CARTAS NA PANDEMIA 34

Lisboa 15/01/2021

Querida Jacqueline,

Em primeiro lugar votos de paz, amor e saúde. É verdade, a saúde sempre foi e será importante, mas nos tempos que correm é critica. Por aqui tudo bem de saúde e não só.

Eu concordo contigo: o meu nome tem uma boa sonoridade. Mas na verdade são três M’s tem mais o “Miranda”, aconchegadinho entre os outros dois. Uso apenas o primeiro e o último, exatamente pela sua sonoridade. Por outro lado, como logomarca o JM funciona melhor, penso eu. Adorei a forma delicada, quase poética, como introduziste a informação do “c” que faltava no teu nome. Corrigir um erro dessa forma é quase como fazer uma carícia. Desculpa e obrigado pela correção. Parece-me muito bem que gostes do teu nome e que faças questão de informar as pessoas que falta o tal “c” se é que mais alguém, para além de mim, cometeu, alguma vez, esse erro! Faz parte de ti e eu prometo não o esquecer.

Foi muito bom receber a tua carta. Lia várias vezes, saboreando cada palavra e tentando perceber o que estava dito sem estar escrito. Gosto de fazer isso quando estou perante uma prosa interessante e que me motiva: foi o caso. Fico feliz pelo facto de desejares dar continuidade a esta correspondência. Espero que ela se possa prolongar para além deste projeto, mas isso é assunto para ser abordado na altura certa. Neste projeto escrevi para algumas pessoas e gostei de escrever para todas elas. Bem sei que quando recebemos uma resposta o nosso entusiasmo aumenta e com ele a curiosidade de conhecer o outro e que, nas cartas que escrevi, nem sempre foi esse o caso.  Das dezasseis de pessoas para quem escrevi, apenas duas não responderam à minha primeira carta. A maioria depois da primeira resposta, onde demonstraram muito entusiasmo, rapidamente esmoreceram ou talvez estejam apenas a refletir sobre o que escrever. Contas feitas, neste momento, são várias as pessoas com quem estou a trocar cartas e nalguns casos já vou na sétima carta. Dito isto, todas elas são especiais. Mas aquilo que outros fazem não é relevante, servindo apenas para marcar a diferença, em relação ao que nós próprios fazemos. Corresponder-me com um número tão elevado de pessoas é muito trabalhoso. É verdade, escrever cartas dá trabalho, mas também é muito gratificante.

Confesso que sempre gostei de escrever e de escrever cartas ainda mais. É como dizes. Quando escrevemos para alguém imaginamos essa pessoa a ler aquilo que escrevemos e tentamos perceber as suas reações. Pensamos naquilo que queremos partilhar e na forma como o queremos fazer e depois entregamo-nos. No presente caso a escrita é mais desafiante e interessante, porque aquilo que sabemos um do outro é o que cada um decidir partilhar nestas cartas e neste momento é quase nada. Também concordo que a escrita das cartas nos leva a refletir sobre nós. Ter um pensamento é uma coisa totalmente diferente de expressá-lo verbalmente, que por sua vez é diferente de escrevê-lo. Quando pensamos a “coisa” esta no limbo da existência, mas quando o dizemos parece que o tornamos realidade e, por sua vez, quando o escrevemos, é com o se o tornássemos imortal. Por vezes exprimimos, mentalmente, algo sobre nós ou sobre a nossa vida e quando o verbalizamos ou colocamos no papel percebemos que afinal não é bem assim. Então tomamos consciência de coisas que de outra forma nos passariam despercebidas. Por isso, sim, escrever uma carta é uma forma de reflexão sobre a vida. Concordas?

Aprendi a lição de que falas, sobre a escrita de cartas, ainda muito jovem. No princípio da década de setenta estava em Angola e correspondia-me com amigos que tinha deixado em Portugal e com uma prima que tinha no Brasil, apesar de ser um pré-adolescente. Então as cartas eram isso mesmo: um conjunto de respostas e perguntas em que se partilhavam os acontecimentos da nossa vida e as novidades locais. Recordo-me do quão importante era não deixar nada por responder, porque a troca de correspondência era lenta e não podíamos deixar a outra parte “pendurada”. Enfim… coisas de quem já tem um vasto conjunto de memórias acumuladas!

Jacqueline, gostava de chegar a um acordo contigo. Não precisamos de pedir desculpas por nada a não ser que existam alguma ofensa, ainda que involuntária, o que acredito nunca irá existir. Cada um de nós tem o seu ritmo. Eu por exemplo às vezes respondo no próprio dia, outras demoro dois ou três dias. No entanto, é bem possível que nos próximos tempos demore um pouco mais, pois inicia-se agora um período, que só termina no final de abril, de trabalho, muito intenso, com o fecho de contas do ano. Por isso nada de desculpas. Eu espero pela tua resposta o tempo que for adequado para tu a produzires.

A questão da pandemia, termo incontornável em qualquer conversa atual, está longe de ser pacífico em todas as suas vertentes. A forma como apareceu e se multiplicou pelo mundo, não resultou apenas da capacidade do vírus em propagar-se. Teve uma grande ajuda no comportamento errático dos governos, nalguns casos foi mesmo de negação e na incúria de muitas pessoas. Em minha casa procuramos proteger-nos, tomando todas as medidas, mas a verdade é que nunca estamos seguros. Como medida de controlo adquirimos testes rápidos e testamos toda a família com alguma regularidade, testando também as poucas pessoas que nos visitam. O teste tem uma eficácia inferior ao PCR, porque é apenas sorológico, mas é uma boa medida de prevenção. Enfim… cuidamo-nos o máximo possível. Mas é como dizes protegemo-nos porque podemos, pois existem aqueles que, apesar de se cuidarem, não se podem refugiar em casa, porque têm de estar no seu local de trabalho, seja ele de que natureza for.

Sabes uma coisa, na verdade a culpa dessa pandemia é dos humanos. Primeiro porque o vírus apareceu por ação direta de um laboratório, ou seja devido à modificação genética, depois porque todos os vírus e doenças que aparecem resultam da intervenção humana, no uso abusivo dos recursos naturais, debilitando o planeta e tornando as condições propícias para o aparecimento de doenças. Claro que logo em seguida nos mobilizamos na busca de uma cura e tudo parece bem até ao aparecimento do próximo vírus.

Que bom que adoraste o meu blog. Efetivamente eu escrevo muito e de forma variada, como pudeste ver pelos temas abordados. De tudo o que escrevo apenas não tenho publicado no blog os textos eróticos e os livros pois quer um quer outro deverão ser publicados, um dia, sob a forma de livro. Isso não é bem verdade porque já publiquei um livro no blog, que foi escrito em capítulos, ou seja, um capítulo por semana ao longo de oitenta e uma semanas. Foi um desafio interessante pois, apesar de levar dez capítulos de avanço, não podia alterar nada depois de publicado, o que complicou a coisa, mas acabei por conseguir concluir com sucesso.

A vista da minha janela é muito mais privada que a tua, pois dá, num primeiro relance, uma perspetiva da praça interior de vários edifícios e, num olhar mais à distância, a visão de um campo de futebol, cujo verde, do relvado artificial, empresta à paisagem um colorido interessante. Dantes costumava esta cheio de desportistas, em treino ou jogos, agora tem muito menos gente, mas em contrapartida passou a ser local de passeio para cachorros e desportista individuais.

Acho que me alonguei um pouco, mas espero ter respondido a todas as tuas questões. Fico a aguardar pela volta do correio para saber mais coisas sobre ti.

Um abraço

Manuel Mota

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