CARTAS NA PANDEMIA 40

Lisboa 04/02/2021

Bom dia minha amiga,

Ao fim de trocarmos algumas cartas e apesar do pouco que sabemos um do outro, apenas e sempre por esta via, gosto de pensar que posso chamar-te assim. A relação de amizade implica muita responsabilidade, por isso espero não estar a “colocar o carro à frente dos bois”. Bem sei que existem vários graus de amizade e a nossa, a confirmar-se, está bem no início, mas começo a considerá-la como tal.

Depois desta entrada de leão deixa-me desejar-te que estejas bem de saúde, juntamente com todos os que te são queridos. Por aqui tudo bem. Deixa-me dizer-te, ainda, que foi bom receber a tua carta e ver que continuas firme no propósito de manter esta troca de opiniões.

O dia amanheceu cinzentão com o nevoeiro envolvendo os prédios num abraço húmido. Vistos da minha janela parecem em união perfeita, assemelhando-se a um par de namorados, num abraço terno e carregado de amor. Talvez o abraço do nevoeiro não faça bem aos prédios, mas, quantas vezes o amor de quem nos abraça nos magoa em vez de nos consolar? Talvez nunca ou talvez mais vezes do que o desejaríamos! Apesar disso, não consigo evitar uma sensação de frio húmido e, instintivamente, encolho-me e passo as mãos pelos braços para a afastar. A beleza dos dias assim, não está acessível a todos e é preciso esquecer as sensações físicas para deixar a alma olhar a paisagem. Só olhando-a com a alma a podemos admirar. Gosto de o fazer antes de iniciar o dia de trabalho, normalmente acompanhado de música. Hoje ela é bem triste (whiskey Lullaby), o que não deixa de ser irónico, pois combina com a tristeza da paisagem. É verdade, uma paisagem pode ser triste e bela, em simultâneo.

Faz algum tempo que recebi a tua carta e o mais provável é que estivesses já a pensar que não iria responder, mas aqui estou. Deixa-me dizer que eu irei sempre responder, embora não possa prometer ser sempre célere. A verdade é que, apesar de ter querido fazê-lo várias vezes, a intensidade de trabalho da última semana e meia foi brutal. Tenho começado a trabalhar por volta das oito e trinta da manhã e terminado entre as vinte e duas e as vinte e quatro. Até o fim de semana foi afetado por esta onda de furor laboral. Para além da atividade normal estou envolvido num projeto novo e isso, embora seja desafiante, é, também, muito exigente. Enfim… osso do ofício!

Muito interessante essa reflexão sobre o papel da mulher e da súbita vontade de ter nascido homem. Concordo, embora sem o conhecimento de facto, de que ser mulher não é fácil, sobretudo numa sociedade machista como a nossa. Faço notar que com isto não quero dizer que todos os homens sejam machistas, mas não tenho dúvidas nenhumas de que a sociedade o é. Relativamente a desejar ter nascido com o género oposto, imagino que seja algo que nos passa pela cabeça, a todos, em determinados momentos da vida, isso resulta da forma como vemos o papel do outro género, quer estejamos a falar do papel que é imposto pela natureza, ou melhor dizendo pela especificidade da condição física, quer no papel que a sociedade acabou por “definir” para cada um dos géneros. Eu costumo manifestar a minha opinião, de forma verbal e escrita e esta nem sempre foi bem-vista, sendo que os maiores críticos estão exatamente do lado feminino. Eu não sou nada favorável a pinturas, maquiagens, etc. O que quero dizer com isto é que gosto de apreciar a beleza de uma mulher ao natural e que o exagero nos artifícios me incomoda. Por isso fui muitas vezes apelidado de antiquado, campónio e outras coisas do género. Disto isto, acho que cada um deve arranjar-se de forma a sentir-se bem. Eu sou vaidoso e não gosto de me ver despenteado ou mal vestido, seja qual for o significado disso, uma vez que os gostos são muito subjetivos e o que é lindíssimo para um é simplesmente horroroso para o outro. Para te dar um exemplo, apesar de estar a trabalhar a partir de casa, não deixo de fazer a minha higiene, logo depois de me levantar (a seguir ao exercício matinal) e de me perfumar. Faço-o sobretudo para mim. Tenho amigas e amigos que se riem dizendo: «Perfume? Eu só coloco perfume quando vou para a rua.» É este tipo de cultura, a cultura que nos leva a fazer as coisas porque a sociedade as exige e não porque nós queremos ou necessitamos, que me incomoda. Eu uso perfume para me sentir bem e não para fazer os outros sentirem-se bem.

Percebo perfeitamente quando falas da frivolidade das relações e dos atos e no foco errado, ou falta dele, de muitas pessoas. Eu partilho da opinião, defendida por poucos, de que o nosso foco deve estar nas pessoas e não nas na aparência destas. Nota que isto se aplica em quase tudo na nossa vida. Isso não quer dizer que tenhamos que gostar de toda a gente ou achar que todas as pessoas são bonitas (a verdade é que todas as pessoas são bonitas para alguém, pois aquele ou aquela onde nós vemos fealdade outros vêm beleza), quer apenas e simplesmente dizer que cada um é como é e que temos de aceitar os outros tal como eles são. No entanto, nunca conseguiremos aceitar os outros se não nos aceitarmos a nós próprios. Por seu lado o processo de nos aceitarmos a nós próprios passa, obrigatoriamente, por não produzimos uma imagem de nós a pensar nos outros, mas antes e exclusivamente, a pensar em nós. No dia em que todos fizermos isso, vamos também parar de criticar os outros por serem como são. Deixaremos de o fazer, porque percebemos que eles também passaram por um processo de se aceitarem a si próprios e nós temos de respeitar tanto o processo de aceitação deles como aceitamos o nosso. Espero que não tenha ficado muito confuso!

Relativamente às cartas fui transparente como sempre sou: digo o que penso, embora saiba que nem todos o percebem ou aceitam. No entanto, digo-o consciente de que isso é apenas a minha opinião e como tal os outros têm o direito a ter a sua, que eu aceito sem qualquer problema. Concordo contigo. As minhas cartas também têm muito de pessoal. Apesar disso, eu vou publicá-las todas no meu blog. Naturalmente que aquilo que os meus correspondentes me escreveram é só para mim e nunca será publicado. Eu assumi, faz algum tempo, o propósito de partilhar com quem quiser ler o que penso e digo, sobre as mais variadas matérias e sem restrições. Talvez um dia até decida publicar, com uma editora, os meus livros todos e até as histórias que tenho no blog. Por agora tenho rejeitado todas as ofertas.  Ainda esta semana tive uma editora brasileira a querer publicar as minhas “cartas na pandemia” (FILOS EDITORA), apesar da insistência, não aceitei. O meu propósito é a partilha, nesse sentido gostava de chegar a mais pessoas e reconheço que uma editora, se fizesse o trabalho que lhe compete, seria uma ajuda, como, por regra não o fazem, fico por aqui. Fico pelo meu blog e pelos meus poucos seguidores ou por aqueles que, não o sendo, me leem.

Felizmente para mim, não termino com uma cólica, mas com os votos de que a tua tenha desaparecido logo depois de teres colocado a carta no correio, que é como quem diz, depois de teres enviado o respetivo email. Despeço-me, como sempre, com um abraço amigo e até à volta do correio

Manuel

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