CARTAS NA PANDEMIA 45

Lisboa 12/04/2021

Boa tarde Carol!

Estamos no início da tarde e eu aproveito para estender um pouco a hora do almoço e escrever-te meia dúzia de palavras. Espero que estas te encontrem bem, na companhia do maridão, mas sobretudo ainda tem encontrem imbuída do espírito de férias com que conseguiste impregnar a tua carta.

Foi bom ter notícias tuas e saber que usaste as férias para aquilo que elas devem servir: descansar, fazer apenas o que te deu prazer e viajar.  Nada como umas férias com estes três ingredientes para recarregar as baterias. Ao ouvir-te falar de férias, numa cidade litorânea, apesar de saber que vives em Itabira, BH, imaginei-te no Guarujá, SP. Dizem que nós temos tendência a ver ou a imaginar aquilo que conhecemos e talvez seja verdade, mas também é verdade que conheço muitos outros lugares do litoral Brasileiro e alguns deles bem mais perto de BH do que o Guarujá. A verdade é que foi aí que te imaginei. Só estive lá uma vez, mas foi lá que o meu filho mais velho largou a chupeta e que entrou pela primeira vez, pelo seu pé, água dentro. Guardo muitos boas memórias dos tempos que lá passei. Era outubro e estava tão pouca gente que parecia uma praia exclusiva.

A diversidade das tuas atividades de férias mostra que as usufruíste com calma e prazer. Achei curioso “o caderno de colorir”. Em Portugal o caderno de colorir é coisa de criança, por isso no Brasil deve significar algo diferente, ou tu gostas de regressar à infância e voltar o colorir os desenhos? A verdade é que não te imaginei a colorir desenhos infantis, mas a desenhar numa folha de papel cavalinho e a dar vida, colorindo, os teus desenhos. Tu medirás se és uma artista ou se é a minha visão de ti que é artística.

A questão das regras é bem interessante e apesar de elas existirem para tornar a vida em sociedade possível, muitas vezes limitam-nos e cansam-nos, tornando, a vida muito monótona. Quebrá-las é um direito e uma opção que nos pode dar grande satisfação, desde que o façamos de forma deliberada e consciente. Naturalmente, que o respeito destas ou pelo menos de parte destas, quando estamos de férias, é mais dispensável tonando-se até, em muitos casos, meio ridículo. É curioso que nos tempos que vivemos, o crescimento do trabalho à distancia, começa a tornar evidente que, uma parte dessas regras se destinava a lidar apenas com questões aparentes, ou seja, se tratavam de regras supérfluas. Voltamos àquela questão da “obrigatoriedade social” de uma mulher ou homem cuidar da sua aparência, sob pena de ser negativamente julgado. Penso que, nesse campo, algumas coisas irão mudar. Por exemplo a obrigatoriedade de usar fato (no Brasil diz-se terno) e gravata, no caso dos homens.

Outra coisa que achei bem interessante é a tua predisposição para manter o “espirito de férias”, mesmo depois do regresso ao trabalho. Acho isso muito saudável, embora difícil de manter, por isso, fico curioso em saber durante quanto tempo o vais conseguir: faço votos para que seja para sempre! Nessa parte da tua carta não consegui deixar de sorrir abertamente ao imaginar, literalmente, as pessoas, à tua volta, aos gritos e a arrancarem os cabelos, porque tu não saltas e corres, satisfazendo as suas necessidades, com a urgência que elas lhe atribuem. Convenhamos que na maior parte das vezes essa urgência nada tem de real.

Por aqui as coisas continuam animadas. Temos um ex-primeiro ministro que se viu livre de uma série de acusações, porque prescreveram (a justiça tem o seu timing!) e que apesar de continuar indiciado de alguns crime já se apregoa inocente aos quatro ventos (foi o que fez no jornal a Folha de São Paulo, omitindo parte da sentença). Temos o processo de vacinação que continua atribulado, com as mudanças de direção das entidades oficiais, sobre uma das vacinas e finalmente tivemos o início do desconfinamento.

Desde meados de janeiro que não podíamos sair do concelho de residência, ao fim de semana, o que significou ficar em Lisboa três meses seguidos. No fim de semana passado, fomos, a primeira vez este ano, à casa de fim de semana. Foi um momento de descompressão apreciado com o mesmo sentimento de quem goza de liberdade ao fim de algum tempo em reclusão. Percorrer o terreno sentindo a chuva na cabeça, ver as árvores exibindo o cair da flor e o nascimento dos frutos ou simplesmente sentar-me no alpendre e olhar o verde da paisagem, que se estendia a meus pés, com o mar lá ao fundo e Lisboa na outra margem, foi muito gratificante. As temperaturas máximas estiveram na ordem dos vinte graus, por isso o tempo estava ameno e, não fora o vento húmido que soprava do mar, poderia andar-se de t-shirt. O King viveu uma experiência inesquecível. Faz um mês que ele foi, pela primeira, vez à rua, mas até agora sempre com trela. Quando o largamos dentro da propriedade ele nem queria acreditar, correu e saltou tanto, sobretudo no domingo, que tem estado na cama desde ontem às dez horas da noite. Perder-se no meio da erva alta e ter de deixar-se guiar pelo som da nossa voz para nos encontrar ou ficar preso num recanto com silvas, do qual o tínhamos que ajudar a sair, foi uma experiência que abanou o seu mundo. Isso tornou-se visível pelo esforço que passou a fazer para não sair do nosso lado. Desde ontem, ao fim do dia, que apenas quer paz e sossego. Quem o visse hoje nem diria que é um Beagle!

Eu aproveitei o sábado para pulverizar as zonas de gravilha com herbicida para evitar que as ervas tomem conta de tudo. Tratar de um terreno exige mil cuidados e isso também faz parte do fim de semana, sobretudo quando é feito por prazer, que é o caso. Bem sei que os meus ombros e as minhas costas não concordam muito comigo, mas a sensação de ver a propriedade cuidada é tão agradável que nem se sente o sacrifício.

Hoje o dia amanheceu lindíssimo, com o céu de um azul intenso, logo enfeitado por um nascer do sol primaveril. Pude apreciar isso ainda faltavam uns quinze minutos para as sete, enquanto fazia os exercícios matinais. No entanto rapidamente foi coberto por um manto cinzento que ofuscou o sol e escureceu o dia. A manhã tem sido testemunha desta luta entre as nuvens e o sol, sendo que a vantagem tem pertencido às primeiras, apesar o sol nos ter brindado com alguns breves momentos do seu esplendor. Isso tem feito com que tenhamos grandes períodos de uma luminosidade intensa, ainda que sem o tão desejado brilho do astro rei.

É tudo por hoje. Despeço-me com um beijo para ti e um abraço para o maridão, esperando notícias na volta do correio.

Manuel

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