CARTAS NA PANDEMIA 39

Lisboa 25/01/2021

Olá Carol,

Espero que estejas bem e que tudo esteja bem, apesar dos tempos conturbados que vivemos. Por aqui tudo vai bem, mau grado esta pandemia que teima em não nos largar.

Sim a minha rotina do fim de semana também me coloca um sorriso nos lábios. Não a dos que passamos confinados e em que o fim de semana é passado sentado a ler ou a escrever ou, pior ainda, rebentando as costas e queimando as pestanas à volta de um livro ou de um filme, que passa pela centésima vez na televisão. Coloca um sorriso nos lábios, dores nas costas e calos nas mãos! A verdade é que me dá muito prazer andar na terra e à volta das plantas e árvores, embora o proveito não seja muito, pois, como me recuso usar qualquer químico, no tratamento das plantas, os mosquitos e as lagartas destroem ou comem grande parte da produção!

Como deves imaginar não é pelo facto de ter este pedaço de terra que consumo muitos produtos dela, pois o facto de só lá ir ao fim de semana, faz com que muitas das coisas se percam. Um dia, quando me mudar para lá, depois da reforma, talvez consuma mais produtos próprios, mas a verdade é que o custo da produção é mais elevado do que o dos produtos no supermercado. Deixemos isso de lado, pois é assunto para ser resolvido quando estiver sobre a mesa.

Sabes, as mulheres sempre têm mais roupa que os homens. Um homem pode vestir o mesmo casaco e calças, durante um mês e desde que mude de camisa, todos os dias, está tudo bem. Até a gravata pode repetir, para aqueles que ainda a usam, pois é um objeto que está a sair de moda. As mulheres, infelizmente, ainda são julgadas pela sociedade, de forma negativa, se usarem as mesmas calças dois dias seguidos. E elas são os piores críticos das outras! Quem sabe se não é esta pandemia que vai mudar isso…

Interrompi a escrita para passar as mãos pelos braços, afastando a sensação de frio. Isso fez com que desviasse o meu olhar para o exterior. A noite cai rapidamente, mais rápido do que era suposto e o motivo é simples. O céu, que esteve cinzento durante todo o dia, assumiu um tom escudo, que anuncia chuva a qualquer momento. Entretanto uma névoa cinzenta desceu sobre a cidade, envolvendo o topo dos prédios, num abraço húmido e fazendo cair sobre o solo uma cacimba, que humedece a calçada, tornando-a escorregadia. Ainda que esteja dentro de casa o meu corpo presente-a e consegue viver, de memória, as sensações tantas vezes experimentadas, noutros invernos.

Os candeeiros acenderam-se, entretanto e o nevoeiro veio até eles, dando um cariz fantasmagórico à luz espalhada por estes e que deveria servir para orientar os passeantes. Mas apenas a calçada reclama porque os passeios estão vazios! Sentem-se sós e em solidão irão enfrentar a noite e a madrugada. Mas voltemos à nossa carta.

Ontem foram as eleições presidenciais e o Prof. Marcelo foi reconduzido para um segundo mandato. Tem sido um bom presidente, por isso mesmo a reeleição era expectável. O que não era expetável era o número de votos que o candidato que representa a intolerância e a segregação obteve. O mundo está cada vez mais recetivo aos populismos e isso, mais cedo ou mais tarde, vai ter um custo que depois não vamos querer pagar, nem aqueles que ajudaram construir essa opção!

É verdade que tenho uma grande paixão por aquilo que faço, na verdade por tudo aquilo que faço, sem exceção. A começar por ser pai e esposo! Vejo que não sentes essa paixão por aquilo que fazes, profissionalmente e, nesse caso, a melhor opção é sempre a mudança. Eu não pensaria no tipo de mudança que estás a equacionar, mas consigo ver a atratividade que ela tem. No entanto, não consigo evitar de pensar que a imagem que se faz da vida do campo é demasiado idílica. Eu sei porque a vivi na minha adolescência, a vida do campo é dura…. Muito dura!

Fui dar uma vista de olhos na Juliana Paes Garcia e gostei. Naturalmente que os vídeos disponíveis são apenas discursos motivadores, que tocam em alguns aspetos críticos da mentalidade da mudança. A verdade, é que depois não é tão simples como ela o faz parecer, mas também é verdade que sem se eliminar o bloqueio mental, que resiste à mudança, esta nunca é possível. Nós utilizamos técnicas semelhantes nas empresas que adquirimos e quando precisamos que as pessoas mudem para que a empresa mude. Posso dizer-te que a mudança de mentalidade é a principal dificuldade, mas iniciar um novo negócio é um caminho muito duro de trilhar. Mas e então? Na vida existem tantas coisas difíceis e não é por isso que deixam de ser feitas!

Admiro as pessoas que conseguem ler vários livros em simultâneo. Eu quando pego num livro sou possuído de um sentido de urgência em lê-lo até ao fim. Isso é de tal modo que ainda recentemente comecei a ler um livro às dez da noite e fui dormir à cinco da manhã, ou seja, sete hora despois e com a leitura concluída. O pior foi levantar-me às sete e ir trabalhar, no dia seguinte. Dizem que quem corre por gosto não cansa, mas tenho de confessar que estava cansado.

Em relação à publicação das cartas, eu tenho uma posição muito fundamentalista. Discordo totalmente do aproveitamento que as editoras fazem dos autores. Primeiro, não se coíbem de os privar dos seus direitos de autor e depois ainda lhes solicitam que suportem os custos da edição dos livros, sendo que os proveitos das vendas são deles. Considero isso um comportamento sem ética e de um oportunismo inaceitável. Como tal recuso-me a pactuar com ele, mas não julgo outros autores que decidam fazê-lo. Dito isto, quando entrei no projeto, tive de concordar que a editora tinha o direito de publicar as cartas que entendesse, ou seja, prescindi dos direitos de autor. Assim, não sei se eles vão selecionar alguma das minhas cartas para publicação, ainda que eu não suporte o custo da mesma. Eles insistiram tanto nisso, no email que me enviaram para que eu acedesse a suportar os custos, que é possível que o façam. Eu tenho à volta de quarenta cartas por isso eles chegaram a propor-me fazer uma edição só com as minhas cartas e um custo perfeitamente absurdo.  Não falemos mais nesse assunto triste!

Termino por aqui com um abraço carinhoso até à volta do correio.

Manuel

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