SOU GAY

Pedro tinha hesitado se deveria ir trabalhar ou não. Tinha sido um milagre que não tivesse partido nenhum osso, considerando o estado em que o carro ficou. No entanto, sentia dores no corpo todo e a ferida na perna direita carecia de atenção. Aproveitou o fim de semana para descansar, embora não se tenha coibido de visitar a filha. Ela contou-lhe que tinha sabido do acidente pela Sónia e ele não ficou muito feliz com o facto.

«Não sei qual é o teu problema. Olha que ela ficou bem preocupada!»

«Ficou tão preocupada que foi a correr ver-me ao hospital, como fazia todos os dias com esse tal Xavier!»

«Pai não sejas assim!»

Entristecia-a ver o pai assim, por isso optou por não lhe dizer que Sónia estava envolvida com o Xavier. Era inevitável que ele viesse a saber, mas era melhor quer isso acontecesse num momento em que ele estivesse menos frágil.

A mera recordação da conversa com a filha deixou-o de mau humor. O Uber parou à porta de casa e ele regressou à dura realidade. Elisa não devia estar em casa e ele não tinha paciência para fazer o jantar. O melhor era encomendar qualquer coisa. Mal meteu a chave na porta, esta abriu-se sozinha, assustando-o. Elisa abriu-lhe a porta de casa com um sorriso, embora o rosto expressasse espanto e preocupação.

«Olá Pedro. Imagino que estejas com fome. O jantar está pronto, por isso podemos ir para a mesa.»

Pedro estava de tal forma admirado que demorou algum tempo a pronunciar a primeira palavra.

«Olá Elisa. Não te imaginava em casa. Fizeste jantar?»

«Pois nem eu tinha planeado tal coisa, mas parece que ultimamente tenho só andado a fazer coisas erradas e como quero corrigir isso…»

Pedro limitou-se a fitá-la sondando as intenções que estavam por detrás daquelas palavras. Olhou o rosto dela com mais atenção e percebeu que ela estava cansada e com olheiras profundas, como se tivesse estado a chorar o dia todo. Pensou em perguntar-lhe o que se passava, mas não o fez. Ela andava muito sensível em relação a tudo o que dizia espeito à sua privacidade e isso tinha construído uma barreira entre eles. Deus alguns passos, em direção à sala, para poisar a pasta e Elisa percebeu de imediato que ele estava a coxear.

«O que se passa com a tua perna?»

«Se tivesses atendido a tua filha saberias o que se tinha passado!»

Pedro arrependeu-se de imediato do tom ríspido que tinha utilizado. Ela não tinha obrigação nenhuma de levar com os problemas dele.

«Desculpa. Não devia ter dito isso!»

«Tens razão eu deveria ter atendido a Lurdes. Essa é uma das coisas erradas que tenho andado a fazer e que vai ter de mudar. Queres contar-me o que se passou?»

Pedro narrou o acidente com todos os detalhes e isso fez com que ela tomasse, mais uma vez, consciência do quanto tinha negligenciado a família. Podia estar separada de Pedro, mas tinham uma filha em comum, por isso ele seria sempre família.

«Desculpa. Eu devia ter estado ao teu lado. Prometo que as coisas vão mudar. Tenho andado distraída com coisas secundárias, mas acho que aprendi a lição.»

«De facto, tu pareces diferente. Queres contar-me o que se passou?»

À medida que a narrativa evoluía Pedro ia ficando cada vez mais abismado. A descoberta da homossexualidade da mulher e as suas aventuras representavam uma mudança drástica e inesperada. De facto, eles viviam juntos, embora apenas como amigos, mas era como se vivessem separados por centenas de quilómetros. A conversa continuou durante o jantar e prolongou-se depois deste. Em muitos aspetos era como se tivessem acabado de se conhecer. Ela ficou a saber da paixão não correspondida de Pedro e ele das desventuras dela. Falaram muito sobre a filha e ficou acordado que no dia seguinte a visitariam, os dois, em conjunto.

As terapeutas ficaram entusiasmadas com o facto de Lurdes receber a visita da mãe. O facto de ser conjunta com a do pai ainda era melhor. Eles pareciam entender-se muito bem, embora estivessem separados. Esse ambiente de tranquilidade e cooperação era o ideal para consolidar a recuperação da Lurdes. Tudo se encaminhava para que o regresso a casa desta paciente fosse um sucesso. Foi isso mesmo que disseram à Sónia quando ela veio ver a amiga à tarde.

«Já sei que os teus pais voltaram e ficar juntos.»

«Juntos como?» Perguntou Lurdes.

«As terapeutas disseram que eles vieram os dois ver-te, em conjunto e que o ambiente entre eles era muito bom. Isso só pode significar que se reconciliaram.»

Lurdes soltou uma gargalhada sonora. Ria com satisfação ao ver a expressão de ciúme da cara da amiga, que olhava para ela sem perceber o motivo da galhofa.

«Os meus pais estão mais separados que nunca. A minha mãe tem andado um pouco perdida e agora parece ter-se encontrado, mas entre eles apenas existe amizade. Aliás estão a preparar as coisas para oficializarem o divórcio e passarem a viver separados.»

As palavras da amiga funcionaram como um bálsamo para o coração dela, mas decidiu não deixar a amiga perceber isso.

«Imagino que estejas feliz com o facto de teres a família unida outra vez.»

«Sim. Eu já aceitei que eles estão separados e que isso não tem retorno, mas isso não deve impedi-los de serem amigos e de serem meus pais de facto. Sim. Estou muito feliz.»

Sónia estava feliz pela amiga. Para além disso quanto maior fosse o suporte dos pais, no pós regresso a casa, menor tinha que ser o seu envolvimento. À sua volta tudo parecia encaminhar-se no sentido da harmonia, apenas ela continuava sem encontrar o caminho de felicidade. Olhou novamente a amiga e teve a sensação que algo ensombrava a dita felicidade, tinha que estar atenta, para não deixar que essa sombra, fosse ela o que fosse, se colocasse no caminho da recuperação da amiga.

A semana passou rapidamente e o dia da saída da clínica chegou finalmente. Lurdes fez questão que a Sónia estivesse presente o que acabou por criar uma situação constrangedora, quando esta deu de caras com o Pedro e a Elisa. Quando fez as aposentações, Pedro foi educado, mas impessoal. Ao contrário dele Elisa foi esfusiante.

«Muito prazer! Eu sei o quanto a Lurdes lhe deve e quero que saiba que será sempre benvinda a minha casa, sozinha ou acompanhada. Aliás eu própria gostaria muito de conversar com a Sónia e a Lurdes um destes dias. Preciso de saber mais coisas da vida da minha filha, pois tenho andado demasiado distraída e ausente!»

Lurdes interveio de imediato, evitando que Sónia tivesse de dar uma resposta política.

«Eu sei mãe. Depois combinamos isso.»

Pedro olhou para Elisa com admiração. Esta tinha voltado a ser a mulher sensata, humana e disponível para os outros que fora em tempos. Essa nova Elisa agradava-lhe.

Quando se preparavam para entrar no carro a sua atenção foi desviada para outro carro que parou à frente deles, depois de duas ou três buzinadelas. Era uma das amigas de Elisa. Já não se viam fazia muito tempo e combinaram encontrar-se no dia seguinte de manhã, que era sábado, para um jogging.

Sónia tinha falado todos os dias com Xavier e tinha jantado em casa dele na quarta feira. Por estranho que pareça isso não lhe custava nada e depois de definido o caráter da relação, eles entendiam-se muito bem. Ela estava condenada a fazer bons amigos entre o sexo oposto, da mesma forma que condenava as relações amorosas com este. Davam-se de tal forma bem que, depois de deixar Lurdes em casa com os pais, Sónia foi ter com ele e depois de jantar iriam aventurar-se pela noite de Lisboa.

Estava uma noite espetacular e a escolha do restaurante recaiu sobre uma das esplanadas das docas. Xavier e Sónia conversavam animadamente, brincando um com o outro, inconscientes de que eram observados atentamente. A troca de carinhos, apesar de ser normal entre dois amigos, podia ser interpretada de forma distinta por algum mirone.

Pedro tinha decidido aceitar o convite de uns amigos para ir tomar um copo e por ironia do destino foi parar a um bar das docas. Estava entre amigos que conheciam bem a sua história com Elisa e que tinham ouvido falar da Sónia, embora nenhum deles a conhecesse. Pedro era muito bem-humorado e não tardou muito estava a fazer todo o grupo rir a bandeiras despegadas, fazendo com que o grupo desse nas vistas. Alguns dos comensais do restaurante do lado viravam o rosto sorrindo ao ouvir o grupo tão animado. Isso acabava por incentivá-los pois sentiam que estavam a atuar para uma plateia de espetadores.

Quando ela se virou Pedro ficou petrificado. Ele já tinha reparado no casal pois a silhueta da mulher lembrava-lhe Sónia, mas como ela estava de costas não a tinha identificado. Era ela. Os amigos perceberam de imediato que se passava algo pois ele remeteu-se ao silêncio e nem às piadas dos outros reagia. Sem dar grandes satisfações ele acabou por arranjar uma desculpa e ir para casa mais cedo. Sentado ao volante conduzia como um autómato. Nessa noite tinha ficado tudo claro. Sónia tinha escolhido Xavier e ele era definitivamente uma carta fora do baralho. Secretamente, tinha mantido uma réstia de esperança, confirmada pelo facto da filha lhe dizer que Sónia gostava dele. Agora sabia que, apesar de isso poder ser verdade, ela tinha decidido continuar com a vida, excluindo-o desta. Não podia condená-la, portanto apenas lhe desejava que fosse feliz. Isso não queria dizer que fosse fácil aceitar que a perdera e que não houvesse dor e desespero. Existia tudo isso e muito mais, mas o tempo de lutar por aquele amor tinha passado. Agora apenas lhe restava arranjar forma de o esquecer.

Incapaz de conter a emoção deixou as lágrimas escorrer-lhe pelo rosto. Dizem que não existe amor como o primeiro e a dor de o perder é única. Talvez isso seja verdade, mas a dor que ele sentia era incomparavelmente superior à que sentiu quando o seu primeiro amor terminou. A dor da perda do amor da sua vida era agravada pelo facto de ser consciente de que fora ele que tomara as decisões que o levaram à situação em que se encontrava. Quando chegou a casa não teve coragem de entrar logo e ficou no carro, sentado e chorando a sua mágoa. Não era fácil encontrar o amor na sua idade, mas um amor como o que tinha perdido seria impossível de voltar a encontrar.

Sónia e Xavier foram dançar a seguir ao jantar, decididos a divertirem-se o resto da noite, inconscientes de que esta lhes reservava encontros inesperados. A pista de dança de uma das discotecas da 24 de julho estava apinhada e os encontrões entre os dançarinos eram normais. Sónia sentiu que pisou os calcanhares a alguém e virou-se para trás para pedir desculpa, dando de caras com o seu treinador, a esposa e três colegas de equipa. Ela já tinha ouvido comentários que estes se conheciam, mas como não dava muito importância a mexericos, ignorou-os. A reação do grupo foi imediata: queriam conhecer o “namorado” da Sónia. Buscaram um local mais sossegado para poderem falar um pouco e esta fez as apresentações, esclarecendo que o Xavier era apenas um amigo.

«Com um amigo desses quem precisa de namorado!» Disse a mais bonita do grupo.

Teresa era uma jovem tímida, por isso todos olharam para ela ao ouvir o comentário. Sónia soltou uma gargalhada. Era a primeira vez que via a colega de equipa fazer um gracejo tão oportuno e carregado de segundas intenções. Num segundo olhar percebeu que o comentário dela era capaz de também refletir algum interesse no Xavier. Talvez isso fosse algo a cultivar. O resto da noite não permitiu qualquer aproximação entre Xavier e Teresa. Esta isolava-se aparentando não ter qualquer interesse nele. Apesar disso, Sónia conseguiu que eles trocassem os números de telefone. Outra qualquer iniciativa ficaria ao critério de cada um deles.

Sábado amanheceu meio acinzentado. Uma camada fina de nuvens escondia o azul do céu, criando uma espécie de capacete. Isso refletia-se na temperatura. Estava um dia quente e abafado, pois não corria ponta de ar. Era um daqueles dias em que as pessoas pareciam ter dificuldades em respirar. Elisa tomou o pequeno almoço em família, situação que se verificava com frequência, desde que Lurdes tinha saído da clínica e depois partiu ao encontro da amiga. Regressaria para o almoço. Seria um almoço especial, pois era Lurdes quem iria cozinhar.

À sua espera estavam a quase totalidade do grupo de amigas. Era um grupo bastante solidário do qual ela se tinha afastado nos últimos tempos. Elisa ficou radiante com o facto. Assim podia aproveitar para falar com todas elas.

«Vamos correr. A conversa fica para depois.» Disse Joana, que era a líder desportiva.

Elisa estava em baixo de forma e ficou ligeiramente para trás, mas, tal como era tradição do grupo, ninguém esperou por ela e encontraram-se todas na meta. Estavam à beira rio e no fim foram todas para uma das muitas esplanadas que aí existem. Tinham corrido durante aproximadamente uma hora e, apesar do cansaço, transpiravam boa disposição. Elisa estava emocionada. Agora percebia o erro que tinha cometido. Já tinha entendido a falta que lhe fazia a família, agora percebia como os amigos também eram importantes. Entre aquele grupo de mulheres existia uma cumpliciada que ultrapassava as diferenças sociais e financeiras que as separavam e eram muitas. Elisa interrompeu os comentários e piadas do costume com um pedido.

«Preciso da vossa atenção durante cinco minutos.»

O grupo ficou em silêncio e suspenso das palavras dela.

«Em primeiro lugar lamento que a Alberta não esteja aqui. Sem ela este grupo não me parece completo.»

As restantes assentiram com a cabeça em silêncio.

«Eu tenho regido a minha vida de acordo com prioridades que vieram a demonstrar não ser as mais adequadas. Apostei sempre primeiro na carreira, depois no prazer pessoal, deixando os amigos e a família em último lugar.»

Elisa fez uma pausa como se esperasse algum comentário ou mesmo uma critica das amigas, mas no rosto delas apenas existia espectativa e compreensão.

«Estava convencida que eram essas a prioridades que me trariam a felicidade, mas a vida demonstrou-me o contrário. Isso apenas me levou a perder a família e a afastar-me dos amigos, ou seja: acabei só e abandonada.»

«Mas tu sempre tiveste muito sucesso no amor.» Disse uma das amigas que estava casada há vinte e sete anos.

«Aí é que tu te enganas. Tu é que tiveste sucesso no amor. Eu entreguei-me sempre à pessoa errada, porque esta foi escolhida sempre de acordo com os critérios ditados pelas minhas prioridades. O Pedro é um excelente homem, mas entreguei-me a ele pelo seu aspeto físico, pela inteligência, mas sobretudo porque o podia dominar. O João era muito um homem de sucesso e estar ao lado dele engrandecia-me, mas sobretudo fazia-me sentir que era mais jovem. Quanto ao meu último amor…»

Elisa baixou a cabeça tentando conter a emoção. Ela tinha amado verdadeiramente a Patricia. Na verdade, ainda não a tinha esquecido. As amigas respeitaram o silêncio e aguardaram que ela retomasse a narrativa.

«Nem sei como vos contar isto…»

Paula, a amiga que tinha falado anteriormente disse:

«Nós sabemos.»

Elisa levantou a cabeça, mostrando os olhos marejados e reagiu com surpresa

«Como? Sabem o que?»

Paula descreveu tudo o que elas tinham feito para expor Patricia.

«A maioria de nós não acreditava que a tua amante fosse aquilo que a ex namorada dela, a Lígia, dizia que ela era, mas concordamos todas que a prova era adequada, pois ela teria a oportunidade de demonstrar aquilo que era verdadeiramente. Infelizmente ela demonstrou ser um monstro.»

«Isso quer dizer que vocês sabem que eu sou homossexual?»

«Sim sabemos.» Responderam em coro.

«E se pensas que vamos deixar de ser tuas amigas por causa disso, estás completamente enganada. Nós somos tuas amigas, independentemente das tuas escolhas.»

Elisa estava tão emocionada que não conseguiu conter as lágrimas. Tinha tido tanto medo da reação delas que era como se um peso enorme tivesse saído de cima dela. De súbito lembrou-se que a Alberta não estava ali. Será que era exatamente por ela ser homossexual que a amiga se encontrava ausente?

«E a Alberta?» Disse a medo.

O grupo de amigas sorriu de forma divertida.

«A Alberta foi a pessoa que mais lutou para te libertar. Foi ela que descobriu a ex-namorada da Patricia e que imaginou, juntamente com ela, a forma de colocar a tua amante à prova. Ela só não está aqui hoje porque foi ontem para o Algarve e só regressa na segunda feira.»

Ficaram todas em silêncio durante alguns minutos. Não se tratava de um silencio constrangedor, mas de um silêncio reparador. Era importante acalmar as emoções!

«A tua família já sabe?» Perguntou Paula.

«O Pedro sim, mas a Lurdes não. Nem sei como dizer-lhe.»

«É simples. Falas com a tua filha e contas a história do teu último amor.»

Nada era simples e contar à filha que era homossexual, sobretudo depois daquilo que ela tinha passado não era assim tão simples. Talvez devesse insistir no tal encontro com ela e com a amiga Sónia. Esse podia ser o momento adequado para revelar o seu segredo. Entretanto, a conversa mudou de rumo e o tempo passou tão depressa que quando se aperceberam já eram doze horas. Cada uma tinha os seus afazeres, mas a hora limite para a duração do encontro tinha chegado para todas.

Sónia sentia-se inquieta. Tinha dentro de si uma sensação de vazio que não conseguia explicar. Apesar de se ter deitado já de madrugada, às dez horas já estava de pé. A mãe tinha deixado o pequeno almoço orientado e um recado dizendo que tinha ido às compras. À tarde, ela e o Hugo tinham planeado dar uma volta pelas praias da Costa de Caparica e gostavam que ela os acompanhasse. Normalmente, isso deixava-a entusiasmada, mas nesse sábado ela ficou quase indiferente. Sentada à mesa do pequeno almoço, olhou para a sua vida e percebeu que lhe faltava algo. Era algo muito mais profundo que a mera ausência da necessidade de apoiar a Lurdes ou o Xavier, até porque continuava a fazê-lo, embora de forma mais espaçada. Recorreu aos conhecimentos de psicologia para rever a solidez dos pilares em que a vida devia sustentar-se. Profissionalmente, estava tudo bem, quer com a escola, quer com a equipa de voleibol. Estava em vias de entrar no mercado de trabalho, mas isso não a assustava, até porque já tinha três opções de estágio, todas elas bem interessantes. Socialmente, as coisas não podiam estar melhor. Tinha um bom grupo de amigos e uma relação bem saudável com estes, dedicando-se a cada um de acordo com as suas necessidades. Em termos afetivos, aparentemente, nada lhe faltava. Tinha uma relação fantástica com a mãe, que na verdade era a sua melhor amiga e apesar de não ter qualquer relação com o pai, não sentia que isso fizesse grande diferença. No entanto, era na afetividade que residia o problema. Quando ainda não se encontrou o amor, a falta que se sente deste é ténue e pode ser, parcialmente, compensada pelo amor dos pais e pela companhia dos amigos, mas quando se conhece o amor e esse não é correspondido, o pilar da afetividade ressente-se. O problema de Sónia era ligeiramente diferente, pois o amor dela era correspondido, ou, pelo menos, ela pensava que o era. O problema era ela não conseguir deixar-se amar pela pessoa que amava. Cada vez mais pensava nele com um carinho que lhe aquecia o corpo e acendia a fogueira do desejo e isso aumentava o desequilíbrio.

Levantou-se e deu algumas voltas pela sala. Tinha que ir arranjar-se pois a mãe não tardaria em chegar e ela devia estar pronta para saírem. Deixou que a água do chuveiro lhe caísse sobre os ombros, escorrendo-lhe pelo corpo. Era uma sensação sempre agradável. Meteu a cabeça debaixo do chuveiro. A águia estava quase fria e a sensação refrescante foi muito agradável, mas o pensamento recusava-se a parar. «Será que eu o consigo perdoar?» Pensou. Fazia a si própria esta pergunta várias vezes e no princípio a resposta era sempre não, mas as coisas tinham mudado e a resposta positiva era cada vez mais frequente. Olhou-se ao espelho. «Sim. Eu perdoo-te. Eu quero-te. Eu desejo-te.» Respondeu olhando-se nos olhos. Depois o desejo tomou conta dela e dez minutos depois estava de regresso ao chuveiro. Era a primeira vez que isso lhe acontecia desde que o Pedro a tinha deixado.

Quando se secava pela segunda vez Sónia sentiu que a tensão tinha desaparecido e dado lugar a uma ternura que a fazia sentir bem. Olhou-se novamente nos olhos e tomou uma resolução. «Tenho de falar com o Pedro.» O ruído da porta da rua a bater trouxe-a à realidade.

«Olá! Chegamos!»

Enquanto a mãe e o Hugo arrumavam as compras ela acabou de se arranjar e saíram todos a caminho da Costa. As nuvens tinham desaparecido e o sol brilhava em todo o seu esplendor, sob um céu azul que conferia uma luminosidade especial ao mar. O almoço seria no restaurante da paria do Pescador. Tratava-se de um restaurante simples, mas onde o peixe era sempre de elevada qualidade. Isso na verdade era comum a uma boa parte dos restaurantes de paria, na zona da Costa e Caparica, mas Júlia tinha uma preferência especial por aquele. O peixe estava divinal e o vinho branco bem fresco, mas o efeito das duas garrafas que beberam fez-se sentir rapidamente. Comeram uma sobremesa e deixaram-se ficar até a hora de maior calor passar e o efeito homeostase tratar fazer desaparecer os vapores alcoólicos, até que puseram fim à refeição com um segundo café.

O passeio pela praia era algo que Sónia desfrutava sempre com maior prazer. A sensação de caminhar descalça, sentindo a areia húmida e fria debaixo dos pés, que eram ocasionalmente banhados por uma onda mais atrevida, era refrescante e rejuvenescedora. Tinha-se levantado uma aragem suave, que vinha do mar, e lhes afagava os corpos nus, apenas enfeitados com um bikini e que atenuava o calor que se fazia sentir, apesar de já serem quase dezasseis horas. A mãe e o Hugo caminhavam apressados e ela reclamou, pois gostava de saborear o passeio.

«Temos cinco praias para visitar, por isso temos que nos apressar.» Disse a mãe.

«Até ao fim do dia temos tempo de percorrer bem mais do que cinco praias, ainda que caminhemos mais devagar.» Respondeu Sónia.

Hugo interveio para explicar a situação.

«A tua mãe queria que fosse uma surpresa, mas mesmo as surpresas têm de deixar de o ser em algum momento…»

«Não estou a perceber!» Disse Sónia interrompendo-o.

«Nós queremos casar na praia e já temos propostas de cinco restaurantes. Hoje temos de os visitar para ver as condições de cada um e fazermos a nossa opção.»

«Isso muda tudo. Então vamos lá apressar o passo.» Disse Sónia tomando a dianteira.

Foi um passeio pela praia diferente, tal como diferente foi a forma como Sónia passou a olhar para cada um daqueles restaurantes. Depois de concluída a visita a escolha foi unânime. Sónia começou logo a imaginar uma série de pormenores. Ela queria que o casamento da mãe fosse inesquecível!

Voltaram ao restaurante que tinham eleito e Sónia insistiu em ver o pôr do sol, pois era fundamenta para definir o tipo de decorações a utilizar. O dono do restaurante veio sentar-se com eles, no fim da refeição, para fecharem o contrato e, como brinde, ofereceu-lhes o jantar. Foi um gesto simpático que os deixou muito sensibilizados. Já estavam de partida, quando Sónia sentiu o telefone vibrar na bolsa. Era a Lurdes. Afastou-se um pouco para atender com alguma privacidade. Aceitou o convite para ir lanchar no domingo, pois isso também era uma forma de ver como estava a amiga.

No domingo acordou cedo e aproveitou a manhã para fazer exercício e colocar algumas matérias em dia. A mãe e o Hugo já tinham começado a planear o casamento e ela deixou-os com um aviso.

«Eu quero rever esses panos todos, para lhes dar um toque artístico.»

Eles riram com satisfação. Sónia tinha um jeito especial para os eventos e um gosto artístico diferente que, de forma geral, resultava muito bem, por isso, já estavam a contar com o seu contribuo.

Lurdes pediu-lhe para entrar diretamente para o quarto dela e isso deixou Sónia mais tranquila. A verdade é que preferia não se cruzar com o Pedro, pois ainda não estava preparada para esse encontro. Quando entrou percebeu a verdadeira razão. Lurdes estava com muito bom aspeto, mas havia um quê de preocupação no olhar que rapidamente se traduziu num turbilhão de palavras.

«Preciso que me ajudes a resolver um dilema.»

«Conta-me tudo.» Disse Sónia.

«Tu sabes melhor do que ninguém aquilo porque passei durante algumas semanas. Não me refiro à droga, que isso durou muito mais tempo, mas sim à atividade sexual, mais propriamente à homossexual.»

«Percebo que isso te incomode, mas não tens de te preocupar, pois tanto quanto sei estavas drogada.» Disse Sónia, segurando a mão da amiga com ternura.

«Eu sei, mas quando estive só com a Patricia eu gostei mesmo de estar com ela. Isso está a causar-me muita confusão.»

«Agora perdi-me.»

«Eu estou convencida que gosto de homens e neste momento não tenho nenhuma atração por mulheres. Sendo assim, como explicar que tenha tido tanto prazer em estar com a Patricia? Se calhar estou a confundir as coisas e na verdade sou homossexual!»

«Tens a certeza que a Patricia não te drogou?»

Lurdes ficou alguns instantes calada revendo a cena toda.

«Não tenho a certeza. Ela deu-me um comprimido azul para eu relaxar, mas como não vi a embalagem, não sei de que comprimido se tratava.»

«Um comprimido azul pode ser muitas coisas, mas conhecendo o historial da Patricia eu diria que era um estimulante sexual.»

«Estás a falar do viagra?»

«Não. O viagra é para homens. Penso que o facto de ser azul é uma mera coincidência.»

«Então achas que o prazer que senti com a Patricia foi o resultado da droga?»

«Isso não é importante. O que interessa é saber se hoje, livre de qualquer droga, tu te sentes atraída por homens ou por mulheres.»

«Por homens, sem dúvida!»

«Por algum em especial?»

«Não propriamente, embora eu nunca tenha conseguido esquecer o “caixa de óculos”.»

«Quem é esse?»

Lurdes narrou a sua grande paixão dos últimos dois anos do secundário. Na altura ela era bem gordinha e ele também. Era o único rapaz que, para além de não gozar com ela, a defendia. Ela apaixonou-se, mas como sabia que ele apenas tinha pena dela, nunca se declarou, mas a verdade é que nunca o tinha esquecido.

«Ao fim de tantos anos tu ainda gostas dele? Ele, hoje, pode ser um homem completamente diferente e ser até o oposto daquilo que tu imaginaste.»

«Não creio. Ele era uma pessoa fantástica que me ajudou muito de forma desinteressada. O mais provável é que tenha encontrado uma mulher que o amou da forma que ele merecia.»

«Vês. Isso é a prova de que não és homossexual.»

«E se fosse? Isso mudava alguma coisa entre nós?»

«Não desde que tu não tentasses seduzir-me.»

Lurdes soltou uma gargalhada sincera. Isso nunca lhe tinha passado pela cabeça.  Definitivamente não era homossexual! Sónia olhou-a diretamente nos olhos e percebeu que aquilo que a escombrava tinha desaparecido. A amiga estava no bom caminho.

Elas nem tinham dado conta do tempo passar, apenas se aperceberam disso quando a mãe bateu à porta, trazendo o lanche, num tabuleiro.

«Espero não incomodar nem interromper nada.» Disse Elisa.

«Não interrompes nada. Podes entrar e lanchar com a gente. Isto se a Sónia não se importar.»

«Claro que não.»

«O pai está cá?»

«Não o teu pai saiu logo a seguir ao almoço e não vem jantar hoje.»

Sónia sentiu o agulhão do ciúme picá-la, mas disfarçou o que lhe ia na alma. As três mulheres lancharam trocando banalidades, que era o prelúdio de revelações mais profundas.

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