CARTAS NA PANDEMIA 35

Lisboa 15/01/2021

Querida Agnes Lilith

Não sei quanto tempo esta carta irá demorar a chegar às tuas mãos, pois não sei em que época vou estar quando a colocar no correio. Talvez ela vá de “Pony express”  ou mala posta, como se diz em Portugal, ou seja rápida como o email.

Que delícia foi receber a tua carta e poder ficar a conhecer-te um pouco minha querida bruxinha! Quase fico contente com a ausência da Jaqueline. A verdade, é que não consigo evitar de desejar que ela consiga um tempinho para ela própria e deixe de andar tão absorvida pelos seus afazeres, tratando dos outros. Ainda bem que decidiste escrever para mim, porque o Manuel também anda demasiado ocupado naquele seu mundo dos negócios. Agora parece que se meteu em mais uns… Deixa pra lá.  Vamos falar de nós.

Nas minhas viagens tenho vivido muitas coisas, embora seja pouco correto afirmá-lo desta forma. A verdade é que eu nunca consigo guardar memórias objetivas das minhas viagens, mas também é verdade que, após cada viagem, eu sinto que se acumula, dento de mim, um conjunto de sensações e conhecimentos cuja origem não consigo identificar. Depois de muitas viagens sou forçado a concluir que estas acumulam o meu conhecimento, embora este esteja dissociado de experiências reais. Trata-se de algo fantástico, com o qual aprendi a viver faz muito tempo. No entanto, existia uma coisa que me incomodava. Não chegava a ser um conhecimento, era mais uma sensação que me perturbava. Era como se ouvisse vozes, sons e ruídos, cuja origem desconhecia e cuja existência não sabia explicar.

Quando li a tua carta parece que fui atingido por um raio. Como se um conhecimento me atravessasse o corpo e a mente e tudo ficasse claro para mim. Agora sei que as vozes, os sons e os ruídos, eram provocados pelas bruxas, que expulsas deste mundo se reúnem numa outra dimensão, onde exercem a sua vocação de cura, através de cerimoniais belos e fantásticos. Estando na época atual ou noutra época qualquer, não consigo ouvi-los, mas quando faço a travessia entre os mundos eles tornam-se claros para mim. Talvez porque a passagem entre mundos fique na mesma dimensão onde agora as bruxas se reúnem. Que coisa maravilhosa foi resolver este enigma e poder perceber a origem desse conhecimento que antes me invadia perturbando-me e que agora aceito como uma dádiva. Obrigado Agnes Lilith!

O homem, hoje como nos tempos passados, sempre temeu aquilo que desconhece. Infelizmente, não aprendemos nada e continuamos a reagir da mesma forma: com um receio ancestral. Esse medo, que nos invade e entorpece os sentidos, faz com que tenhamos uma reação cega e bruta e, tal como na idade média matamos as bruxas, hoje matamos tudo o que nos rodeia e que, de acordo com a nossa perceção, ameaça a nossa estúpida existência. Sim, disse estúpida. Num contexto intemporal o nosso conhecimento é minúsculo e nós somos muito mais estúpidos e ignorantes do que aquilo que pensamos ser.

Embora não seja partidário da solidão, concordo contigo quando dizes que o homem primeiro precisa  de se amar a si próprio e só quando se amar a si próprio, verdadeiramente, estará pronto para dar amor. Atenção eu não disse receber amor. Eu disse: dar amor. O homem nunca deveria pedir amor, mas apenas dá-lo. O irónico e que se todos dessem amor aos outros, todos acabariam também por recebê-lo. Ora receber amor sem o pedir e sem se considerar que a tal se tem direito, é tão gratificante que nenhum de nós consegue sequer  imaginar tal sensação. Para termos uma ideia, ainda que mínima, basta pensarmos no sentimento que nos invade, quando somos objeto da atenção desinteressada de alguém que não esperávamos. Nesse momento somos invadidos por uma beatitude que nos causa um bem-estar indescritível. Agora imaginemos que isso acontecia a toda a hora e com todas as pessoas que nos rodeiam. Penso que isso seria a verdadeira definição de viver no paraíso.

Tu colocas-me uma pergunta muito interessante porque a sua resposta sofre daquilo que eu chamo de “dualidade impossível”. O que vejo pela frente: tudo e nada. O futuro, ao mesmo tempo que está por decidir encontra-se inexoravelmente ligado ao passado. Ou seja, tudo o que fazemos no passado vai influenciar o futuro que podemos esperar, mas existem sempre uma componente do futuro que é decidia, não pelo passado, mas pelas decisões do momento e, nesse sentido, o futuro, ou pelo menos parte dele, pode ser mudado. A parte que é determinada pelo passado posso dizer-te que será muito triste e apenas trará sofrimento, pelo menos em termos coletivos. A humanidade tem feito um conjunto de disparates cujo preço vai ter de pagar, com lágrimas de sangue e não apenas com suor. É por isso que costumo deixar o alerta de que, se queremos suavizar o sofrimento do futuro, temos que mudar o comportamento de hoje para que, na parte em que este influencia o futuro o possamos melhorar.

Desafiar os padrões e viver de acordo com os seus próprios standards, tendo como princípios orientadores o respeito pelos outros e o dar aos outros, é uma coisa com que me identifico. Sempre dei muito pouco valor ao juízo do mundo e o que é mais irónico é que, quanto menos valor lhe dou, mais o mundo me julga favoravelmente. A verdade é que não atingi o sucesso de outros porque não alinhei com a pandilha, porque rompi com o status, ou porque valorizei aquilo que entendia ser o melhor para mim e para os que de mim dependiam e não para os que lideravam, por sucessão, ou por detenção.

Gosto da intensidade com que te descreves. Gosto de pessoas intensas, desde que não sejam monotonamente intensas. A intensidade, quando vivida a todo o tempo, torna-se na loucura e impede o ser humanos de ser um ser social, quando este o é por inerência. Eu vivo com intensidade uma boa parte do tempo, talvez até todo o tempo, mas coloco intensidade no trabalho, na diversão e lazer e no descanso. Com esta diversidade procuro fazer com que a intensidade não seja monótona e ao mesmo tempo saboreio verdadeiramente a vida. Talvez também seja um homem da lua, porque a noite me apaixona e o luar, esse raio prateado, que enche a noite, simultaneamente, de luz e de sombras, me encanta.

Conhecer a alma e o corpo e atender aos desejos dos dois sem sentimentos de culpa e remorso, é um estado muito avançado do espírito, ao qual gostaria um dia de chegar. Entendo que esse deva ser o objetivo de todos e que é para aí que temos de caminhar, mas sou uma alma provavelmente não tão velha quanto tua e ainda tenho muito caminho para percorrer, mas aceito a tua mão para me ajudar a percorrê-lo.

Alonguei-me muito nesta carta e deixei que ficasses a conhecer muito deste viajante do tempo, que espera trocar mais missivas com a bruxa Agnes Lilith, que gostei muito de conhecer.

Sempre em movimento, mas sempre presente!

O Viajante do Tempo

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