AMIZADE

9. AMIZADE

Sónia entrou no Uber com ar resoluto, mas mal se sentou as lágrimas brotaram em catadupa. Não conseguia perceber o que se passava com ela! Xavier era jovem, bonito e inteligente e tinha um feitio que combinava com ela na perfeição. Na verdade, tinha tudo para ser o homem perfeito. Para além disso, estava apaixonado por ela. No entanto, tudo isso parecia ser irrelevante. Porquê? A pergunta martelava-lhe a cabeça, ameaçando transformar-se numa enxaqueca. Deixou que as lágrimas escorressem, com discrição, mas, pelos olhares que o motorista lhe lançava, era óbvio que este tinha percebido.

Pensou em Pedro. Ele tinha-a enganado e traído, mas, apesar disso, ela não conseguia esquecê-lo. Depois do que se tinha passado essa noite tornou-se claro que ela ainda o amava. Isso, ao invés de aparecer como uma solução, apresentava-se como um problema. Ela podia amá-lo, mas enquanto não conseguisse perdoar o que ele lhe tinha feito, esse amor estava condenado. Sofria, não porque o seu amor não fosse correspondido, mas porque não conseguia viver o amor que o seu coração teimava em guardar tão ciosamente. «Será que isto não é uma forma de masoquismo?» Interrogou-se. Internamente praguejou contra Pedro. Amava-o e detestava-o ao mesmo tempo. Amava a pessoa que ele era, mas detestava o que ele lhe tinha feito. Essa contradição fazia-a sofrer porque a impedia de seguir qualquer uma das alternativas possíveis: ficar ao lado dele ou esquecê-lo definitivamente.

Recordou-se das palavras do inspetor da judiciária e visualizou Pedro deitado na cama do hospital. Isso causou-lhe uma dor aguda, intensa, tão profunda que a deixava com tonturas. Era como se alguém lhe espetasse um punhal que a penetrava profundamente, chegando mesmo ao coração. Apertou o peito para ver se a dor passava, mas foi em vão. «Será que Pedro precisa de mim?» Pensou. Ele ia estar sozinho em casa, pois a filha estava na clínica e a mulher em lugar incerto. A possibilidade de que o amigo da judiciária pudesse ficar com ele confortou-a, mas não lhe deu a paz de espírito de que necessitava.

A mãe quando a viu entrar, porta adentro, tão cedo, apesar de apenas lhe ter visto o rosto, de relance, percebeu logo que algo estava errado. Ficou de imediato com o coração apertado e saltou do sofá como se tivesse molas no corpo. Abraçou a filha, sem dizer nada e lançou um olhar na direção de Hugo que percebeu a mensagem: iam as duas para o quarto. Júlia deixou que a filha chorasse, abraçada a ela, durante muito tempo, sem pronunciar uma palavra. Quando, finalmente, esta se acalmou cobriu-a de beijos e disse:

«Queres contar-me o que se passou?»

Falar sobre o assunto deixou-a mais tranquila, mas não resolveu o impasse em que se encontrava.  Júlia entendia o drama da filha, pois voltar a confiar em alguém que nos traiu não é uma tarefa fácil, em nenhuma circunstância. Quando isso acontece a meio de uma relação, apesar de tudo, é mais fácil, mas tomar a iniciativa de se entregar a alguém que nos traiu e nos abandonou em seguida, não é tarefa para qualquer coração, ainda que haja muito amor. Depois de escutar a narrativa Júlia ficou em silêncio. O assunto era delicado e não era fácil, para ela, opinar sobre o mesmo.

«Estás perante um verdadeiro dilema, onde se cruzam dois sentimentos, que deveriam andar de mão dada em vez de se contradizerem: amor e confiança. Apesar disso, não te esqueças que um deve ser gerador do outro.»

«Como assim?» Perguntou Sónia, mostrando um interesse súbito!

«É o amor que cria o ambiente propício para gerar confiança, embora esta, depois, seja confirmada ou colocada em causa, pelo comportamento de cada um.»

«Pois, o problema é que o comportamento do Pedro já colocou em causa a confiança que tinha nele…»

«É verdade minha filha, mas também é verdade que essa confiança pode ser restabelecida se o teu amor for suficientemente grande para perdoar e o dele suficientemente grande para não te voltar a trair.»

Sónia ficou em silêncio. A mãe era uma sábia. Por vezes interrogava-se de onde vinha toda aquela sabedoria e sobretudo se alguma vez ela teria a capacidade de aconselhar assim os filhos, se e quando, porventura, os tivesse.

«Estás a dizer que apesar de dizer que amo o Pedro, não o amo o suficiente para lhe perdoar.»

«Sim. Naturalmente que é uma forma simplista de colocar a questão…»

«Será que ele me ama o suficiente para não me voltar a trair?»

«Bom isso é uma coisa que tens de lhe perguntar, mas não te esqueças que, independentemente do que ele te diga, metade da resposta está dentro de ti.»

«Como assim?»

«Se tu não acreditares nele de nada valera tudo o que ele te possa dizer.»

«Por outras palavras: tenho que lidar primeiro com os meus fantasmas!»

A mãe acenou com a cabeça, sem necessidade de pronunciar qualquer palavra. Sónia tinha dado o primeiro passo. Tratava-se de um passo bem pequeno, mas era na direção certa. Para ter condições de cobrar algo ao Pedro ela tinha de encontrar respostas dentro de si. Para isso, a primeira coisa a fazer era clarificar a sua relação com o Xavier. Tomou o resto do fim de semana para ela própria, pois precisava de ter a certeza de todos os passos que iria dar. Enviou uma mensagem simples, mas simpática ao Xavier e combinaram falar na segunda feira ao jantar.

Patricia começava a ficar impaciente. Elisa, após ter disponibilizado, na conta à ordem, os trinta mil euros, para a aquisição da viatura, insistiu em ir com ela escolher o carro. Para se manter mais calma ela estava a injetar-se mais vezes do que era costume. Dizia para si mesma que era uma situação temporária, que resolveria depois de dar o golpe à Elisa, embora soubesse que, normalmente, isso não era assim tão simples. Decidiu pressionar um pouco a amante para tentar acelerar o processo.

«É uma pena não poderes transferir o dinheiro, porque como os nossos horários não são compatíveis eu podia comprar o carro e fazer-te uma surpresa.»

«As transferências entre contas de pessoas não relacionadas e de montante tão elevado geram alertas que eu dispenso, dada a minha função. Tu escolhes o carro e eu pago-o, ficando em teu nome. Dito isto, também é verdade que eu gostava de escolher o carro contigo.»

O argumento era válido e ela não tinha como o contrariar, até porque o resultado final era exatamente o que estava combinado: oferecer um carro à Patricia. No entanto, isso frustrava as suas intenções de ficar com o dinheiro e desaparecer. Claro que Elisa não podia suspeitar de nada. Tinha passado os últimos dias a adiar a visita aos stands, alegando muito trabalho na faculdade, mas a situação começava a tornar-se inadiável. Como era uma mulher previdente, procurava estar a par das movimentações do Pedro e da Lurdes e das pessoas que com eles se relacionavam. Foi assim que soube que Xavier sairia da clínica no dia seguinte e a Lurdes sairia uma semana depois. Isso significava que que o tempo urgia. Decidiu sair e ir até à explanada do costume, para descontrair e pensar nos próximos passos.

Entretanto, Lígia e as amigas de Elisa trabalhavam na sombra para tentar desmascarar Patricia. Alberta e Lígia seguiram os movimentos de Elisa e conseguiram descobrir o ninho de amor, sobre o qual ela mantinha completo sigilo. Para surpresa delas era no apartamento onde as duas se encontravam que Patricia vivia. A constância das visitas da Patricia, ao café, proporcionou-lhes a oportunidade que tanto desejavam. Lígia imaginou o guião, mas não podia participar na patranha. Assim, tiveram de arranjar uma jovem que assumisse o papel de amante de uma mulher com idade próxima da de Elisa.  Coube à filha de umas das amigas de Elisa, fazer o papel de jovem repudiadora. Era uma atriz amadora, mas de uma excelente qualidade.

Quando se encontrava a uma distância relativamente curta da esplanada reparou nas duas mulheres, que pareciam discutir sobre qualquer assunto. A mais nova soltou o braço que a outra segurava, ao mesmo tempo que dizia suficientemente alto para Patricia ouvir.

«Larga-me!»

Era isso que lhe apetecia fazer a maior parte das vezes que Elisa a segurava. Essa constatação fez com que sorrisse. Decidiu sentar-se na mesa ao lado para melhor escutar o que ali se passava. Entretanto, a mulher mais velha falava em voz baixa e ela apenas a conseguiu ouvir quando se sentou.

«… Por favor fica. Eu dou-te tudo o que quiseres!»

A afirmação despertou ainda mais o interesse de Patricia. «É de uma cota assim que eu preciso. Deixava-a na penúria num instante!» Pensou.

«Não vale a pena tentares. Já te disse que entre nós acabou tudo.» Disse a mais nova.

«Tens consciência que posso fazer de ti uma mulher rica em troco da tua companhia. Tu não precisas de me amar apenas precisas de me fazer companhia…»

A outra interrompeu-a

«Eu sei. Queres uma dama de companhia que te dê sexo de vez em quando. Podes guardar o teu dinheiro que eu não estou à venda. Se é sexo que queres procura uma prostituta.»

«Nunca te chamei prostituta!»

«Nem precisas! O teu dinheiro fala por ti.»

«Se ficares comigo eu deposito cem mil euros na tua conta e duplico a mensalidade que te dava.»

«Esquece eu não estou à venda. Prefiro ser pobre e estar ao lado da pessoa que amo, do que ficar contigo, sentindo que estou a vender-me.»

«Por favor não me deixes!» Disse a mais velha, em tom suplicante.

«Aquilo que tu queres não se compra. Arranja uma mulher que seja apenas dama de companhia, que terás sempre alguém ao teu lado e  ainda te sai mais barato.»

A jovem levantou-se e partiu sem olhar para trás. A mulher mais velha colocou o rosto entre as mãos e ficou assim, escondendo as lágrimas. Até que estas secaram.

Patricia escutou toda a conversa e a sua mente interesseira desenhou de imediato um plano. Depois da jovem partir aguardou um pouco para dar tempo à outra de se recompor e levantou-se, fingindo preocupação.

«A senhora está bem? Precisa de ajuda.»

A mulher mais velha levantou a cabeça e fitou-a com um olhar triste, mas esperançoso.

«Ninguém me pode ajudar. Estou condenada a ficar sozinha.»

«Posso sentar-me?»

A mulher acenou afirmativamente e voltou a colocar o rosto entre as mãos.

«Se quiser partilhar comigo o seu problema, talvez eu a possa ajudar.»

A mulher olhou para Patricia com um olhar de dúvida, mas isso não a impediu de relatar o que lhe ia na alma.

«Você é muito simpática, mas não iria compreender o que eu preciso. Talvez ficasse até chocada.»

«Apesar de ser jovem existem poucas coisas capazes de me chocar. Não tenho família e a mulher com quem vivia, trocou-me por outra sem aviso prévio. Estou a viver num apartamento de uma amiga, mas tenho que deixar a casa amanhã. Já vi tantas coisas…»

«Disse que vivia com uma mulher…» Disse a outra, com súbito interesse.

«Sim. Nisso somos parecidas.» Disse Patricia, segurando a mão da mais velha.

«Você ouviu a minha conversa com a outra jovem?»

Patricia ainda pensou em negar, mas não tinha tempo a perder. Era o tudo ou nada.

«Sim.»

«Então já sabe o que está em jogo.»

«Não posso prometer-lhe amor, porque acabamos de nos conhecer, mas por um teto e companhia eu aceito o dinheiro.»

«Eu sou muito exigente. Se aceitares viver comigo não podes relacionar-te com mais ninguém. Para além disso, o sexo é nos meus termos e quantas vezes eu quiser. Mesmo assim estás de acordo?»

«Deixa-me responder-te com atos e não apenas com palavras.»

Patricia levantou-se, foi até junto da mulher mais velha e beijou-a com paixão. Alberta, pois tinha sido ela a ficar com o papel, correspondeu o melhor que pôde. Não havia dúvidas que a jovem sabia beijar!

«Então vamos buscar as tuas coisas e vamos para minha casa.» Disse Alberta.

Patricia sentiu-se colocada entre a espada e a parede. Se fosse com a Alberta e esta não lhe desse o dinheiro, perdia tudo, pois Elisa não a aceitaria de volta. Hesitou durante alguns instantes.

«Eu deixo tudo, que na verdade é nada e vou contigo, sem hesitar, mas quero cinquenta mil euros, agora.»

«Como deves imaginar não tenho esse dinheiro comigo. Tenho aqui cinco mil euros.»

O valor era muito inferior aos trinta que tinha acordado com Elisa e isso fê-la pensar. Vendo a sua hesitação, Alberta acrescentou.

«Posso passar-te um cheque de cinquenta mil euros, mas será pré-datado e só o podes levantar na terça feira, porque eu tenho de colocar esse dinheiro à ordem.»

Estava decidido. Na terça feira desapareceria com cinquenta e cinco mil euros no bolso. Ou, melhor ainda, podia ficar mais uns dias com a velha e ver quanto mais lhe podia extorquir. Ia dar-lhe um tratamento, em termos de sexo, que ela não lhe negaria nada. Isso implicava desligar-se da Elisa, mas na verdade já estava farta dela.

Foram buscar as coisas de Patricia e Alberta instalou-a em sua casa. Tratava-se do último andar de um prédio, no parque das nações, frente ao rio, que ocupava a totalidade do piso. Só o terraço tinha cento e vinte metros quadrados. Patricia foi instalada numa suite e depois Alberta mostrou-lhe a casa toda. Eram trezentos metros quadrados de grande luxo. Para além dos quartos, existia uma sala de jogos, uma biblioteca, um escritório, um ginásio, uma sala de cinema e uma sala de jantar.

«Com isto tudo só precisamos de sair de casa para passear.» Disse Alberta.

«Eu gosto de correr na rua.» Disse Patricia, com medo de ter de ficar fechada.

«Não estás proibida de sair à rua, mas para correr tens a passadeira do ginásio. Em todo o caso, por uma questão de delicadeza tens que deixar sempre a indicação de que vais sair e onde vais. Eu farei o mesmo, sempre que não sairmos juntas.»

«De acordo.» Disse Patricia.

Aquela velha ainda era pior do que Elisa! Parecia que estava numa prisão e isso fez nascer a revolta dento dela. No entanto, a lembrança do cheque que tinha no bolso fê-la acalmar. Só tinha de aguentar até terça feira.

«Eu também gosto de fazer as minhas compras.» Disse Patricia.

«Quem faz as compras cá em casa é a Marília. Escreve num papel o que necessitas e ela trás, seja de que supermercado for. O teu papel é estar comigo e à minha disposição.» Disse Alberta, de forma suave, mas firme.

Depois de conhecerem a casa Alberta deixou-a sozinha, informando-a de que o jantar seria servido às vinte e trinta. Ao chegar à mesa reparou que Alberta tinha mudado de roupa e estava vestida a rigor. Isso deixou-a intrigada.

«Devo vestir-me a rigor para jantar?»

«Eu gosto de tornar o jantar uma refeição especial, mas não és obrigada a vestir-te a rigor. Desde que não apareças à mesa de pijama está tudo bem.»

Aquilo começava a mexer com os nervos dela. Parecia quase uma cena tirada de um programa de apanhados. Ela nunca tinha imaginado que existissem pessoas assim. Não admirava que ninguém quisesse ficar com o raio da velha. Naquela noite não dormiram juntas e Patricia percebeu que até o sexo aconteceria com hora marcada e apenas quando a velha quisesse. Se não fosse o facto de Alberta poder cancelar o cheque ela ia-se embora já!

Na sexta, ao fim do dia, Alberta recebeu um telefonema que a deixou agitada e informou Patricia que tinha de se ausentar e só voltaria na segunda feira. Ela iria tratar de negócios e os parceiros ainda não estavam preparados para a conhecer, por isso Patricia ficaria em casa. No entanto, não tinha autorização para sair durante a sua ausência. Ficar fechada em casa seria uma contrariedade, mas pelo menos não tinha de aturar a velha. O que valia é que tinha doses suficientes para sobreviver até quarta feira.

Noutro local da cidade, Elisa estava prestes a apanhar o maior choque da sua vida. Quando chegou ao apartamento e Patricia não estava em casa ligou-lhe. As chamadas foram sucessivamente recusadas e ela começou a entrar em pânico. Foi até ao quarto e abriu todos os armários, apenas para constatar que não era só Patricia que tinha desaparecido, as suas coisas também. Não podia ser…! Tinha que existir uma explicação! Tentou em vão ligar para a Patricia, mas sem sucesso.

Na sexta, ao fim do dia, o telefone começou a tocar insistentemente: era Elisa. Patricia decidiu não atender, pois já sabia aquilo que ia ouvir e não tinha paciência para lamechices. Ao fim de algum tempo começou a receber mensagens e isso irritou-a de tal forma que começou a praguejar em voz alta e a dizer mal de Elisa. Depois de algum tempo os telefonemas e mensagens passaram apenas a diverti-la.

«Elisa, Elisa… Tu és tão burra que mesmo depois de eu desaparecer não percebeste que o meu interesse era apenas pelo teu dinheiro. Felizmente encontrei outra velha mais burra que tu e com muito mais dinheiro!»

Iria sair daquela situação bem de vida. Deitou-se na cama rindo a bandeiras despregadas. Depois falou para a sua imagem no espelho.

«Patricia, desta vez acertaste no cheio. Este vai ser o teu golpe mestre! Aguenta uma semana ou quinze dias e levas contigo cem mil euros.»

Depois ria como uma louca e dançava em frente ao espelho. Foi um fim de semana diferente. Passou a maior parte do tempo no quarto, a ver televisão, na net ou a injetar-se. Na segunda de manhã acordou sobressaltada com o ruido de várias vozes exaltadas. Levantou-se e foi ver o que se passava, ainda de pijama. Na sala estava uma mulher que ela nunca tinha visto e um homem, que devia ser o guarda costas dela, e empunhava uma arma.

«Quem é você?» Perguntou o homem.

«Eu sou a nova companheira de Alberta. Quem são vocês?»

O homem olhou para a mulher com uma expressão interrogadora e esta encolheu os ombros.

«Não fazemos ideia quem é essa Alberta: Como entrou aqui?»

Patricia estava completamente baralhada. Afinal de quem era aquela casa. Fez menção de ir chamar a empregada, mas foi impedida pelo homem e a mulher falou pela primeira vez.

«A menina está ilegalmente em minha casa. Não sei como entrou aqui, mas vou dizer-lhe o seguinte: Eu vou passar revista à casa e se faltar alguma coisa entrego-a à polícia. Caso esteja tudo bem, vou pensar o que faço consigo. José amarra-lhe as mãos e os pés.»

O rosto de Patricia refletia o pavor que havia tomado conta dela. Não entendia nada do que se estava a passar, mas não estava a gostar do rumo que as coisas estavam a tomar. O tom com que a mulher havia falado tinha-lhe provocado um arrepio gelado na espinha e a sensação de frio ainda não a tinha abandonado.

«Faltam cinco mil euros, em dinheiro, que estavam aqui nesta gaveta.» Disse a mulher do outro lado da sala.

A coincidência dos montantes causou-lhe a maior estranheza. Nessa altura Patricia percebeu que tinha perdido aquela aposta, mas começou a pensar que exista algo mais. Será que alguém tinha feito aquilo para a tramar? Talvez fosse apenas uma coincidência e a coisa não fosse tão rebuscada. Mentalmente, começou a trabalhar um plano para sair dali e retomar a relação com a Elisa. Entretanto, o homem foi direto à carteira dela e encontrou o dinheiro.

«Cinco mil euro em notas de quanto?» Perguntou ele.

«Em notas de cem.»

«Confere. Ela tinha o dinheiro na bolsa. O que quer fazer com ela patroa?»

«Não falta mais nada em casa, por isso manda-a embora.»

Patricia, depois de se vestir e arrumar as suas coisas, foi colocada na rua. Tinha perdido o dinheiro e causado um dano na relação com Elisa que não sabia se era recuperável. Tinha de lhe telefonar, mas primeiro precisava de arranjar uma boa desculpa.

Meia hora depois de Patricia ter sido colocada na rua, Elisa recebia um correio especial, com uma Pen USB e uma mensagem simples.

“Queres saber onde andou a tua amante desde quinta feira?

Uma amiga”

Elisa foi invadida por um misto de sentimentos que não sabia descrever. Pegou na Pen, mas as mãos tremiam de tal forma que teve dificuldade em a inserir no computador. Lá dentro estavam dois ficheiros. Um com a duração de uma hora e um outro com a duração de noventa horas de. Ela saiu a correr, disse à secretária para cancelar todas as reuniões do dia e foi para casa. Tinha acabado de ver o vídeo mais curto quando o telefone tocou: era a Patricia. Foi a vez de ela não atender. Estava completamente destroçada, mas não lhe iria dar o gosto de saber isso. Pegou no telefone, e enviou-lhe uma mensagem acompanhada de um vídeo com o resumo que tinha acabado de ver.

“Esquece-me”

Patricia quando viu o vídeo percebeu o alcance de tudo o que se tinha passado. Tinha sido alvo de um golpe de mestre. Eles tinham ido ao ponto de disfarçar o rosto dos outros intervenientes no vídeo. Apenas ela aprecia de forma clara, bem como tudo o que ela disse, mesmo quando pensava que estava sozinha.

Patricia ligou à Lígia e combinou encontrar-se com ela. Precisava de um ombro amigo. Lígia escutou-a e no fim disse-lhe.

«Se precisares de um ombro amigo eu estarei aqui, mas a relação entre nós acabou. Eu não consigo acompanhar os teus esquemas.»

Patricia voltou para casa da mãe, mas, pela primeira vez na vida, sentia-se completamente perdida. Tinha o dinheiro que tinha poupado, das semanadas dadas por Elisa, mas na prática tinha voltado à estaca zero. Lígia essa tinha iniciado uma relação com a jovem que tinha participado na cena que serviu de isco para atrair Patricia e as duas pareciam entender-se muito bem, mas isso caberia ao futuro decidir. As amigas de Alberta, no início, tinham questionado o plano, sobretudo porque este implicava a possibilidade da entrega, por Alberta, de cinco mil euros, que podiam muito bem não ser recuperados. Algumas delas chegaram mesmo suspeitar que isso podia ser um esquema da Lígia.  No fim de tudo, elas perceberam a razão da Lígia e ficaram-lhe todas agradecidas.

«Quero que fiques com este dinheiro.» Disse Alberta, estendendo os cinco mil euros.

«Não posso aceitar esse dinheiro. Isso faria de mim uma pessoa igual a Patricia.»

«Não. A Patricia tentou extorquir-me dinheiro. Tu ganhaste-o com o teu trabalho e honestidade.»

Lígia olhou em volta e viu o olhar de agradecimento de todas. A sua nova amiga, beijou-a na face e disse.

«Aceita. Tu mereceste bem esse dinheiro.»

Elisa recostou-se para trás e fechou os olhos. Tinha passado o pior fim de semana da sua vida, mas não era mulher para dar o braço a torcer. Por isso mesmo, não tinha atendido os telefonemas da filha, nem do amigo do Pedro. Ainda esteve para ligar ao Pedro, mas a última coisa que queria era que este percebesse o estado em que ela estava. A casa estava silenciosa e isso contagiou-a. Sentiu-se tão só e tão pequenina que se encolheu na cadeira como se pretendesse regressar ao útero da mãe. Finalmente desabou. Chorou tudo o que não tinha chorado nos últimos anos e por todas as perdas que tinha relativizado e até ignorado, escondendo-as bem lá no fundo do seu âmago. A perda de Pedro e a da filha, a da namorada e até o afastamento das amigas. Quando as lágrimas secaram ela tomou várias resoluções. Primeiro foi buscar todas as suas coisas ao ninho do amor e livrou-se do apartamento. Depois preparou-se para receber o Pedro com um jantar cozinhado por ela. Ia redefinir as suas prioridades e isso passava por colocar a família no lugar de onde ela nunca deveria ter saído.

Sónia chegou ao restaurante um pouco antes da hora de jantar e sentou-se no bar à espera de Xavier. O empregado serviu-lhe um Porto e ela bebericou-o, apreciando a bebida. O bar, sobranceiro ao restaurante, colocava-a na mira dos comensais. Eram vários os olhares masculinos que se cruzavam com o seu, sempre que lançava a vista sobre a sala. Eram olhares de caçadores tentando identificar a sua presa. Ela ignorava-os e voltava a concentrar-se na bebida. A chegada de Xavier colocou um fim no suspense: tinha fechado a época de caça!

Ela cumprimentou-o com um beijo na face e isso estabeleceu, de imediato, os limites da relação. Xavier tinha aproveitado o fim de semana para pensar muito a sério na sua relação com a Sónia e já estava à espera de algo do género. Em todo o caso, tinha decidido que lhe deixaria a iniciativa a ela. No princípio, falaram apenas de banalidades e ao perceber a dificuldade dela em avançar, Xavier decidiu abrir a porta ao tema.

«Como está o Pedro. Já recuperou do acidente?»

«Ele está bem.»

«Como sabes? Falaste com ele?»

«Não. Falei com a Lurdes. O amigo dele levou-o para casa na sexta feira e, depois de um fim de semana de repouso, hoje já foi trabalhar hoje.»

«Pela tua reação na sexta feira, diria que tens interesse em saber mais.»

Sónia ficou a olhar par a ele em silêncio. Havia reações que ela não conseguia explicar e sentimentos que tinha dúvidas se devia partilhar com ele.

«Talvez tenhas razão. No entanto, preciso de colocar em ordem as minhas ideias e os meus sentimentos. Comecemos por nós.»

Seguiu-se uma pausa que Xavier não interrompeu.

«Eu sinto que confundi a amizade e ternura que tenho por ti com outro sentimento. Deixei que as minhas próprias carências se manifestassem dando-te sinais errados. Desculpa. Tu precisavas de alguém que te apoiasse e não que te baralhasse.»

«Aceito o pedido de desculpas, embora me pareça que não é devido. A confusão de sentimentos não foi apenas tua, mas de ambos. Tu estavas carente e eu frágil. Foi aquilo que se chama uma mistura explosiva.»

«Como disse, preciso de por em ordem os meus sentimentos, no entanto, a amizade que tenho por ti não está e causa e quero que saibas que podes contar comigo para o que for necessário. Esteja ou não numa relação com outro homem.»

«Façamos então um pacto de amizade. Eu não esquecerei nunca aquilo que fizeste por mim. Talvez nunca o possa pagar, mas se algum dia precisares, seja do que for, podes contar comigo.» Concluiu Xavier.

O jantar acabou por terminar mais tarde do que tinham planeado e Xavier fez questão de a levar a casa. Quando se deitou Sónia fez uma retrospetiva dos acontecimentos do dia e teve a certeza que tinha tomado a decisão certa em relação ao Xavier. Ele era, definitivamente, apenas um amigo.

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