma profissional outra não profissional.

Era sexta feira e Beatriz preparava-se para uma saída noturna. Ia tomar uns copos com uns amigos. Eles tinham acabado de jantar por volta da meia noite e convenceram-na a sair com eles. O nome de Luisa apareceu no ecrã do telemóvel. Àquela hora o telefonema não podia significar coisa boa! Beatriz atendeu com o coração nas mãos. Depois de a ouvir relaxou: tratava-se de um caso sobre o qual propôs que falassem no dia seguinte.

Era a primeira vez que saía com os amigos todos, depois de ter acabado a última relação e estes não deixaram de a provocar, ao mesmo tempo que gozavam com o facto de se ter fechado em casa. Queriam saber quem a impediu de ir jantar com eles!

«Afinal eu transformei-me numa Cinderela, ou apenas não saí convosco?» Perguntou ela com um sorriso trocista.

A pergunta emudeceu-os. Então ela não tinha jantado sozinha em casa? Um novo mundo de possibilidades abriu-se à frentes deles, mas ela fez questão de os deixar sem resposta. Quem pareceu não gostar nada da perspetiva de ela ter alguém foi o Manuel. Era novo no grupo e apenas sabiam que era diretor na empresa da prima dela e que estava sempre disponível para ajudar quem precisasse. Beatriz já tinha reparado nele, pois era impossível não o fazer. Era alto, musculado e tinha algo de majestoso no porte, embora tivesse um caráter humilde. A noitada prolongou-se pela madrugada e já eram dez horas quando ela se levantou.

Luisa esperava impaciente o retorno dela. Às dez e meia não aguentou mais e fez o telefonema.

«Acordei-te?»

«Não, mas se o tivesses feito agora já era tarde.» Disse Beatriz meio séria.

«Eu sei, desculpa, mas é urgente!»

«Ao fim de semana não existem urgências!»

Luisa até percebia a posição da chefe, mas a verdade é que um detetive particular não tem feriados, fins de semana ou folgas. O que transformava o caso em urgente é que se tratava do mistério do desaparecimento de um fio de ouro e um crucifixo, antiquíssimos, oferecidos pelo rei D. Luis I à bisavó de uma amiga do pai da Luisa. Era uma joia cujo valor venal, apesar de importante, era muito menor que o valor estimativo. A verdade é que valia mais como artigo de coleção de que como joia de adorno. A história era a seguinte.

Teresa era a empregada de confiança da família e servia lá em casa, desde os quinze anos. O marido era o caseiro e entre os dois conheciam todos os segredos da família. Tratava-se de uma família tradicional, em que os elementos mais jovens adotaram comportamentos pouco aceitáveis, de acordo com os padrões familiares. Isso tinha sido abafado, devido às ligações familiares, mas o desaparecimento do colar ameaçava por tudo a nu.

«É a desgraça desta família!» Dizia D. Isabel, a amiga do pai da Luisa.

A mãe de Isabel, uma nonagenária, mas ainda bem ativa, acusava Teresa de roubar o colar e queria vê-la na prisão. D. Isabel estava convencida da inocência de Teresa, mas, sobretudo, temia pelo que esta pudesse fazer para se vingar, caso fosse acusada do crime, estando inocente. Depois de discutido o assunto, concluíram que o melhor era chamar um detetive para investigar o misterioso desaparecimento. A mãe de Isabel estava reticente, por isso, a primeira missão de Beatriz era convencê-la a aceitar a sua intervenção e o respetivo resultado, fosse ele qual fosse.

A velhota pegou no crachá de detetive e revirou-o. Definitivamente a mulher não era da polícia.

«O roubo é um caso de polícia.»

«Concordo com a senhora, mas se bem entendi, a primeira prioridade é encontrar o colar, depois disso se identificará o autor do roubo. Concorda comigo?»

A velhota dirigiu-lhe um olhar penetrante. «Esta jovem é mais esperta que todos nós. Talvez valha a pena dar-lhe uma oportunidade.» Pensou. No entanto, nada disse e manteve o olhar fixo nela. Beatriz aguentou o olhar sem pestanejar, mas sem a afrontar. Ela gostou disso.

«Está segura de que vai encontrar o colar?»

«Não posso prometer tal coisa. Posso dizer que esse será o nosso foco, ao contrário da polícia que estará mais interessada em encontrar o ladrão.»

«O ladrão será entregue à polícia certo?»

«Sim depois de provar quem foi o ladrão será feita uma denúncia à polícia a quem serão entregues as provas.»

A anciã acenou com a cabeça várias vezes antes de dar o seu veredicto: o trabalho da detetive tinha sido aceite. O mistério tinha que estar resolvido antes do fim de semana terminar, o que significava que só tinha um dia e meio para o conseguir.

A família era constituída por onze pessoas que habitavam a mansão.  A anciã tinha tido duas filhas e um filho. O último o tinha ficado solteiro. Tinha-se recusado a estudar e dedicava-se a reparar elogios, embora sem grande proveito. Refugiava-se na cave, que tinha transformado em estúdio e sempre que podia não comparecias às refeições, limitando o convívio com a família ao mínimo possível. Era a ovelha negra da família! As duas filhas, tinham-se casado e eram mães de, respetivamente, três raparigas e dois rapazes. Um dos rapazes pertencia ao clube das ovelhas negras da família. Tinha uma grande dependência das drogas e já tinha sido apanhado várias vezes a furtar fora e dento de casa. Apesar disso, a avó recusava-se a pensar que ele podia ser a ladrão do fio.

Beatriz interrogou toda a gente começando pela filha mais velha, que era a detentora do colar.

«O crucifixo era uma peça muito pesada para eu usar. Por isso tinha-o retirado e tenho quase a certeza que o deixei sobre o aparador no meu quarto, dentro do guarda joias.»

«Lembra-se de colocar o fio em algum local?»

«Não. A última coisa que me lembro é tê-lo retirado e colocado no bolso das calças, pois estava a provocar-me uma alergia. É o meu eczema…»

«Então a assunção de que foi a empregada que o roubou resulta exclusivamente do facto de ser ela que coloca a roupa a lavar?»

D. Isabel abanou afirmativamente com a cabeça. Embora fizesse sentido era um argumento muito frágil. As calças estiveram no quarto de D. Isabel mais de uma semana e ficaram mais dois dias no cesto da roupa suja. Qualquer pessoa lá de casa podia ter acesso a elas. As entrevistas estavam praticamente concluídas, faltava apenas Filipe, o jovem rebelde e o relojoeiro, como era conhecido o irmão mais velho de D. Isabel e não havia meio de encontrar um culpado. A empregada jurava inocência tal como os membros da família e todos pareciam igualmente sinceros.

Beatriz foi encontrar o relojoeiro na cave, à volta de uma miríade de aparelhos de épocas distintas e tamanhos e modelos diversos. Apesar da quantidade de relógios estava tudo arrumado, com uma lógica e organização que ele explicou, com toda a paciência do mundo. Era um homem metódico e organizado. Respondeu a todas as perguntas sobre o fio sem perder a concentração no relógio de cuco que estava a reparar.

«E sobre o paradeiro da cruz sabe alguma coisa?»

A resposta não foi imediata. O relojoeiro mexeu-se para a esquerda e novamente para a direita, perdendo momentaneamente a concentração.

«Não.»

Beatriz fixou o olhar nele, procurando perscrutar o que lhe ia na alma. Ele ficou incomodado e dirigiu o olhar duas ou três vezes para uma prateleira onde estavam várias caixas. Beatriz fingiu ignorar esse facto e deu por encerrada a entrevista. O relojoeiro sentou-se, aliviado com a partida dela e, não conseguindo resistir à tentação, pegou no guarda joias de madeira, com o monograma real encrustado e acariciou a peça que ele guardava. Beatriz voltou mais tarde, mas desta feita trazia a família quase toda atrás.

A invasão perturbou o relojoeiro de tal forma que deixou cair a peça que tinha nas mãos. Beatriz foi direta ao guarda joias e abriu-o. Sem qualquer surpresa encontrou lá dentro o crucifixo. Os olhares e os comentários dos familiares não o pouparam. Estava encontrado o ladrão. O relojoeiro estava completamente confuso com o que se estava a passar. A expressão era de terror e o olhar que dirigiu a D. Isabel era ao mesmo tempo um pedido de ajuda e de confusão.

«Peço desculpa a todos, mas eu esqueci-me que quando separei o crucifixo do fio, entreguei a caixa com o crucifixo ao meu irmão para ela guardar.»

D. Isabel fez a afirmação com um embaraço e um constrangimento que deixaram muitas dúvidas no ar sobre a veracidade desta. Para Beatriz isso não era relevante. O que importava era que parte do mistério estava resolvido. A anciã não se deu por vencida e disse.

«O que foi roubado foi o fio, que desapareceu do bolso das calças da minha filha!»

A última entrevista foi conduzida na presença de toda a família. Beatriz estava contrariada com o facto, mas não o conseguiu evitar. A contradições sobre a forma como ele obtinha o dinheiro para os seus vícios e as acusações de que não era a primeira vez que roubava, não facilitaram o processo e criaram um clima de suspeição que tornaram a entrevista ineficaz, mas deixaram o jovem em maus lençóis.

Eram horas de jantar e a detetive fechou-se no escritório, depois de ter petiscado qualquer coisa na cozinha. A família estava toda sentada mesa, mas o ambiente era tenso e de desconfiança. Beatriz reviu cuidadosamente as entrevistas e fechando os olhos passou em revista as expressões de cada um deles. «Bolas! Isto não é possível. Como podem estar todos inocentes?» Pensou. Levantou-se e andou para trás e para a frente como se isso a ajudasse a resolver o mistério. A ideia assaltou-a de improviso. Dirigiu-se para a sala de jantar e convocou a família toda para a cozinha. Baralhados com a ordem e sob protestos seguiram-na. Beatriz dispôs toda a gente em círculo, à sua volta e encostou-se à máquina de lavar roupa.

«Tudo aponta para que o fio tenha desaparecido quando as calças vieram para lavar.» Disse Beatriz dando uma palmada na máquina.

A família estava toda em silêncio. Apenas a empregada se remexia no seu canto, pois começava a ver que ia ser declarada formalmente como culpada, apesar de ser inocente.

«Talvez a máquina de lavar roupa nos possa ajudar a resolver o mistério!»

Esta afirmação fez soltar algumas gargalhadas e muitos sorrisos irónicos. Ninguém estava a perceber onde ela queria chegar. Para além de tudo se o fio tinha desaparecido a caminho da lavagem, era óbvio que fora a empegada a subtraí-lo. Beatriz ignorou-os, baixou-se abriu o filtro da máquina, sob o olhar atento da família, sobretudo da anciã que se havia aproximado dela para ver mais de perto o que se passava. Lá estava o fio de ouro, juntamente com suidade diversa. Beatriz exibiu-o levantando o braço ao mesmo tempo que declarava.

«O fio apenas foi a lavar junto com as calças, ninguém o subtraiu, portanto não existem culpados!»

A família desmobilizou e apenas a anciã se quedou na cozinha, amparando-se com a sua bengala de prata e com uma expressão contrariada.  Era uma mulher, justa, pelo que a empregada teve direito a um pedido de desculpas.

«D. Beatriz, venha comigo até ao escritório.»

Beatriz recebeu os agradecimentos da anciã, e o pagamento da filha. D. Isabel estava acompanhada do marido e pagaram-lhe o dobro do combinado. Era de casos como este que ela precisava, mas o que estava mesmo a precisar era de uma boa noite de farra.

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