CARTAS NA PANDEMIA 36

Lisboa 17/01/2021 (Portugal)

Olá Carol,

Espero que esta carta te encontre bem de saúde, pois nos tempos que correm esse parece ser o bem mais precioso (para mim sempre foi, mesmo sem a pandemia!), na companhia dos que te são queridos. Por aqui tudo bem, neste domingo frio, mas solarengo.

Hoje, o campo de futebol que avisto da minha janela, está praticamente vazio. Não há jogos e apenas um ou dois jovens pontapeiam uma bola, tentando colocá-la dentro do retângulo da baliza. É a nova realidade que deverá ficar connosco durante um mês. Apesar disso, alguns pais saíram à rua com os filhos e ouvem-se os gritos das crianças em correrias, próprias da idade, ainda que não sejam visíveis.

Gostei muito da tua carta. Gostei por várias razões: me fez pensar, me levou a investigar e os temas são motivadores, mas já lá iremos.

No que diz respeito à espiritualidade, por aquilo que li e de acordo com alguns especialistas em espiritualidade, a numerologia é exatamente o primeiro passo, mas falarei disso quando tiver mais conhecimento. Por enquanto, nada sei, por isso, ter a veleidade de ter uma opinião sobre o assunto, seria pura arrogância intelectual. A seu tempo e se esta correspondência se mantiver viva, falaremos mais sobre o assunto. No entanto, sou todo ouvidos, para o caso de quereres partilhar algo sobre espiritualidade.

Apesar de ser um iniciado, no assunto, começo a perceber que a espiritualidade está presente em todos nos e em todos os locais ou atividades, nós é que não temos consciência disso. Isso faz com que por vezes se confunda a espiritualidade presente em determinada pessoa, com a sua consciência desse facto. Eu durante muitos anos neguei essa consciência e entendia que pautava a minha vida por um conjunto de princípios morais e valores, que me foram transmitidos durante a juventude, altura em que somos verdadeiramente educados. Hoje percebo que a minha atuação, que muitas vezes foi caracterizada como muito humana, na verdade era a que seria indicada pelos guias espirituais que me terão guiado ao longo da vida, ainda que eu me mantivesse ignorante desse facto. Na verdade, tudo terá começado com uma situação muito peculiar em que eu, tendo apenas quinze dias de idade, os meu pais pensaram que estava a morrer e correram para a igreja para me batizar (nota que não correram para o hospital). Quando cheguei à igreja fui declarado morto pelo próprio padre que, tomado de uma urgência, que parecia resultar da inspiração divina, me purificou na pia batismal, ignorando o restante ritual. Nesse momento retornei à vida. Não acredito que tenha ressuscitado, mas acredito que o choque da água fria, retirada da pia batismal, fez com que o meu coração voltasse a palpitar. Penso que tudo começou aí, embora só agora eu comece verdadeiramente a entender o significado disso tudo.

Li o artigo, cujo link me enviaste e percebo perfeitamente o que queres dizer. Percebo porque em parte o pratico. A verdade é que consegui um equilíbrio na minha vida que me permite ter um vasto grupo de amigos, uma carreira profissional interessante, mas sem comprometer os meus princípios e uma família extraordinária (uma esposa fantástica e dois filhos maravilhosos). Falemos um pouco mais sobre o modo de vida para o qual o teu artigo apela, embora sem nunca o mencionar explicitamente.

Eu já tinha ouvido falar do Lagom e até já tinha lido uns artigos sobre esse modo de vida e sobre uma obra da Linnea Dunne (a autora do livro Lagom – A Arte Sueca para Uma Vida Equilibrada). Apesar disso, fui investigar um pouco mais para poder comentar com alguma propriedade, sobre o assunto, embora sempre como leigo. Na verdade, confirmei que estamos perante um modo de vida que defende uma atuação em nome de um equilíbrio permanente e que priveligia o coletivo em detrimentos do individual, quer se fale de carreira profissional, vida pessoal ou social. Numa lógica de equilíbrio muitas das coisas que fazemos, que consumimos ou que possuímos são completamente dispensáveis e todos deveríamos prescindir delas.  Disto isto, não me parece que deixe qualquer abertura para comportamentos extremistas, como o de prescindir de um conjunto de confortos, pois estes não parecem ser uma representação fiel do modo de vida Lagom. Neste modo de vida, tudo é feito com muita ponderação e sem extremismos, ou sem sentimentos de culpa. Sim falo da culpa porque é uma coisa que a religião católica, bem como outras, como por exemplo a muçulmana, nos inculcam de tal forma, que condiciona todos os aspetos da nossa vida.

Portanto, os princípios do modo de vida Lagom são perfeitamente compatíveis com uma carreira de gestor de sucesso ou com o ser um grande empresário, ou ainda, com o ser apenas um varredor de rua. A diferença está, normalmente, na forma equilibrada como se é uma cada uma destas coisas. A Suécia é um dos países mais ricos do mundo e com melhor qualidade de vida! O problema de algumas pessoas que conheço e que enveredaram por esse modo de vida, é que fizeram uma interpretação extremista do mesmo e acabaram por se isolar do mundo e viver na miséria. Ora os suecos vivem todos muitos bem e de forma confortável, tanto quanto eu sei e foram eles os inventores do Lagom.

Não sei se o que disse anteriormente se aplica ou não a ti e não quero que tires das minhas palavras, a ilação de que estou a dar-te lições. Estou apenas a identificar um risco que existe, pois já o vi acontecer. Muitas pessoas, quando forçados por uma necessidade de mudança tornaram-se fundamentalistas. Apenas trocamos duas cartas, por isso não posso ter a veleidade de te conhecer ou de querer saber o que te vai na alma. Dito isto, resulta claro das tuas palavras que necessitas de uma mudança. Permite-me a ousadia de te pedir que reflitas se a mudança de que necessitas não está mais no teu interior do que no teu exterior.  

Com isto não quero dizer que não leves a cabo algumas mudanças nos hábitos de consumo, nos hábitos de “posse” e por aí a adiante. O que digo é que, tendo tu uma carreira de gestora, fazes muitas coisas, talvez demasiadas coisas. Assim, pergunto: porque não começas por eliminar algumas das coisas que fazes e dedicas mais tempo a ti própria e à tua família para procurar a tal tranquilidade?  Quem sabe se essa mudança não é suficiente. Caso não seja podes sempre dar o passo seguinte.

Deixa que partilhe contigo aquilo que se passou comigo entre 2011 e 2013. Eu tinha terminado um projeto, como CEO de um fundo imobiliário em Portugal, enquadrado numa grande multinacional americana. Foram cinco anos diabólicos! Financeiramente eu até estava tranquilo e pensei em dedicar-me apenas ao ensino e à consultoria. Nos primeiros tempos as coisas correram muito bem e eu adorei gozar a quantidade de tempo livre que tinha. Foi, aliás nessa altura que escrevi os primeiros quatro livros. No entanto, comecei a ficar inquieto, pois não estava na minha natureza ser aquilo em que me estava a tornar, embora desde sempre tivesse tido essa ilusão: a ilusão de que o que precisava era de tranquilidade. Voltei ao mercado de trabalho, mas de uma forma bastante mais racional, ou seja, aquela que te descrevi em cima, procurando um equilíbrio entre os três pilares principais da nossa vida: O pessoal, o profissional e o social. Pensando um pouco mais sobre o assunto, isso é exatamente aquilo o princípio base do Lagom propõe: equilíbrio. Confesso que estou a constatar isso no exato momento em que escrevo estas palavras. Isto é admirável!

Acho que me entusiasmei outra vez, o que é bom, porque significa que corresponder-me contigo se está a tornar um desafio e um estímulo intelectual. Fantástico! Vamos continuar

Despeço-me até à volta do correio com um forte abraço

Manuel Mota

3 thoughts on “CARTAS NA PANDEMIA 36

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