DIZ-ME QUEM ÉS

Sónia não sabia muito bem para onde se virar. Felizmente o Xavier e a Lurdes estavam internados na mesma clínica, assim podia aproveitar a mesma visita para falar com os dois. Passava os dias numa correria entre as aulas, os treinos e a clínica, mas sentia-se feliz com isso. Os seus dois “pacientes”, como gostava de lhes chamar, mostravam progressos significativos, embora tivessem problemas distintos. Lurdes mostrava uma grande dependência e uma carência afetiva que requeriam um tratamento mais prolongado, do que o requerido pela simples eliminação da dependência. Xavier era um caso menos grave, sobretudo porque tinha sido atalhado a tempo. No seu caso tudo tinha começado com um desgosto de amor e o principal obstáculo para uma cura definitiva era ele falar sobre o assunto para fazer as pazes com o passado e encarar o futuro com tranquilidade. Isso parecia longe de acontecer!

Sónia, mal entrou na clínica foi-lhe e solicitado que aguardasse um pouco porque a responsável pelo tratamento do Xavier queria falar com ela. Depois de lhe explicar aquilo que pretendia a Dra. Claudia fez um resumo.

«A causa do problema do Xavier está no passado, mas ele teima em não falar sobre o assunto. Ele tem uma grande admiração por si, por isso sugiro que lhe dê espaço para ele se abrir.»

«Não estou a perceber. O que devo fazer, exatamente?» Perguntou Sónia.

«No próximo sábado alguns dos pacientes vão receber um familiar que pode ficar o dia inteiro com eles. Sugiro que lhe coloque essa possibilidade, de forma casual, como um desejo seu e o deixe decidir.»

«E depois?»

«Estou certa de que ele se abrirá consigo.»

Sónia não disse nada, mas pelo tom e expressão da Dra. percebeu que ela sabia mais do que aquilo que dizia. Sónia assentiu e preparou-se para o encontro. Sentia-se estranha! A ansiedade havia tomado conta dela, como se a sua vida dependesse da anuência dele à sua presença no sábado. Caminhou ao encontro dele aparentando uma calma que não sentia.

«Como está a luz dos meus olhos hoje?» Perguntou Xavier.

Tinha ataviado um sorriso malandro que deixava no ar a dúvida sobre a seriedade das palavras. Era o seu cumprimento usual, sempre que ela chegava.

«Olá Xavier!» Disse ela, com um sorriso divertido.

Gostava que ele se dirigisse a ela naquele tom e usando aquelas palavras. Faziam-na sentir viva! Sentaram-se e falaram sobre muitas coisas. Ele queria sempre saber coisas sobre ela, mas as informações que partilhava sobre ele eram sempre a conta-gotas. Parecia que nunca havia tempo suficiente.

«Sabes o que eu gostava mesmo?» Perguntou ela.

«Diz.»

«Era de passar um dia contigo, enquanto ainda estás na clínica.»

Ele arregalou os olhos de surpresa e ela levantou a mão num gesto apaziguador.

«Esquece. Eu sei que isso é impossível, mas já imaginaste um dia inteirinho para falarmos só de nós?»

«Interpretaste mal o meu olhar. Eu apenas fiquei surpreendido porque a clínica está a proporcionar um dia com um familiar, no próximo sábado, a alguns pacientes. Não sei se sou elegível, mas…»

Ela interrompeu-lhe o raciocínio.

«Isso é fantástico, mas irrelevante para a minha pretensão. Eu não sou teu familiar, por isso eles nunca o iriam permitir, ainda que tu o quisesses.»

«Eu quero. Eu quero mesmo muito e só não vai acontecer se eu não puder!»

Aparentemente ela tinha conseguido aquilo que era pretendido. Naturalmente, que tudo o que ele dissesse ficaria entre eles, mas os terapeutas acreditavam que bastava ele falar sobre o assunto para este ser ultrapassado com sucesso. Ela ainda tinha de ir visitar a Lurdes, por isso despediu-se. Na hora da partida, Xavier segurou-lhe a mão por alguns instantes e olhou-a de forma diferente. Ela sentiu que ruborescia e baixou o olhar.

Na sexta feira ela não podia ir à clínica por isso avisou-os, a ambos, disso mesmo. Apesar de ter sido um dia muito preenchido, o tempo parecia não querer passar. O desafio que tinha pela frente era grande e isso causou-lhe um desassossego que a fazia ansiar pelo encontro de sábado de uma forma que não tinha antecipado.

Estava um dia lindo e o local disponibilizado para as famílias conviverem com os pacientes era abrigado e separado do jardim comum. Existiam cinco pessoas com direito a visita familiar de um dia e os familiares dos outros quatro apenas apareceram durante a manhã, pelo que, durante a tarde, o espaço foi só deles. Durante a manhã Sónia falou o tempo todo. Xavier deliciou-se com a história da vida dela e ao almoço o tom da conversa manteve-se. A tarde começou com um silêncio, que embora fosse estranho, nunca foi constrangedor. Xavier parecia refletir tendo colocando a mão em cima da pasta que tinha ido buscar ao quarto. Parecia que a qualquer momento iria jorrar da sua boca uma torrente, avassaladora, de palavras. Xavier estava ligeiramente dobrado, como quem suporta, sobre ombros, o peso do mundo. Sónia não o pressionou. Nada a tinha preparado para aquilo, nem as orientações que a terapeuta lhe tinha dado, nem a sua própria vivência. Navegava à vista, seguindo apenas a sua intuição!

«Eu nem sempre fui um dependente!»

As palavras foram pronunciadas com um misto de amargura, saudade e raiva. Era obvio que falar sobre o assunto lhe era doloroso. Sónia, poisou a mão sobre a dele e sorriu-lhe, sem pronunciar uma palavra. Xavier tentou retribuir o sorriso, mas o rosto apenas refletiu um esgar de dor.

«No último ano do curso apaixonei-me por uma mulher. Ela era tudo o que um homem pode desejar.»

Após um novo silêncio ele retomou a narrativa, num tom pausado, mas de forma ininterrupta. A mulher por quem se tinha apaixonado frequentava o segundo ano. Tratava-se de uma estudante mediana, mas com grandes ambições. Durante os primeiros quatro anos viveram um idílio amoroso. A felicidade deles era tão grande que não existiam palavras para a descrever. Um ano depois de Xavier terminar o curso, ela mudou-se para o apartamento dele, de forma a passarem juntos o tempo em que ele não estava a trabalhar e ela nas aulas. Os fins de semana, esses eram dedicados à diversão e a viajar. Xavier para além de fazer questão de pagar as farras, não lhe exigia comparticipação nas despesas de casa. O dinheiro para ele não era um problema!

Para além disso, ele tornou-se no explicador particular dela e isso permitiu-lhe celebrar a licenciatura, em Direito, com uma média superior ao que teria acontecido sem a ajuda de Xavier. Ela também era da província, mas de uma família mais modesta que a dele, tendo sido Xavier a abrir-lhe as portas do mundo. Os fins de semana, sempre que podiam prolongá-los, foram aproveitados para viajar por Portugal e as férias usadas para conhecer o resto do mundo. Filipa era uma mulher lindíssima «Uma Deusa!» Usando as palavras de Xavier. Foram quatro anos maravilhosos, embora com alguns espinhos.

«O que queres dizer quando falas de espinhos?» Perguntou Sónia.

«Tive alguns aborrecimentos com amigos que fizeram comentários desagradáveis sobre a Filipa.»

Sónia não disse nada, mas no seu íntimo pensou que o mais provável era os amigos estarem certos, não é sem razão que dizem que o amor é cego. Entretanto Xavier retomou a narrativa.

Quando ela começou o estágio as coisas alteraram-se. Tudo aconteceu de mansinho. As solicitações profissionais dele aumentaram e ela, apesar de também trabalhar, chegava a casa bem mais cedo. No início ficava à espera dele, depois começou a sair com os amigos e até ao fim de semana se tornou difícil estarem juntos. Xavier aceitou as mudanças sem as questionar, amava-a e como tal apenas queria que ela fosse feliz, por isso, não percebeu o real significado do afastamento de Filipa.

A narrativa emudeceu-se e, nesse momento, as lágrimas brotaram-lhe dos olhos como duas torrentes. Parecia que alguém tinha aberto as comportas de uma barragem inesgotável. Sónia abraçou-o sem dizer nada, deixando que as lágrimas lhe encharcassem a blusa. O contacto das lágrimas, com o ombro, perturbavam-na de uma forma estranha. Em vez da tristeza que elas expressavam ela sentia-se ligeiramente excitada. «Como posso pensar em sexo quando o Xavier derrama tanto sofrimento no meu ombro?» Pensou. Condenou automaticamente o sentimento e acariciou a cabeça do Xavier com movimentos lentos. Finalmente ele parou de soluçar e levantou a cabeça lentamente.

«Como deves ter percebido eu fui enganado, mas não posso culpar Filipa pelo facto.»

Sónia fitou-o com um olhar perplexo. Não entendia como ele podia dizer uma coisa dessas. Se ela o tinha traído isso não era desculpável! Ou seria? Xavier percebeu a perplexidade dela e sorriu. Estranhamente não foi um sorriso triste. Falar sobre Filipa tinha-lhe retirado uma carga de cima que lhe permitia olhar o passado de forma diferente.

«Deixa-me ler-te a carta que eu lhe escrevi quando ela partiu.»

Sem esperar uma resposta Xavier pegou na carta e leu-a. A emoção transbordou novamente. Era uma carta que expressava um amor imenso e uma dor profunda.

Sentado nas rochas junto ao Guincho deixo que o vento me despenteie. Sinto os salpicos da água salgada no rosto, como se fossem pequenas alfinetadas. Desejo que o vento me leve para longe, que o mar me afogue as mágoas, mas a dor continua… A solidão é insuportável, mas a vida continua…

O meu pensamento voa em direção ao passado. Sem o desejar, revivo o momento em que te conheci. O tom claro dos teus cabelos ganhava um brilho especial sobe o efeito do sol. Parecia ter sido entrelaçado com fios dourados, colocados aqui e ali, como que ao acaso. Quando te viraste e sorriste o sol escondeu-se envergonhado. Eu fiquei parado e boquiaberto. Nunca te tinha visto antes, mas sentia por ti uma atração indescritível.

Foi amor à primeira vista!

Quando me sentei a teu lado tu sorriste e deixaste que eu ocupasse o único lugar vazio na explanada. Expliquei-te qual era a diferença entre regra e norma e tu convidaste-me para a festa de fim-de-semana na Faculdade de Direito.

 Foi amor ao primeiro encontro!

Tudo em ti era perfeito. O mundo a teu lado era perfeito e a minha felicidade era perfeita. Aprendi a amar como nunca tinha amado, desejando entregar-me a ti mais do que desejar que fosses minha. Tu abriste-me os braços e eu aconcheguei-me. Construi neles o meu ninho. Um ninho de felicidade. O teu corpo macio encontrou-se com o meu, numa conjugação perfeita.

Foi amor ao primeiro contacto!

O meu coração transbordava de amor por ti e a felicidade que sentia deixava-me sem palavras. Ainda assim declarei-te o meu amor, descrevi-te a minha paixão e tu, sem palavras, sorriste. O teu sorriso bastou-me. Mostrei-te a cidade e viajamos pela noite e pelo mundo. Conheceste os meus amigos e eu os teus. Tu gostavas de me exibir e eu deixei que me mostrasse como um trofeu. Quando a situação era desconfortável o teu sorriso resolvi-a e eu sentia-me amado. Tu eras a minha deusa. Estavas no altar da minha vida e eu ajoelhava a teus pés, amando-te admirando-te e até idolatrando-te.

Foi amor em todos os momentos!

Ergo a cabeça, abro os olhos e fixo o mar. «Tenho que varrer-te do meu pensamento!» Mas como posso apagar a chama deste amor que ainda me consome o peito? Amo-te apesar da crueldade da tua traição. Amo-te, apesar de saber que fui vítima do teu plano diabólico para conquistares o piloto de motos. Amo-te simplesmente. Fecho os olhos novamente. Revivo a tarde em que me pediste para comprar um bilhete especial com direito a visita às boxes do autódromo. A forma irónica como ele olhou para mim quando me apresentaste e a forma cruel com lhe disseste «A escolha é tua!» Ele sorriu, puxou-te para ele e beijou-te. Eu tive que me segurar para não cair quando te vi partir abraçada a ele, sem hesitar e sem nem sequer um olhar de despedida.

Foi traição no momento final!

Não te quero, não te desejo, mas não consigo evitar de te amar!

Xavier terminou a leitura e a emoção transformou-se em lágrimas. Eram lágrimas mansas que ele deixou escorrer pelo rosto, de cabeça baixa, durante alguns instantes. Depois levantou a cabeça, limpou as lágrimas e fixou Sónia com um olhar brilhante. A carta parecia ter funcionado como uma catarse.

«Percebo que tenhas escrito a carta, mas não entendo porque a enviaste!»

«Nem eu.» Disse ele com sinceridade.

«Claro que ela não te respondeu!»

Xavier não disse nada e limitou-se a abrir a pasta e retirar outra carta, que estendeu a Sónia. Ela leu-a em voz alta.

Xavier,

Li a tua carta quando a recebi e ri-me de escárnio. Eu tinha conseguido tudo aquilo que queria e naquele momento o teu lamento pareceu-me simplesmente patético. Hoje, volvidos nove meses, releio a tua carta e volto a rir-me de escárnio, mas de mim própria. Leio-a novamente e a única coisa patética que consigo encontrar é o meu comportamento disparatado, infantil e cruel. O ridículo da situação é que hoje quem sente a crueldade na pele sou eu, com a diferença de ter sido eu a causadora da mesma.

Aquele que pensava ser o homem da minha vida demonstrou não ser mais do que um garoto mimado, para quem eu não fui mais do que um guardanapo a que se limpou e que jogou no lixo, depois de usar. Depois disso tive outras relações, nenhuma delas duradoura e em nenhuma delas encontrei um amor como o teu. Hoje tenho consciência que tinhas por mim um amor profundo, verdadeiro e que podia ter durado toda a vida. Não deixa de ser estranho e irónico que ao pensar nisso tenha saudades tuas. Sonho contigo de olhos abertos. Imagino-te a meu lado e quase sinto o teu abraço. Fecho os olhos e vejo os teus cheios de amor, apenas a alguns milímetros de mim. Sinto a tua respiração e instintivamente entreabro os lábios esperando o beijo. Mas tu não estás aqui.

Um homem como tu encontrou seguramente o amor que merece. Uma mulher que lhe deu o que eu não fui capaz e que aceitou aquilo que eu desprezei. Isso dói mais do que alguma vez pude imaginar. Não uma dor frívola de uma mulher que sente que o homem que foi seu pertence a outra. Essa seria uma dor suportável. A dor que eu sinto é muito mais profunda. É uma dor que me seca por dentro. Uma dor que me destrói, me arrasa, prostrando-me perante a vida. É uma dor de quem ama sem qualquer esperança!

Escrevo estas palavras sem a certeza do destino que lhes irei dar. Escrevo porque isso me ajuda a libertar do peso que este amor me faz carregar. Por vezes pergunto-me se não é tudo imaginação minha e se tudo não passa do resultado de uma mistura de solidão e saudade. Mas a verdade é que eu apenas estou só porque não consigo suportar a companhia dos inúmeros homens que querem ardentemente a minha. Eu olho para eles sorrio e digo que não. Nunca mais quero fazer ninguém sentir-se da mesma forma que eu me sinto ou da mesma que te fiz sentir a ti. Estou apaixonada por ti e enquanto assim for não farei nenhum homem pagar com a dor do abandono, apenas para me curar. Se alguma vez tiver coragem para te enviar esta carta espero que a leias e que me respondas. Não espero que ainda me ames, mas gostava de ter a oportunidade de te mostrar o quanto te amo e de que serei capaz de te fazer feliz. Mas mesmo que não queiras isso e apenas queiras que eu vá morrer num canto qualquer, o que é perfeitamente legítimo, não tenhas receio de o dizer. Eu preciso do teu amor, mas se o não puder ter preciso de me curar dele e a tua resposta pode ser o início desse processo.

Muitas vezes chorei de arrependimento por todo o mal que te fiz, até que me cansei de chorar sem nada fazer para mudar o estado das coisas. Esta carta é o primeiro passo na reconstrução da minha vida, mas é sobretudo uma declaração de amor.

Tua para sempre

Filipa

A expressão do rosto de Sónia foi-se alterando à medida que lia a carta e quando terminou estava boquiaberta. Olhou para Xavier e encontrou apenas um sorriso misterioso, mas triste.

«Desculpa, mas não aguento mais o suspense. Tens de me dizer o que se passou a seguir!»

Xavier voltou a abrir a pasta e retirou nova carta lá de dentro estendendo-a a Sónia.

Filipa,

A tua carta apanhou-me desprevenido. Olhei para o envelope atordoado e com raiva. Fazia quase um ano que te procurava esquecer e a carta que tinha nas mãos reavivava memórias muito dolorosas. Era como uma segunda traição. A fogueira do amor, que durante muitos meses me consumiu e que tinha conseguido transformar em apenas brasas, reacendia-se e a labareda toldava-me o espírito. Depois de muitos minutos de contemplação e de experienciar os sentimentos mais diversos, coloquei o envelope na gaveta do criado mudo. Como podia voltar a confiar em ti? Tal como combinado fui ter com uma amiga.

Era suposto ser uma noite especial, mas tudo correu mal. O meu coração sangrava por ti. Essa era uma ferida que só tu tinhas o poder de sarar. A noite terminou cedo e nenhum dos dois ficou feliz com o desfecho, mas gostava demasiado da minha amiga para a enganar. Tinha decidido que não iria ler a tua carta e nem sabia muito bem porque não a tinha destruído. A cama de casal, na qual me aconchegava todas as noites, pareceu-me enorme. Num movimento não pensado, estiquei os braços, como se esperasse encontrar alguém ao meu lado, mas o vazio foi a resposta ao meu apelo mudo! Não consegui dormir. Aquele pequeno envelope, fechado dentro da gaveta, agigantou-se e tomou conta do quarto e de mim. Levantei-me e, sem conseguir controlar mais o impulso, rasguei o envelope e li a carta com sofreguidão.

Entrei em choque. Estendi-me na cama e fiquei a olhar o infinito. Estava perdido. A tua carta era portadora da mensagem com que tinha sonhado desde que tinhas partido. Mas tinha passado muito tempo. Demasiado tempo. A dúvida tinha-se instalado dentro de mim e eu não sabia se confiava em ti o suficiente para me voltar a entregar. «Mas tu ama-la!» gritava o meu coração. Claro que eu te amava, na verdade, nunca tinha deixado de te amar. A dormir ou acordado, tinha sonhado centenas de vezes que tu voltavas para mim. Quantas vezes eu imaginei que regressavas para mim, confessando o teu amor e eu te aceitava de braços abertos, para em seguida viver a frustração da tua ausência da minha vida. Foram tantas as vezes, que deixei de acreditar que isso fosse possível. Apesar disso, tu continuaste a povoar os meus sonhos, pelo menos aqueles que eu não controlava. Nesses, eu continuei a passear na praia contigo, de mãos dadas. Continuei a contar as estrelas, sob um luar prateado, enquanto os nossos corpos, enroscados, se protegiam do fresco da noite. Continuei a dormir abraçado a ti, com os nossos corpos encaixados e até cheguei ao extremo de fazer amor contigo, apenas para acordar encharcado e viver mais uma vez a frustração da solidão e do abandono. Claro que eu te amava. Claro que eu te amo. E como eu te amo!

Apesar disso, não é claro o caminho que devo seguir.  Dentro de mim ardem dois fogos: o do amor, que me consome o coração e o da dúvida que me consome a razão. Amar ou não amar, essa não é a questão. A questão é confiar. É poder entregar-me novamente a ti sem reservas. O cansaço tomou conta de mim e adormeci.

Os dias que se seguiram foram muito difíceis. No entanto, o grau de exigência do trabalho fazia com que o meu pensamento conseguisse resistir aos teus assaltos. Mas as noites foram todas tuas e apenas quando o cansaço me vencia eu conseguia adormecer. A tua carta passou a ser uma companhia inseparável e a sua leitura obrigatória, várias vezes ao dia. Apesar disso, não conseguia tomar uma decisão.

Hoje decidi responder-te. Passaram dois meses desde que recebi a tua carta e muita coisa mudou desde essa altura. Estou convencido da sinceridade das tuas palavras e quero dar-te uma segunda oportunidade. Na verdade, quero dar-nos uma segunda oportunidade. Agora, acredito que posso confiar em ti e que quero entregar-me a ti. Não podemos nem devemos ignorar o passado. Ele existe e faz parte das nossas vidas, mas temos de viver no futuro e para o futuro.  Por isso a minha proposta é: vamos dar uma nova oportunidade ao amor!

Com amor e carinho.

Xavier

Sónia quase não consegui terminar a leitura, tal era a emoção que sentia. Quando terminou as lágrimas escorriam-lhe pela face, de uma forma mansa, mas ininterrupta. Foi a vez de Xavier a abraçar e chorar com ela. Ficaram assim longos minutos, perdendo a noção do tempo. Finalmente, Sónia afastou-o e verbalizou a pergunta que se agigantava dentro dela.

«Um amor destes merecia de ser vivido. O que aconteceu a seguir?»

Xavier não respondeu de imediato. O sorriso apagou-se dos lábios e o rosto perdeu a luz. Era como se uma sombra tivesse descido sobre ele. Sónia olhou-o assutada e segurou-lhe as mãos, acariciando-as. O coração dela adivinhava tragédia, mas nada a tinha preparado para o que ele estava prestes a revelar.

«Combinamos encontrar-nos numa esplanada das docas. Esperei por ela quatro horas, mas ela nunca apareceu.»

«Como é possível?» Perguntou Sónia.

«Ela não podia aparecer. Soube mais tarde que tinha morrido, num acidente de carro, a caminho do encontro.»

Sónia não conseguiu aguentar a emoção e desatou a chorar, agora de forma convulsiva. Xavier, contagiado pela emoção chorou com ela. Choraram durante muito tempo, sem pronunciar qualquer palavra. Quando não tinham mais lágrimas para chorar, limparam o rosto um do outro, com muito carinho e aconteceu o primeiro beijo.

O resto da tarde foi passado num clima totalmente diferente. Xavier confessou que foi a morte do grande amor da sua vida que o levou a entregar-se à bebida e a drogar-se e esse reconhecimento ajudou-o a perceber o erro que tinha cometido. O passado tinha sido definitivamente ultrapassado. Nada o podia apagar, mas este deveria ficar no passado e servir apenas para ele perceber que não podia cometer o mesmo erro no futuro.

Sónia estava exausta. Tinha vivido muitas emoções numa tarde, por isso os quinze minutos que passou com as terapeutas pareceram-lhe uma eternidade. Disse-lhes que Xavier estava em condições de olhar o futuro sem recear o passado. Elas iriam ter a oportunidade de confirmar isso mesmo nos dias que se seguiriam.

À saída cruzou-se com Pedro, que tinha vindo ver a filha. Ele estava entusiasmado com os progressos da Lurdes e falou dela com uma vivacidade, um carinho e um amor, que lhe agradaram. Sónia quis saber em que dias a mãe vinha ver a filha e a resposta deixou-a estupefacta.

«Elisa nunca veio ver a Lurdes. Conheceu alguém recentemente que a deixou virada do avesso. Eu já não reconheço a Elisa de sempre na pessoa em que ela se tornou!»

Ficaram à conversa uns escassos quinze minutos, mas foi o suficiente para ela perceber a tristeza que lhe ia na alma, da qual o olhar era um espelho perfeito. Quando se separaram ela partiu com uma sensação estranha. A coincidência de o ter encontrado logo depois de ter beijado Xavier, fez com se sentisse uma traidora. Ver o Pedro sabia bem, mas fazia-lhe mal! Foi para casa e aproveitou o resto do fim de semana para descansar.

Patricia tinha-se entregue, de corpo e alma, à tarefa de extorquir a amante de tal forma que se tinha isolado do mundo. Elisa alugou um apartamento para ela a que chamava, carinhosamente, “o nosso ninho do amor”. O corte com o passado de Patricia foi de tal forma profundo que até com a namorada tinha deixado de falar. Os quinze dias acordados para o golpe já tinham terminado, mas Patricia continuava sem atender as chamadas dela. A verdade é que tinha alterado o plano original. Pretendia juntar o dinheiro das semanadas e o do carro e, em vez de o partilhar com a namorada, planeava guardá-lo só para si. Embora a sua atuação significasse o fim da relação, isso parecia não a afetar.

Lígia, insatisfeita com o silêncio de Patricia, decidiu colocar os pés ao caminho e tentar descobrir o que se passava com a namorada. Já se tinha arrependido mil vezes de ter concordado com o esquema de Patricia, mas gostava demasiado dela para a perder. O irónico da questão é que parecia ser isso mesmo que estava para acontecer.  Trabalhava numa grande empresa de contabilidade e o tempo livre era pouco, pois o dia prolongava-se pela noite, com muita frequência. Assim, aproveitou o fim de semana para procurar a namorada. A mãe, divorciada, fazia muito tempo que perdera o controlo sobre a filha. A última vez que a tinha visto fora há quinze dias. Ela tinha um saco de viagem ao ombro e, em jeito de despedida, apenas havia dito:

«Vou passar um mês em casa de uma amiga, para poder terminar uns trabalhos da faculdade.»

De vez em quando enviava uma mensagem a dizer que estava bem e era tudo o que ela sabia sobre a filha. Lígia sabia quem era o alvo do golpe por isso, no sábado de manhã, plantou-se frente à casa de Elisa, na expetativa de descobrir algo interessante. Dividia o tempo entre o café e os bancos do jardim da praça, em frente à casa. Apesar de ter passado o dia a vigiar a entrada da casa, nem Elisa, nem Patricia, passaram ali. Às vinte e três horas desistiu e foi para casa, com a promessa, a si própria, de que voltaria. No domingo iniciou o plantão às nove horas. Por volta das dez chegou uma senhora que tinha passado a tarde de sábado no café a fingir que lia um livro, enquanto vigiava o outro lado da praça. Podia ser coincidência, mas, tudo indicava que vigiavam o mesmo prédio. Nessa manhã a cena repetiu-se e Lígia começou a ficar em pulgas. Talvez ela vigiasse a mesma pessoa e se pudessem ajudar uma à outra. Tinha de falar com ela!

O grupo de mulheres aproximou-se de forma barulhenta e depois de se cumprimentarem sentaram-se todas juntas, para o que juntaram duas mesas. Lígia viu os seus planos gorados, mas não desistiu. Aproximou-se de forma casual e foi sentar-se na mesa ao lado. O grupo conversava animadamente, não fazendo segredo do assunto. Foi assim que ela ficou a saber que eram amigas de Elisa e que estavam preocupadas com a ausência dela. Lígia observou-as com cuidado e afinou o ouvido. A mulher que tinha estado ali no sábado denotava uma preocupação diferente das restantes amigas. O seu sexto sentido não costumava enganá-la e naquele caso dizia-lhe que aquela mulher sentia por Elisa o mesmo que ela sentia por Patricia. Estavam as duas a ser traídas! Ao fim da manhã, uma a uma as mulheres foram-se embora até que apenas restou a senhora do dia anterior.

Lígia aproximou-se dela e falou sem rodeios.

«Peço desculpa, mas não pude evitar de ouvir a vossa conversa e penso que procuramos a mesma pessoa.»

«Como assim?»

Lígia explicou quem era e o que estava ali a fazer. Alberta nem queria acreditar naquilo que ouvia. Elisa tinha-lhe falado muito por alto de um novo amor, sem imaginar o quanto isso a magoava. Elas eram muito chegadas, mas Alberta nunca tinha percebido que Elisa também era homossexual. Na sua cabeça tinha imaginado uma paixão tórrida com um homem mais novo, que provavelmente explorava Elisa, como era costume. Não tinha andado muito longe da verdade, mas nunca havia suspeitado que o objeto da paixão fosse uma mulher. Isso, ao mesmo tempo que abria novas perspetivas, afligia-a por não ser ela o objeto de tal amor. Tinha de ajudar aquela jovem a desmascarar Patricia, para criar a sua janela de oportunidade.

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