INQUÉRITO ASSASSINO

O INQUÉRITO ASSASSINO

Gilberto olhava siderada para o ecrã. Olhava e via, mas não queria acreditar naquilo que via. O choque era tão grande que se sentia traído pelos seus olhos. Conclusão: ele não estava a ver aquilo. A hipótese era absurda, mas, a não ser assim, tinha que aceitar que a traição era dela e isso era inconcebível. O Coração batia de tal forma acelerado que ele quase não conseguia respirar. Levantou-se e deu várias voltas ao escritório, tentando controlar os batimentos cardíacos. Aquela informação, sobre a Claúdia, não podia ser verdadeira! Não fazia sentido que o fosse! Nem sequer fazia sentido que tivesse tido acesso a essa informação. Naquele momento para ele nada fazia sentido!

Os factos que faziam Gilberto estar naquela aflição diziam respeito a uma pessoa que tinha conhecido há uns meses atrás.

Apesar de fragilizado pela morte dos pais, num acidente amplamente noticiado, ele tinha decidido ir ao seminário. Era um dos oradores e seria complicado substituí-lo em cima da hora, até porque ele era uma autoridade no tema.  Os colegas admiravam-no e, apesar de tentarem animá-lo, respeitaram a sua dor. Isso fez com que fossem muitas as ocasiões em que se manteve isolado.

A sua intervenção como orador teve lugar na manhã do primeiro dia e apenas seria chamado a intervir, outra vez, na mesa redonda da tarde do segundo e último dia. O primeiro dia de trabalhos tinha chegado ao fim e Gilberto estava indeciso sobre se participaria no buffet ou se comeria algo no isolamento do seu quarto. A mão que lhe segurou o braço era delicada e fê-lo com suavidade. A mesma suavidade com que a voz melodiosa lhe chegou ao ouvido.

«Deixe-me felicitá-lo pela brilhante intervenção desta manhã.»

Gilberto virou-se para ver quem o interpelava e as palavras morreram-lhe na boca. A mulher ao perceber a atrapalhação dele sorriu. Era um sorriso demolidor! Quando recuperou a compostura encontrou poucas palavras para se expressar.

«Obrigado…»

Gilberto era um homem brilhante, mas com uma  aparência desleixada. O sexo feminino sempre o intimidara e ele refugiara-se nos livros. Os próprios colegas comentavam a sua aparência desleixada e os poucos amigos, aqueles que o conheciam bem e apreciavam, não pertenciam a núcleo académico. Não era adepto das redes sociais, por isso, apenas as notícias sobre as suas publicações, em revistas especializadas, ou os seus livros, eram publicas. Quando os pais faleceram, foi um choque para quase todos os que o conheciam saber que ele era o único herdeiro de uma grande fortuna. As roupas que vestia e o carro velho que conduzia refletiam uma realidade bem diferente. No entanto, sob aquela aparência desleixada escondia-se um homem que cuidava do físico e podia ser bem interessante, se cuidasse da aparência externa.

Quando estava na faculdade tinha-se apaixonado perdidamente por uma das mulheres mais bonitas da escola. Convencido de que o seu brilhantismo seria suficiente para a conquistar declarou-se abertamente, através de uma carta. Ela humilhou-o, publicamente, exibindo a carta sem pudor. Foi um momento traumático que ele nunca mais esqueceu. Dedicou-se em absoluto à investigação e aos quarenta e cinco anos era reconhecido mundialmente no seu campo.

«O meu nome é Claúdia.» Disse ela com uma voz doce e sedosa.

«Muito prazer. Eu sou o Gilberto.» Disse ele estendendo a mão, num gesto atabalhoado.

Claúdia soltou uma gargalhada e brindou-o com dois beijos. Gilberto ao perceber a desnecessidade de se apresentar, ficou ainda mais atrapalhado. Ela aproveitou o momento para o conduzir até ao buffet e depois até uma mesa para dois num canto isolado. Ele estava nas nuvens. Claúdia tinha quarenta anos, mas aparentava ser bem mais nova e tinha um rosto lindíssimo. Os olhos azuis e os cabelos claros conjugavam-se na perfeição com uns lábios carnudos e um rosto oval. O conjunto era virginalmente sedutor. Os homens ficavam presos ao seu rosto e nem se apercebiam do corpo banal que possuía. Era baixa e robusta, embora sem exagero.

No entanto, o que o prendeu foi o intelecto dela. Apesar de doutorada numa área diferente da dele, abordava o tema que Gilberto tinha apresentado com um arrojo e um conhecimento extraordinários. A determinada altura mencionou ter o desejo secreto de ter nas suas mãos o livro que era considerado o Holly Grall do assunto. Tratava-se de uma edição limitada e única, por isso ela nunca tinha visto nenhum exemplar. A conversa prolongou-se muito para além da refeição e o convite surgiu de forma natural.

«Tenho no meu quarto uma edição desse livro. Queres vê-la?»

Ela olhou para ele de forma significativa e pendurou um sorriso irónico nos lábios. Gilberto apercebeu-se da interpretação que o convite podia ter e ficou ruborescido, preparando-se para balbuciar uma desculpa. Ela sorriu abertamente e colocou-lhe a mão sobre as dele, com carinho, para o tranquilizar.

«Não te preocupes. Eu percebi a intenção. Vamos ao teu quarto.»

Ter aquela mulher no seu quarto despertou nele sentimentos que tinha abafado durante muitos anos e quando lhe apresentou o livro todo ele tremia. Claúdia colocou o livro em cima da mesa e segurou-lhe as mãos. As pernas tremiam de tal forma que ele teve de se sentar. O coração batia de forma louca e ele sentia-se completamente perdido. Claúdia sentou-se no colo dele e o primeiro beijo aconteceu naturalmente. Depois os acontecimentos precipitaram-se e quando se apercebeu estavam os dois nus. Gilberto estava loucamente excitado, mas ao mesmo tempo constrangido.

«Existe uma coisa que preciso que saibas.» Disse ele.

Ela limitou-se a olhá-lo num compasso de espera.

«Eu sou virgem.»

«Eu sou Touro, por isso somos a combinação perfeita.» Disse ela num tom brincalhão.

Gilberto afastou-a um pouco de si, olhou-a nos olhos e disse.

«Não estás a entender. Eu nunca estive intimamente com uma mulher.»

 Claúdia arregalou os olhos de espanto. Agora entedia o constrangimento dele. Olhou-o de forma carinhosa. Nunca lhe tinha calhado na rifa um homem virgem. Como seria?

«Não te preocupes. Deixa-te conduzir pelo desejo.»

Foi o que ele fez e o resultado foi catastrófico. Antes dela aquecer os motores já ele tinha levantado voo. Ela ficou com ele a noite toda e tentaram novamente mais tarde, agora com pleno sucesso. Quando acordaram o aperitivo para pequeno almoço foi divinal. Não existia dúvidas que o sexo entre eles era algo de extraordinário.

A vida de Gilberto mudou a partir desse dia. Ela mudou-lhe o visual alterando meia dúzia de coisas. Os óculos foram substituídos por lentes de contacto. As barbas foram aparadas e o guarda roupa foi todo alterado. Quando os alunos dele o viram nem o reconheceram. As raparigas olhavam para ele embasbacadas e interrogavam-se

«De onde saiu este Adónis?»

Ela vivia em Braga e ele em Lisboa, pelo que se encontravam sempre que podiam, mas mantendo a sua relação discreta. Fora ela que o tinha pedido, mas ele estava encantado com o facto. Gilberto estava completamente apaixonado e já não conseguia conceber viver sem Cláudia. Apesar disso, custava-lhe mudar-se para Braga. Uma coisa era certa se ela lho pedisse ele fá-lo-ia sem hesitação. Sentia por ele um amor sem peso nem medida. Era do tamanho do universo. Ela tinha vindo passar um fim de semana prolongado com ele e estavam na vivenda na Quinta do Lago, no Algarve, quando ele manifestou a preocupação.

«Não te preocupes meu amor. Eu quero viver em Lisboa, depois de terminado este projeto que vamos iniciar agora. São apenas dois anos.»

«O projeto já foi aprovado?»

«Sim. Ainda não conhecemos os detalhes, mas, em princípio, a comunidade irá financiar os cinco milhões.»

«O projeto é assim tão grande?»

«A universidade líder é a do Minho, mas envolve várias outras universidades e uma equipa multidisciplinar e muito vasta.»

Na segunda feira, logo de manhã, ela recebeu um telefonema que estragou completamente o dia. A universidade tinha recebido um email com os detalhes da aprovação do projeto. A aprovação comunitária era de quatro milhões, cuja conceção estava condicionada à obtenção de um milhão de financiamento privado. O pior nem era isso: o chefe dela estava a pensar reduzir a equipa e ele seria uma das excluídas. Claúdia estava irritadíssima e Gilberto pagou por tabela.

«Tens de lutar. Não existe nada que possas fazer?» Perguntou ele.

Claúdia respondeu-lhe de forma desabrida.

«Tens um milhão de euros que me possas dar? Se eu arranjar um mecenas, posso impor a minha participação no projeto. Isso resolvia logo tudo.»

Ela saiu para a rua batendo com a porta. Gilberto ficou sentado no sofá a pensar no que ela tinha dito. Bem sabia que ela tinha falado no sentido literal, mas a verdade é que ele tinha vários milhões. Nunca tinha pensado sobre a utilidade que lhes poderia dar, mas financiar uma investigação como aquela podia ser um bom uso para o dinheiro. A verdade é que não tinha filhos nem família próxima a quem deixar o dinheiro, nem utilidade para este. Quando lhe apresentou a proposta ela nem o quis ouvir. No entanto, ele insistiu tanto que ela começou a ponderar a coisa de forma séria.

«Como pretendes fazer isso?» Perguntou ela.

«Eu dou-te o dinheiro e tu financias a investigação. Assim podes impor a tua participação no projeto. Para além disso, eu não quero aparecer como Mecenas.» Disse ele.

«Isso não faz sentido nenhum. O dinheiro é teu» Disse ela.

«Por isso mesmo eu faço dele o que entender. Tu vais assinar um protocolo com a Universidade do Minho, garantindo o financiamento de um milhão e eu coloco o dinheiro na tua conta.»

Claúdia ficou a olhar para ele emocionada.

«Tu não existes! Estás mesmo disposto a financiar esta investigação no valor de um milhão de euros?»

«Confesso que ao princípio apenas o estava a fazer por ti, mas à medida que penso no assunto, parece-me cada vez mais, que é um bom uso do dinheiro.»

Ela não poderia vir a Lisboa nos dois fins de semana seguintes e ele estaria fora de Portugal num deles, pelo que a despedida foi mais dolorosa. Na sexta feira ele recebeu no email a versão do protocolo que ela iria assinar. Claúdia pedia que ele confirmasse que concordava com a versão e que estava disposto a entrar com o dinheiro. O protocolo estabelecia que o financiamento privado era o primeiro a ser utilizado e que isso aconteceria numa tranche única. A essa seguir-se-iam quatro tranches de um milhão ao abrigo de um programa europeu de apoio à investigação. Gilberto conhecia bem esses programas pois já tinha estado envolvido em alguns, também em regime de parcerias. Gilberto deu o seu acordo e falou com o gestor de conta para libertar o valor em causa. O dinheiro estaria disponível dentro de quinze dias.

O email com a indicação de que os fundos tinham sido disponibilizados chegou no mesmo dia que o inquérito da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC). Na verdade, o email sobre o inquérito era um recordatório. Tratava-se de um inquérito aos doutorados, cujo preenchimento tem caráter obrigatório. Clicou no link e de imediato lhe apareceu um inquérito todo preenchido. Como ainda não tinha iniciado o preenchimento achou aquilo muito estranho. Ao ler a informação preenchida percebeu que esta dizia respeito à Claúdia. Depois de uma hora de angústia e de se ter sentado e levantado vezes sem conta, foi sobressaltado pelo toque do telefone. Era um dos colegas da faculdade que também não tinha preenchido o inquérito e que ao invés de receber um inquérito em branco, também tinha recebido a informação da Claúdia. Provavelmente era um erro do sistema que estava a divulgar informação de uma das dezenas de milhar de doutorados. Gilberto aproveitou para confirmar algo.

«A informação é a da colega da Biologia Molecular Ambiental de Braga. Certo?»

«Sim.» Respondeu o outro.

A acreditar na informação constante daquele inquérito Claúdia era casada e não estava ligada a nenhum projeto de investigação, sendo que o trabalho na universidade era secundário. Depois de assimilar os impactos da informação a que tinha tido acesso, assumindo que era verdadeira, ligou à Claúdia. A chamada ia de imediato para as mensagens. Apesar das várias tentativas que fez durante o dia o resultado foi sempre o mesmo. Era sexta feira e ao fim do dia ela fez-se à estrada.  No sábado, de manhã, foi até à universidade, tendo sido reconhecido por uma das alunas do doutoramento que era orientada pela Claúdia. Sem dizer exatamente o que pretendia ele conseguiu saber que Claúdia celebrava, nesse dia, o vigésimo aniversário de casamento e tinha ido almoçar ao golfe de Ponte de Lima.

O almoço ainda não tinha começado quando ele chegou. Gilberto estava transtornado e decidiu ir aos lavabos passar água no rosto. Pelos ruídos que vinham de uma das cabines alguém tinha decidido fazer sexo ali mesmo. Gilberto fiou quieto. Embora o que estava ali a acontecer não fosse apropriado, não queria ser desmancha prazeres. Preparava-se para sair dali, quando os ruídos terminaram e o homem disse para ela se vestir. Ele estava no outro extremo da casa de banho e já não tinha tempo para sair antes deles abandonarem a cabine. A porta da zona técnica estava aberta e ele escondeu-se lá. Agachou-se enquanto esperava e a vista ficou ao nível da fechadura. Quando eles abriram a porta da cabine ele ouviu vozes e apurou o ouvido.

«Quando é que vamos deixar de nos encontrar assim às escondidas?» Disse a voz masculina.

«Já falta pouco. Assim que o otário do Gilberto me transferir o dinheiro eu livro-me do meu marido e podemos ficar juntos.»

«Ela vai mesmo dar-te meio milhão de euros?»

«Teremos a certeza disso na segunda feira.»

Apesar do arrepio de medo que a voz dela lhe causou ele não evitou o pensamento «Ela até o amante engana!» Aquela voz era exatamente igual à de Claúdia. Espreitou pela fechadura e viu a figura feminina sair da cabine e desaparecer: era a Claúdia. Ficou ali, imóvel, sem coragem nem ânimo para se mexer. Agora entendia tudo. Sentiu-se um banco a ser roubado e o assaltante era ela. Tinha sido novamente enganado e humilhado por uma mulher e isso deixou-o derrotado. Quando as pernas lhe começaram a doer tomou uma decisão. Não sabia de onde lhe vinha aquela força, mas só havia uma coisa a fazer. Tinha trazido com ele uma USB com uma montagem dos momentos que passaram juntos para lhos esfregar na cara, mas agora tinha encontrado uma utilidade melhor para eles.

Falou com o gerente do restaurante e conseguiu autorização para passar um vídeo surpresa. Cláudia e o marido formavam um par interessante, sobretudo porque ele era quinze anos mais velho que ela.  O organizador anunciou a surpresa e a sala encheu-se de sorrisos: surpreender todos com algo inusitado, era uma coisa típica da Claúdia. Apesar disso, ela não fazia ideia do que se passava e imaginou que, finalmente, o marido tinha decidido surpreendê-la. As imagens fizeram a sala gelar. O vídeo era curto, por isso não demorou para que Gilberto aparecesse sobre o palco e a desmascarasse em meia dúzia de palavras. A conclusão foi irónica e erudita.

«Quando recebi o inquérito percebi que este era um assassino. Primeiro assassinou o amor que sentia por ti, depois o teu esquema e finalmente assassinou o teu casamento. O que eu não sabia é que este se tornaria num serial killer

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