AMOR INTRUSIVO

Amor intrusivo

Escrevo esta carta apenas como um desabafo. Escrevo-a para mim, pois não me atrevo a deixar que a luz do dia banhe estas letras e mostre ao mundo um sentimento tão puro, mas condenado à partida. Fecho-o a sete chaves, mas ele empurra-me e impele-me para demonstrações de carinho que contenho e abafo para que o mundo não veja como ele me fragiliza e expõe, deixando a nu que poderias ser a dono da minha vida. Perdão: que és dono da minha vida!

Tudo começou de mansinho. Nós eramos apenas amigos que gradualmente foram buscando o apoio um do outro e quando me apercebi, já não podia viver sem ti. Tu tinhas arrebatado o meu coração e por mais que tentasse resgatá-lo ele teimava em grudar-se em ti. Em embrenhar-se no teu ser e em procurar o aconchego do teu abraço. Sonhava com isso e alimentava-se desse sonho.

Essa dor, essa amargura, esse agridoce que é o amor, embalava-me, transportava-me para as nuvens e, lá de cima, eu via o mundo. Não o mundo tal como ele é, mas um mundo tal como eu gostaria que ele fosse. Nesse mundo tudo girava à volta do nosso amor. Um amor tão grande, tão intenso e tão profundo que até os pássaros celebravam a sua grandeza, cantando-lhe hinos de louvor. Sonhava de olhos abertos um sonho tão sentido que se confundia com a realidade.

Nesse mundo, criado pelo meu imaginário, nós éramos um só. As nossas mentes viviam em comunhão e os nossos espíritos fundiam-se para que experimentássemos, em uníssono, a alegria de viver cada momento. Quando o desejo nos assediava, nós não oferecíamos resistência e, nesses momentos, quem se fundia eram os nossos corpos. Desnudávamo-nos sem pressas e com o toque carinhoso das nossas mãos, acariciávamos cada poro do corpo do parceiro, como se o quiséssemos memorizar. Não apenas uma memória visual, mas uma memória tátil. O parceiro correspondia ao toque com um estremecimento, mensagem muda, invocando o prazer divino experienciado. Oh doce prazer que tão amargo ficas ao acordar! Quando a nuvem se desfazia e o sonho beatífico era substituído pela realidade o pesadelo recomeçava. Nesses momentos, gritava angustiado até que, incapaz de suportar a dor da tua ausência, me refugiava novamente no sonho, entregando-me ao prazer da tua companhia. Subitamente, passeávamos na praia de mãos dadas. O sol tombava sobre o horizonte, aproximando-se do ocaso e pintando os céus de cores amarela, laranja e vermelha. Sobre o mar desenhava uma linha caprichosa, como se quisesse separar a noite do dia ou o bem do mal. Na verdade, apenas se debruçava sobre a varanda de um hemisfério, enquanto se preparava para emergir no outro. A magia do momento fazia-nos entrelaçar os dedos e caminhar lentamente pela areia dura, deixando que as ondas mais atrevidas nos banhassem os pés e os refrescassem, enquanto os nossos corpos absorviam, como uma bênção, o calor manso dos últimos raios solares do dia. Sobre o areal imenso estendiam-se muitas toalhas, cada uma com o seu dono, mas o mundo era só nosso. Depois, sentados na areia, víamos o sol esconder-se e a noite cair de mansinho, acendendo as estrelas, uma a uma, para que a lua pudesse subir nos céus sem se despenhar. Mas, mais uma vez, tudo era um sonho e o despertar um pesadelo ainda maior que o anterior.

A revolta tomava novamente conta de mim. Um amor assim deveria ser vivido em plenitude, mas as amarras das obrigações assumidas e um sentimento, também ele puro, de um misto de amor, amizade e obrigação, prendem-me e impedem-me de dar o último passo. Quero, mas não tenho forças, almejo, mas foge-me a capacidade de decisão, desejo, mas fujo da consumação. Vivo num limbo. Um mundo ente dois mundos. Uma realidade entre dois amores!

Quem me dera poder gozar as noites de verão deitada a teu lado no alpendre da nossa casa baloiçando-me na rede e transpirando de calor, enquanto o céu se enchia de milhares de pontinhos luminosos, a que chamamos estrelas e a lua abria caminho por entre a escuridão, afastando as sombras para os recantos mais escuros e  lançando a luz pelos campos abertos, com o seu brilho prateado. Nesses momentos, a minha boca calaria as tuas palavras, não para te impedir de falar, mas para te aquecer com o calor do meu beijo e as nossas línguas envolver-se-iam numa dança ao som de retumbantes trompetas, enquanto os nossos corpos se colavam um ao outro, evidenciando o desejo que sentiam e satisfazendo-o com urgência. Seguimos o trilho do amor até ao lago da felicidade, onde nos banhamos deixando-nos flutuar, até que a realidade nos puxava para o fundo, tentando afogar-nos. Oh a felicidade! O que é a felicidade?

Da nossa relação apenas nascem os rebentos dos laços que nos ligam, mas temos filhos de relações anteriores. Também estas nos trouxeram tantas coisas boas, mas não prevaleceram cedendo à pressão e ao desgaste do tempo. Contigo imagino uma nova vida, um caminho novo. Algo diferente, onde a aprendizagem do passado nos ensinará a não cometer os mesmos erros do passado e eu sei que cometi muitos… A vida só se vive uma vez, por isso cada dia é uma nova experiência e o passado apenas pode ser utilizado para permitir viver melhor o futuro.

Amo-te. Não é um amor único, mas é o mais forte, aquele que faz o sangue latejar nas minhas veias e o desejo revoltear o corpo num movimento ciclónico. Este amor é ao mesmo tempo, calmo e tempestuoso. Trás com ele a sabedoria dos anos que passaram, mas invoca a incerteza dos que ainda estão para vir. É um amor e como tal volúvel e imprevisível. Causa tanta felicidade quanta dor, dependendo da forma como o olho: um amor possível ou apenas um amor platónico.

Quero dar-te tanto, mas ironicamente apenas preciso de ouvir da tua boca a palavra mágica: amo-te. Sim, quero dar-te tudo. Quero entregar-me de corpo e alma e desfalecer nos teus braços, entre suspiros de felicidade e ais de dor, pois isso é o amor!

Não lerás esta carta a não ser que o destino seja cruel e me pregue a partida de ta fazer chegar, mas para mim foi muito importante escrever estas palavras que de outra forma ficariam por dizer, como forma de aliviar o sentimento que me consome.

As palavras derramadas nesta folha branca, foram acompanhadas pelas lágrimas que deslizaram pelo meu rosto, mas se evaporaram, muito antes de se juntarem a qualquer rio ou fonte. As palavras são perenes e as lágrimas são efémeras, mas o sentimento que as une é uno. Ambas foram derramadas em nome do amor.

Tua para sempre.

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