CARTAS NA PANDEMIA 38

Lisboa 21/01/2021

Querida Jaqueline

Mais uma vez espero que esta carta te encontre bem. Abrigada da chuva, protegida do vírus e rodeada dos que te amam, onde estão incluídos a Gaia e o Brás Cubas. Uma nota: eu nunca quis ter um cão, a viver comigo no apartamento, mas neste momento, por circunstâncias que ninguém antecipou, tenho comigo, desde o dia dezoito de dezembro passado, um cachorro. Trata-se de um Beagle que faz três meses no dia vinte e três. O nome dele é King. Parece que tive o meu terceiro filho… Palavras para que? (junto fotografia do “bebé”). A presença do cachorro, cá em casa, é temporária, mas já percebi que quando ele partir vai ser uma dor… Nem quero imaginar!

Partilho contigo a dor, a desilusão e a tristeza que é ver os animais abandonados. Para mim é mesmo chocante que as pessoas tenham a coragem de ter um animal, enquanto isso lhes convém, seja qual for a razão e que depois simplesmente o abandonem. É um comportamento imperdoável! O cão não sobrevive sozinho, por isso abandoná-lo é sujeitá-lo a um sofrimento que mais cedo ou mais tarde resultará numa morte antes do seu tempo. Enfim… é mas uma das muitas faltas de civismo, para não lhe chamar outra coisa, que muitos de nós evidenciam, no seu comportamentos diário. Sim estou a falar de nós, dos humanos. Um cachorro nunca abandonaria o seu dono!

É verdade o projeto terminou, mas como dizia a canção de Carlos do Carmo, um dos maiores fadistas portugueses, falecido recentemente: “por morrer uma andorinha não acaba a primavera” (https://www.youtube.com/watch?v=L2X9_Hl9x04&ab_channel=AgostinhoMaciel). Porquanto, eu digo: por terminar o projeto (aparentemente até vai continuar!), não quer dizer que se interrompa a nossa correspondência. Por mim continuarei a estar disponível para me corresponder contigo. Aliás a última carta já não foi partilhada com o projeto. O que me dizes?

Por aqui começou uma tarde pardacenta. O dia começou cinzento e assim promete continuar, pois o sol meteu férias. Ausentou-se sem aviso prévio e da mesma forma que ontem brilhou hoje se ofuscou. Não sei bem porquê, mas hoje associei o manto cinzento que esconde o céu, ao espectro sombrio que começa a estender-se sobre Portugal. O sistema de saúde está a atingir o limite, lançando sobre o país uma sombra de preocupação, pois, aparentemente, os problemas éticos, levantados pela necessidade de ter de tomar a decisão sobre quem deve morrer e quem deve viver, começam a ser uma realidade… Uma triste realidade!

Como já deves ter percebido as coisas em Portugal estão muito complicadas e a vacina, ao invés de vir resolver o problema, ainda o veio agravar. Parece irónico, mas a verdade é que a existência da vacina deu às pessoas uma sensação de confiança, que, embora sendo falsa, as tem levado a não se auto preservar, nem a preservar os outros. Por aquilo que passa nas notícias, que, diga-se de passagem, nem sempre é totalmente verdade, tem existido muita falta de civismo. As pessoas que deveriam estar em quarentena, quer como resultado de contaminação ou por contacto com pessoas contaminadas, não o estão a fazer e, apesar das multas serem elevadas e de algumas centenas terem sido presas, existem muitas pessoas que simplesmente não querem saber. Acham-se no direito de sair à rua, mesmo tendo contraído a doença, num comportamento egoísta e até criminoso.

Mudam os países, mudam as pessoas, mas os problemas e os conflitos parecem ser os mesmos… Em Portugal a discussão é sobre se, o grande confinamento que estamos a viver deve ou não incluir as escolas. Os especialistas dizem que sim, pelo menos a maioria deles, enquanto os políticos dizem que não. Como sempre, o dinheiro acabou por falar mais alto e as escolas continuam abertas, para o estado não ter de suportar o custo de ter os pais em casa a tomar conta dos filhos. Aparentemente, a decisão de alterar isso poderá ser tomada ainda hoje.

Vivemos efetivamente tempos bem anormais e a normalidade, entendida como aquilo que vivíamos antes da pandemia, vai demorar e pode ser que nunca mais retorne. É bem possível que a dita normalidade passe a ser uma coisa bem diferente.

Tenho saudades de passar o fim de semana fora de Lisboa. De tratar do meu pomar, de lavrar a terra e de limpar as ervas do caminho de gravilha ou de aparar as árvores. Tudo isso foi adiado, ou melhor dizendo, foi proibido, por agora. Tenho saudades de abraçar os amigos e de dizer uns disparates, regados com um copo de bom vinho ou uma cerveja gelada. Tenho saudades de contar umas anedotas e fazer toda a gente rir, com meia dúzia de asneiras. Tenho saudades do calor humano dos amigos!

Hoje tive de ir à empresa assinar uma série de contratos e outros documentos. Apesar de termos implementado a assinatura digital, como administrador das várias empresas que temos no portfolio, tenho que assinar muitos documentos e alguns ainda são assinados sobre o suporte físico. As ruas têm bem menos gente do que tinham na semana passado, mas, apesar de tudo, ainda estão longe de ser o deserto que eram no confinamento de março/abril do ano passado. As pessoas têm menos medo, embota me pareça que têm bem mais razões para o ter agora que no último confinamento.

Apesar dos tempos que vivemos serem difíceis e impeditivos da deslocação de pessoas, em Portugal, assistimos a um fenómeno interessante. O meu email recebe mais solicitações e propostas, do que recebia antes da pandemia, de estrangeiros interessados em investir em Portugal. Como consequência o volume de trabalho aumentou, mas o desafio e a motivação também subiram de nível. Se a vacina fizer com que, a partir do Verão, consigamos um maior grau de liberdade e a economia possa funcionar com regularidade, acredito que Portugal vai sair bem desta crise pandémica e do consequente efeito económico, numa posição reforçada. A expetativa está elevada, vamos esperar que a sucessora não seja a desilusão!

Neste momento, chove com intensidade e as previsões são de muita chuva, frio e vento. Estamos no inverno e tudo isso é natural. O que não era natural, mas se está a tornar normal, é a intensidade com que todos estes fenómenos se manifestam, criando situações para as quais não estamos preparados e que resultam em pequenos desastres ou mesmo catástrofes. O dia está triste e o céu chora a sua tristeza com lágrimas geladas, derramando-as sobre a terra, para satisfazer as necessidades dos seus veios freáticos. O mal de uns é o bem de outros. É esse o ciclo da vida e da renovação da natureza, no qual o ser humano se deveria abster de intervir. Já vamos tarde… certo?

Termino por aqui.

Um abraço forte e até à volta do correio.

Manuel

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