CARTAS NA PANDEMIA 43

Lisboa 02/03/2021 

Minha boa amiga Carol, espero que esteja tudo bem contigo e com o maridão. Por aqui tudo tranquilo: eu, a família e o cachorro. 

Faz alguns dias que recebi a tua carta, mas entre uma coisa e outra, fui adiando a resposta até entender que tinha que adiar outras coisas e responder. É tudo uma questão de prioridades e este é o momento da resposta à tua carta. 

Vejo que o teu trabalho continua a dar-te atribulações ao nível da gestão dos recursos humanos. Essa é a parte da gestão mais stressante porque mexe sempre muito com a emoção, por mais pragmáticos que sejamos. Neste caso, para além disso mexe ainda com a parte operacional, pois como dizes e muito bem, alguém tem de fazer o trabalho e nesse tipo de situação nem sequer dá para pensar em substituição, pois isso acaba sempre por ser muito mais trabalhoso. Como eu te entendo! 

Eu concordo contigo que as nossas cartas se enquadram na categoria de cartas de amigo, porque na verdade é isso que são. Quanto às cartas de amor eu até escrevo algumas, mas apenas em duas situações: Para a minha esposa, que é o amor da minha vida, ou como exercício literário. De facto, até tenho uma categoria no meu blog sobre cartas de amor, que começou com o desafio de uma editora, para participar numa antologia de cartas de amor. Tomei-lhe o gosto e escrevi mais de quatro dezenas.  

A publicação a que te referes deve ser uma história de amor. Dessas escrevo uma quantas, talvez uma por semana, em média. Nunca experimentei o escárnio e maldizer, mas quando me referi a essa categoria estava a pensar nela em termos literários e não com a roupagem que lhe deste, que aliás me fez soltar uma boa gargalhada. Imaginei logo meia dúzia de velhotas, sentadas em cadeiras na soleira da porta a dizer mal da vizinhança! Ah! Ah! Ah!… (os mais jovens diriam Lol…) 

Em termos literários essa foi uma moda que singrou entre os finais dos séculos XII e XIV, na literatura Galaico-Portuguesa, conhecida como a “Satírica Galaico-Portuguesa”. Na verdade, quando andava na faculdade escrevi alguns poemas, sob o pseudónimo de “O poeta Chiado”, que eram uma sátira, versando sobre a política e o ensino. Infelizmente tinha tudo isso escrito em papel, num dossier que me foi roubado, nos tempos em que vivia na residência universitária. Isso causou-me uma desilusão tão grande que só voltei a escrever por volta de 2008, tendo o dossier desaparecido em 1985, ou seja, vinte e três anos depois. 

O carnaval passou e nem tu fizeste uma viagem ao mundo do samba, nem eu me deixei embalar pelas curvas das pistas ou pelas ondas brancas da neve virgem, enterrado até aos joelhos. O mundo não acabou e nós ainda cá estamos, felizmente com saúde, por isso, aguardemos pelos próximos carnavais e épocas de esqui. Saber esperar o momento certo para desfrutar das coisas é um dos segredos da felicidade. 

Gostei da tua referência a uma viagem ao passado. Por vezes é bom recordar os bons momentos que vivemos, não apenas para experienciar de novo a felicidade que eles nos trouxeram, mas também para percebermos como eles foram, tantas vezes, intercalados por outros menos bons. A relatividade com que olhamos para esses momentos menos bons deve ser a mesma com que devemos olhar para os momentos maus atuías: são momentos da nossa vida e como tal passageiros. 

Tenho de confessar que vivo a vida com intensidade e que me levanto possuído dessa intensidade, infelizmente, cada vez mais contida porque a idade não perdoa. Gosto de olhar para a vida e para as coisas ou para os acontecimentos de forma poética e positiva. As pessoas quando não me conhecem acham que não existe sinceridade em determinados comentários, mas não é o caso. Eu gosto de dizer as coisas, de as transmitir, da mesma forma que os meus olhos as vêm. Quanto a incluir isso nas cartas o princípio é o mesmo. Escrever sobre nós, nestas cartas de amigo, também e relatar o que estamos a viver no momento. Também é falar sobre aquilo que vemos e experimentamos quando estamos a escrever. São essas imagens que passo para ti, tal como os meus olhos as vêm: com beleza e a poesia que vejo nelas. 

Hoje são dezassete e quarenta e cinco e sol já vai baixo e incide de viés nas fachadas dos prédios viradas a poente. O reflexo é intenso e as cores originais assumem um brilho extraordinário. Torna-se impossível olhá-las diretamente pois o reflexo do sol nas vidraças encandeia-nos a vista. O contraste com as fachadas viradas a nascente é flagrante, pois estas estão baças como se não tivessem vida. De permeio ficam as fachadas viradas a Norte e a Sul, onde a incidência do sol é lateral e o brilho muito menos intenso, como se estivessem apenas iluminadas pela luz de uma lanterna. O campo trocou os jogadores profissionais pelos pais e crianças que aproveitam o fim de dia solarengo para esticar as pernas. A janela do lado direito apresenta-me uma perspetiva do mundo completamente diferente: a fachada cinzenta do prédio vizinho, onde o verde de algumas floreiras lhe empresta o pouco de vida que evidencia. 

Entendo, a dificuldade quando temos que conviver com pessoas com uma forma de ser diferente. Eu encaro isso sempre como um complemento em vez de um oposto. Existem coisas que podemos mudar nos outros e coisas que pudemos mudar em nós, em relação às restantes a aceitação é um princípio fundamental para gerar a boa conivência e o florescimento do amor ou da amizade, consoante a relação que esteja em causa. Aliás o nosso verdadeiro crescimento, como pessoas, começa quando somos capazes de reconhecer o direito à diferença e aceitar não apenas que estas existem, mas que podemos viver com elas. 

Concordo contigo quando dizes que a África é apresentada, na maioria das vezes, na sua versão mais romântica. Apesar disso existem caraterísticas africanas que são muito reais: a cor e a alegria. Estas estão sempre presentes, ou pelo menos estavam quando lá vivi e acredito que continue a ser assim. 

Por aqui a pandemia está em regressão e a crise de produção das vacinas parece ultrapassada, pelo que, efetivamente, já podemos falar de uma luz ao fundo do túnel. Dito isto, Portugal só deve desconfinar depois da páscoa para evitar que se tenha de enfrentar uma nova vaga. Espero que o Brasil, apesar de os políticos remarem em sentidos opostos uns dos outros, consiga também ultrapassar a pandemia com a vacinação em massa. 

Despeço-me com um abraço amigo, atá à volta do correio. 

Manuel 

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