À DERIVA

Patricia quando viu as duas mulheres encostadas ao carro receou o pior. Tinha aproveitado a ausência da mãe, num fim de semana prolongado com o namorado, para levar o carro sem autorização desta por isso não podia correr riscos. A última coisa que desejava era vê-lo danificado e a presença das primas Pintasilgo não agoirava nada de bom. Aproximou-se do carro, com o coração aos pulos, mas fingindo uma descontração que estava longe de sentir. Elas tinham-na obrigado, como parte do acordo celebrado, a dar-lhes boleia no sábado, mas prometeram deixá-la levar Lurdes a casa, sozinha, no entanto, ela sabia o quanto valiam as promessas delas.

«Já de partida?» Disse uma das mulheres, com um sorriso sarcástico.

«Sim.» Respondeu Patricia

Patricia parou a dois metros do carro porque elas lhe bloqueavam a passagem. As mulheres eram altas e musculadas. A prática de Krav Maga tornava-se duas armas perigosas. Patricia foi obrigada a olhar para cima tal era a diferença de altura entre elas. As mulheres afastaram-se para lhe dar passagem. Estavam com um ar divertido, mas pela expressão não estavam à procura de briga. Quando acabou de colocar os sacos no carro apareceu a Lurdes. Sendo quase da mesma altura elas olharam-se nos olhos. O olhar delas era-lhe familiar, mas não conseguia recordar-se de onde as conhecia. Talvez as tivesse visto dentro da casa.

«Queremos desejar-te uma boa viagem.»

Lurdes olhou-as com surpresa sem perceber a saudação.

«A última vez que estivemos juntas estávamos de máscara, mas agora já conheces os nossos rostos.»

A informação funcionou como uma autêntica chicotada. Uma chicotada na alma. Instintivamente, encolheu-se, tal era a dor da memória da presença delas naquele quarto. Apesar do medo que lhe consumia a alma encheu-se de coragem.

«Desapareçam da minha vida!»

A resposta foi uma gargalhada sonora.

«Temos uma recordação para ti. Quando tiveres umas horas disponíveis diverte-te a ver esta gravação.»

A mulher que falou estendeu-lhe uma pen drive que ela se recusou a receber. Sem se incomodar com isso ela colocou-lha no bolso das calças ao mesmo tempo que lhe segredava.

«Sabemos tudo sobre ti. Até à próxima!»

Lurdes sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e foi invadida por uma sensação de medo indescritível. Deu meia volta e desapareceu dentro do carro. Durante o percurso, apesar das tentativas da Patricia não existiu diálogo. Lurdes, quando se dignou a responder, fê-lo com monossílabos, matando à nascença a possibilidade de uma reconciliação. Lurdes tinha consciência de que seria difícil viver sem a Patricia. Tinha-se afeiçoado a ela, mas a verdade é que esta não era sua amiga de verdade, apenas a usava para ter prazer ou para a vender em troca de droga. Quando a viagem terminou, Patricia fez menção de lhe dar um beijo de despedida, mas Lurdes afastou-a.

«Tu nunca foste minha amiga, embora eu te considerasse como tal. É melhor não nos vermos mais.»

«Quero ver quanto tempo tu aguentas sem me vir pedir droga!» Disse Patricia com desdenho.

«Quando quiser droga irei busca-la diretamente à fonte, pelo menos, quando deixar que usem o meu corpo, serei eu a receber o pagamento e não tu, sua caftina!»

Patricia ficou parada a olhar para Lurdes. Pensava que tinha tudo planeado e que a tinha na mão, mas o seu patrocinador era mais esperto do que ela pensava. Tanto melhor, estava farta de aturar as lamechices de Lurdes. Arrancou sem dizer mais nada e sem olhar para trás.

Lurdes percebeu de imediato que não estava ninguém em casa. Ainda bem porque não lhe apetecia dar satisfações do seu estado a ninguém. Comeu uma fatia de bolo de nozes e uma torrada, acompanhadas de um chá e tomou um comprimido para as dores. Depois disso foi para o quarto, deitou-se e adormeceu de imediato: eram dezoito horas.

O pai chegou por volta das vinte e três e ao ver o silêncio que reinava em casa foi até ao quarto da filha: Lurdes dormia profundamente. Ele imaginou que ela teria passado a noite em claro e sorriu ao lembrar-se dos seus tempos de juventude. Fechou a porta com cuidado e foi até à sala. Quando Elisa chegou, ficaram os dois à conversa na sala apenas por uns escassos minutos. Ela nem foi ver a filha, depois da informação recebida do marido.

Lurdes acordou tarde. Isso significava quer os pais não a tinham acordado o que queria dizer que assumiram que estava tudo normal. A cabeça estava fresca e descansada, mas o corpo ainda estava dorido, sobretudo os seus orifícios. Tomou banho e tratou deles e do resto do corpo. Ela tinha um corpo belo e umas feições interessantes, embora, por regra, não se tivesse em grande conta. Desta feita, olhou-se ao espelho, com mais cuidado, para ver os estragos da noite.  Nessa altura lembrou-se das duas mulheres que tinham estado com ela na noite de sábado e o medo assaltou-a. Vestiu-se rapidamente e foi tomar o pequeno almoço, lavando consigo a pen drive e o computador. A mensagem era clara. Elas consideravam-na sua propriedade e ela deveria corresponder às suas solicitações sem levantar quaisquer reservas. Lurdes sentiu uma raiva surda subir por ela acima. «Quem pensavam elas que eram?» Pensou. Quando viu o vídeo o desespero tomou conta dela. Elas tinham filmado Lurdes em ação. Eram várias horas de filme em que Lurdes se expunha sem pudor, num vídeo altamente comprometedor. Mostrou entusiasmo, sentiu prazer e suportou a dor, mas nunca disse que não. Tinha-se portado como uma autêntica prostituta! Se aquele filme se tornasse publico seria a desgraça dela. Como teria sido possível ela fazer aquilo? Ligou à amiga da mãe que era médica e já a tinha ajudado outras vezes e contou-lhe meia verdade.

«Passei o fim de semana com uns amigos e acho que fui abusada sexualmente, embora não me lembre de muitas coisas.»

A amiga da mãe queria que ela fizesse queixa à polícia sobre o que se tinha passado, mas ela preferiu não o fazer. Apenas queria perceber o que lhe tinham dado. O resultado foi elucidativo: Ela tinha tomado heroína e vários estimulantes sexuais e energéticos, mas também uma substância para a colocar num estado semiconsciente da realidade.

«Seja o que for que tenhas feito não foi de livre vontade!» Disse a médica.

O relatório que lhe entregou atestava isso mesmo. Lurdes guardou o documento sem saber bem o que fazer com ele. Tinha prometido a si própria que não tomaria mais drogas, mas na terça feira ao fim do dia não conseguiu resistir e tomou a dose que o dono da vivenda da Parede lhe tinha dado. Os dois dias seguintes foram relativamente tranquilos, mas na sexta de manhã a ansiedade tomou conta dela. Quando se estava a vestir recebeu o primeiro telefonema.

«Bom dia Lurdes, fala o João António.»

«Desculpe, mas eu não conheço nenhum João António.»

«Sou o dono da vivenda onde estiveste no fim de semana passado.»

«Estou a ver. O que queres?» Disse num tom frio.

«Quero que venhas passar o fim de semana a Cascais. Eu mando um carro buscar-te hoje às seis e regressas no domingo ao fim do dia.»

«Não estou interessada.»

«Isso pode render-te várias doses…»

Lurdes hesitou durante alguns segundos, o suficiente para ele perceber que ela estava tentada a aceitar.

«Já disse que não estou interessada.» Disse, numa voz trémula.

José António leu aquela hesitação com um alento de esperança.

«Pensa no assunto. Eu volto a ligar mais tarde.»

A chamada foi desligada antes que ela tivesse a possibilidade de dizer alguma coisa.  A meio da manhã o telefone começou a tocar com alguma insistência, mas ela tinha-o colocado no silêncio, pois estava nas aulas. No intervalo acabou por atender o telefone.

«Sabemos que o João António te ligou. Estás proibida de aceitar o convite dele. O vídeo que temos em nosso poder é garantia de que nos vais obedecer, mas compreendemos que tenhas necessidades.»

«O que é que isso quer dizer?»

«Duas coisas: não pretendemos impedir-te de jogar no sábado, ao contrário do José António e vamos dar-te a droga de que necessitas.»

Lurdes ficou calada. Queria dizer não. Queria revoltar-se contra aquilo tudo, mas não estava preparada para ver o filme divulgado. O silêncio do outro lado da linha significava que aguardavam uma resposta.

«Como é que vocês se chamam?»

«Eu sou a Silvia e a minha prima é a Sofia.»

«O que queres que eu faça Silvia?»

«Eu vou ter contigo à hora do almoço e levo-te uma prenda. No sábado, depois do jogo, vamos buscar-te e vens passar a noite connosco.»

«Eu não vou jogar este fim de semana.»

«Tanto melhor. Assim vamos buscar-te à hora que partirias para o jogo.»

O conflito dentro dela era brutal. A necessidade da droga e o medo de ver o vídeo divulgado não conseguiam eliminar, mas sobrepunham-se ao medo de se entregar nas mãos das duas mulheres. A dor e a humilhação porque elas iriam fazê-la passar era algo que fazia o seu corpo e alma revoltarem-se. Apesar disso, não conseguiu dizer que não. Convenceu-se de que não tinha alternativa e cedeu. Isso ajudou-a aceitar e a suportar, mais facilmente, o que aí vinha.

A droga e os estimulantes ajudaram-na a passar o fim de semana. O problema foi lidar com isso depois. Contrariamente ao que esperava o fim de semana não foi passado na casa de nenhuma das primas. Ela foi levada para uma casa, na Costa de Caparica, onde estavam muitas mulheres e as primas não foram as únicas a servir-se dela, no entanto, foram as únicas que a maltrataram. Foram várias as mulheres que lhe deram prazer e a quem ela retribuiu. Umas mais meigas outras mais brutas, mas apenas as primas a espancaram e maltrataram os seus orifícios. Deixaram-na em casa a meio da tarde de domingo com duas doses de droga.

«Uma é para amanhã outra é para quarta feira. Na sexta receberás mais, à hora do almoço, depois de falarmos sobe o próximo fim de semana.»

Lurdes recebeu a droga como uma autómata. Estava cansada e nem sequer lhe apetecia falar sobre o assunto. Tomou banho e foi dormir. Mais uma vez os pais não estavam em casa, mas na segunda feira questionaram a ausência dela durante fim de semana.

«Vocês têm a vossa vida e eu tenho a minha. O sábado à noite é para eu me divertir.»

A forma irritada com ela respondeu não agradou muito aos pais.

«Tu podes ser maior de idade, mas financeiramente dependes de nós, por isso vê como falas.» Disse a mãe.

«Para ti tudo se resume a contratos. Negociaste a relação a que chamam casamento com o pai e agora achas que me podes comprar com uma mesada. Se queres cortar a mesada corta. Existem muitas formas de eu me sustentar.»

A afirmação foi feita com muita firmeza, mas quando ela enfrentou os pais a tristeza no olhar era visível, embora lhes tenha passado despercebida. O silêncio que se seguiu foi constrangedor e passado algum tempo ela levantou-se e foi para o quarto chorar. Não queria brigar com os pais, mas não entendia o que se passava com ela. Só lhe apetecia desaparecer e mal o efeito da heroína passava, ela sentia uma tristeza e uma solidão que lhe pesava de uma forma estranha. Era como se carregasse um peso brutal do qual não se conseguia libertar.

Os pais estavam cada vez mais afastados um do outro. O facto de viverem sob o mesmo teto, no princípio tinha funcionado muito bem e eles acabaram por partilhar muitas coisas, mas à medida que o tempo foi passando eles tornaram-se dois estranhos. Cada um vivia preocupado com os seus problemas: o outro tornou-se indiferente. Quando à filha tinham-se deixado enganar pela falsa sensação de que bastava tê-la debaixo do mesmo teto. A verdade é que sabiam cada vez menos da vida dela.

«Hoje achei a Lurdes muito estranha.» Disse Pedro, depois da filha se ausentar.

«Pois eu achei-a muito insolente!» Disse Elisa.

«Isso também é verdade, mas o que me preocupa é o que pode estar a causar isso.»

«Lá estás tu a procurar encontrar motivos e justificações para tudo. Ela é uma adolescente e nessa idade as raparigas reagem de forma estranha, sem uma razão aparente. É próprio da adolescência ser mal-educado e insolente!»

Pedro ficou calado. Não concordava com o que a mulher estava a dizer, mas não tinha argumentos para a contrariar. Ela era mulher, portanto, sabia muito mais do que ele sobre o comportamento feminino. O melhor era calar-se para evitar mais uma discussão.

Lurdes deixou de comparecer, definitivamente, aos treinos e começou a faltar a algumas aulas. Quanto aos jogos, deixou de ter condições de participar e nem sequer era convocada. Tudo isso ainda agravou mais o seu problema. Ela isolou-se e tornou-se depressiva. Cada vez dependia mais da heroína, para se levantar e fazer o que quer que fosse. As primas aproveitaram para explorar a situação e, para além das sessões com elas e o seu clube, passaram a partilha-la com o João António: a noite de sexta era delas e a de sábado dele. Com tudo isso Lurdes estava completamente perdida: era uma mulher à deriva.

O treinador, bem como toda a equipa lamentavam a perda de Lurdes como jogadora, mas nada podiam fazer. Isso era uma opção dela. O que tornava a coisa um pouco estranha era o facto de ela ter também deixado de aparecer nas aulas. Sónia comentou o assunto ao jantar e o Hugo prometeu ver se conseguia averiguar o que se passava. No dia seguinte aproveitou o discurso da motivação à equipa para dar o exemplo da Lurdes como algo a evitar. No fim do treino Patricia veio ter com ele.

«A Lurdes está metida na droga.»

«O que é que queres dizer com isso?»

«Ela quando era minha amiga já consumia esporadicamente. Eu tentei tirá-la desse mundo e ela não só se recusou como deixou de ser minha amiga. As novas companhias fizeram-lha muito mal.»

Hugo ficou a olhar para Patricia meio desconfiado. Ela pensou que ele estava a duvidar da palavra dela e disse:

«Basta segui-la durante o fim de semana para verificar se aquilo que eu digo é ou não verdade!»

Hugo não duvidava de que ela dizia a verdade. Só achava que não era a verdade toda. Patricia tinha algo a ver com a situação em que Lurdes se encontrava e a avaliar pela sua performance, ela também devia consumir droga. Tinha de prestar mais atenção à sua jogadora.

Sónia quando soube o que se passava ficou com remorsos. Talvez Lurdes não tivesse enveredado por aquele caminho se ela a tivesse aceite como amiga outra vez. A mãe e o Hugo bem tentaram contrariar essa convicção, mas de nada valeu. Elsa decidiu que tinha de descobrir o que se passava com Lurdes e faria isso no próximo fim de semana, pois não havia jogos. Perante a impossibilidade de a demover, Hugo propôs-se a acompanhá-la. Júlia não concordou com a decisão, mas compreendia a posição da filha, pelo que propôs uma alternativa.

«Eu não vos quero nessas andanças. Isso é caso para um detetive particular.»

Todos concordaram com a ideia e ficou acordado que o detetive seguiria Lurdes e fotografaria todas as pessoas com quem ela interagisse entre sexta e domingo. Sónia passou o fim de semana ansiosa. Nunca mais chegava segunda feira!

O relatório do detetive era extraordinário! Ele tinha conseguido fotografias e vídeos de três locais: Costa de Caparica, Cascais e Parede. Para além disso, conseguiu uma série de informações sobre os três locais e tudo indicava que eram usados para festas onde existia muita droga, bebida e sexo. As provas recolhidas evidenciavam que, enquanto na Costa de Caparica a festa era exclusivamente aberta a mulheres, a mordia da Parede era frequentada pelos dois sexos. Quanto à moradia da Cascais era só para VIPs. As mulheres, todas bem jovens, chegavam vendadas e os homens tinham mais de quarenta e, a avaliar pelos carros, eram pessoas abastadas. Entre os poucos que foi possível fotografar estavam algumas pessoas bem conhecidas. Na parede a clientela era mais comum, mas também foi possível identificar alguns dos clientes. O relatório era uma autêntica bomba!

«Sabemos qual é o problema da Lurdes, mas como tudo isto não serve de prova em tribunal, não nos serve de nada.» Disse o Hugo

«Talvez não seja bem assim.» Disse Sónia.

A mãe e Hugo encararam-na com uma expressão interrogadora.

«O pai da Lurdes tem um grande amigo que é diretor na polícia judiciária. Talvez ele possa ajudar.»

Eles ficaram os dois a olhar para ela, pois sabiam o quanto lhe custava mencionar o nome do Pedro, quanto mais falar com ele. Sónia colocou de lado os sentimentos. O importante era resgatar Lurdes. Na posse do relatório, encontrou-se com Pedro e com o amigo dele. Pedro tinha uma grande expetativa sobre o encontro. Talvez aquela fosse a oportunidade que tanto desejava de reatar a relação com a Sónia. Pelo seu lado ela sabia o quanto ia sofrer, pelo que, para minorar a situação, assumiu uma postura cautelosa. Foi um desastre! Pedro ao ver goradas as espectativas assumiu um tom frio e distante. Ambos concordaram que o que era importante era a Lurdes. Apesar disso, Pedro sentia uma admiração ainda maior por ela ao vê-la vir em socorro da filha, depois de tudo o que ela lhe tinha feito.

O amigo de Pedro, que conhecia bem a relação dos dois percebeu o que se passava, mas absteve-se de fazer comentários. Admirava Sónia pelo que estava a fazer pela Lurdes e sabia o quanto a magoava a contacto com o Pedro. Aproveitando a ausência da Elisa, que foi mantida na ignorância, fizeram uma busca ao quarto de Lurdes. Não existia ali nada de relevante a não ser três relatórios médicos, com várias análises, que deixavam claro que Lurdes tinha sido drogada e que agia sem ser por vontade própria. Na posse da documentação produzida pelo detetive e dos relatórios dos médicos, Pedro, por recomendação do amigo, fez uma denúncia anónima, dirigida a ele.

O amigo acelerou o processo e dois dias depois Lurdes estava sob vigilância policial. No fim de semana seguinte a rotina foi exatamente igual à descrita no relatório do detetive. Isso permitiu à polícia documentar a sua própria investigação. Pedro queria que eles interviessem de imediato, mas o amigo não o fez. Era necessário documentar tudo para que a prova pudesse ser exibida em tribunal. Com a informação recolhida os mandatos de busca foram emitidos e no fim de semana seguinte as casas de Costa de Caparica e Parede foram alvo de rusgas, onde se prenderam pessoas e apreenderam materiais, suficientes para incriminar os responsáveis. Lurdes não foi presa juntamente com as restantes mulheres. A rusga de sexta foi mantida em segredo, para não assustar os frequentadores da cada da Parede, mas o interrogatório de sábado revelou que existiam várias pessoas nas circunstâncias de Lurdes: exploradas sexualmente.

A rusga de sábado foi ainda mais proveitosa que a de sexta. Foi encontrada muita droga e outros produtos destinados a estimular a libido. Existiam vários jovens, de ambos os sexos, drogados, que eram mantidos nos quartos e explorados sexualmente, por João António, que os vendia a um conjunto diversificado de clientes. Depois de interrogados todos os detidos, as provas recolhidas eram suficientes para ser produzida uma acusação. Muitos dos acusados iriam sair em liberdade com penas menores e alguns seriam ilibados, mas a operação, para além de permitir resgatar Lurdes, teve o mérito de desmantelar duas redes de exploração sexual. O seu impacto foi tão grande que teve honras de abertura dos noticiários de várias estações televisivas.

Lurdes foi trazida para casa pelo pai e acompanhada por Sónia. Vieram os três em silencio. Lurdes estava meio drogada e veio parte do caminho a dormitar, embora com movimentos agitados. A médica amiga da família tinha-lhes dado um cocktail para eliminar a maioria dos efeitos que as drogas produziam, sobretudo os excitantes. O nome dela foi mantido fora de todos os relatórios, pois o amigo de Pedro fê-la sair por uma lateral, não tendo sido identificada pelos agentes que controlavam a operação. Foi a Sónia que ficou de vigília no quarto de Lurdes e foi também esta que a convenceu a aceitar o tratamento de desintoxicação. Existia muita coisa que elas precisavam de dizer uma à outra, mas isso podia esperar.

«Eu não vou esquecer tudo o que fizeste por mim.» Disse Lurdes, com emoção.

O pai dela e Sónia estavam à espera que ela fizesse as malas para ser internada numa clínica e ficaram a olhar um para o outro.

«Bem sei que és casado com a minha mãe, mas o teu casamento já terminou faz muito tempo. Se tivesses algum juízo não deixavas escapar uma mulher como a Sónia.»

Ficaram ambos atrapalhados sem saber o que dizer. Pedro deixou que fosse a Sónia a falar, pois tinha sido ela a afastá-lo. Por seu lado ela esperou que ele se declarasse novamente para o poder perdoar. Cada um deles esperava algo do outro que o outro não podia dar. Acabou por ser Sónia a falar sobre o assunto.

«Isso são águas passadas. O teu pai é mais velho que a minha mãe!»

O comentário dela foi uma facada no seu ego. Ela considerava-o um velho! Definitivamente tinha-a perdido. Se ao menos ele conseguisse arrancar aquele amor do seu peito! Era altura de se despedirem.

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