RESPOSTA AO AMOR INTRUSIVO

Resposta – Amor intrusivo

Querida M

Deixa-me tratar-te desta forma carinhosa sem que esse carinho tenha de momento, outra qualquer interpretação ou significado para além dele próprio. Não tenho palavras para descrever aquilo que senti ao ler a tua carta. Esta provocou em mim um misto de sentimentos contraditórios, que, mesmo depois de a ler e reler, tenho dificuldade em conciliar. A felicidade de me saber objeto de um amor tão profundo é suplantada pelo facto de saber que nunca o sentirei na pele e dele apenas experimentarei as belas palavras com que tu o descreves. Tu és uma mulher comprometida e os teus princípios nunca te irão permitir romper com esse compromisso, para te tornares numa mulher livre. Portanto, de nada serve a grandeza desse amor. Sim eu percebo o quão grande é o amor que sentes por mim, mas antes de te falar de amor, neste caso do meu amor, deixa-me dizer-te que a tua carta me chegou às mãos da forma mais estranha que possas imaginar. Na verdade, estou convencido de que não foi propositada, sobretudo depois de a ler. Estava no tapete, dos pés, do banco traseiro, do meu carro. Seguramente caiu quando te dei boleia a ti e às tuas amigas.

Eu não sei dizer-te que te amo com palavras bonitas, na verdade nem sei bem se te amo. Para mim o amor vem depois de tantas coisas e apenas depois da paixão ter desaparecido e de eu continuar a querer acordar todos os dias a teu lado, é que posso, verdadeiramente, dizer que te amo. Neste momento, o que eu sinto por ti é uma paixão avassaladora e egoísta que me rouba tudo. É um sentimento exigente que começa por requerer toda a minha atenção, consumir todas as minhas forças e viver instalado na minha mente, consumindo-me todos os pensamentos e energias. Sonho contigo quando durmo e penso em ti quando estou acordado. É um sentimento monopolista e monopolizador.

Tu dizes que me amas e eu não duvido, mas deixa que te pergunte: Se o teu amor é assim tão grande, tão intenso e tão profundo, como podes viver ao lado de outro homem e dizer-lhe que o amas?

Para além de ter de lidar com esta paixão que me assola e consome, eu tenho de viver com esta dúvida que me enregela e mata todos os dias, apesar de me deixar continuar a viver, apenas para me matar outra vez, no dia seguinte. Não me consome a vida, mas mata-me o coração!

Sonho contigo sonhos de mil primaveras juntos, nesta vida ou noutra qualquer, de uma futura encarnação. Sonho que acordamos juntos pela manhazinha e que o cheiro do teu hálito me invade as entranhas, fazendo-me saber que és tu quem dorme ali a meu lado e que foste tu que me pontapeaste durante a noite, mas que também foste tu que me aconchegaste ao deitar e que colaste o teu corpo ao meu acendendo a fogueira do desejo. Foste tu que me abriste as portas de par em par, para que eu entrasse dentro de ti e mergulhasse nesse mistério que é o ser feminino. Foste tu que me exauriste, exigindo o meu néctar e dessa forma me levaste às nuvens e ao paraíso, para depois me mostrar as coisas simples da terra e a complexidade do caráter feminino, com tantas virtudes e outras tantas contradições.

Sonho que nos entregamos à labuta e que embora possamos passar o dia separados, cada um entregue aos seus afazeres, estamos unidos e que um gesto teu me fará correr para os teus braços e render incondicionalmente.

Sonho que depois de uma semana de trabalho damos as boas vindas ao fim de semana com um sorriso, porque sabemos que temos dois dias só para nós, ainda que possamos escolher partilhar algumas horas com os nossos amigos. Estamos juntos e mostrámo-lo ao mundo de forma ostensiva, quer seja na paria, no campo ou na cidade. Percorremos a cidade num desvario noturno, envolvidos pela multidão, mas alheios a todos e unidos como se estivéssemos sós. Depois subimos à colina mais alta da cidade e sentamo-nos, abraçados, numa solidão acompanhada, a ver o sol nascer, cobertos com uma manta como se esta simbolizasse a nossa união e o sol nos desse a sua bênção, aquecendo-nos com os seus raios. A luz do astro flamejante envolve-nos e aquece-nos e nós olhamos para ele tão conscientes da nossa paixão que este parece brilhar apenas para nós. É egocentrista esta paixão! Tudo quer e tudo julga poder, até ao momento em que cai por terra, vencida pela tua imobilidade.

Eu sou um homem livre. Só eu sei o quanto sofri para conquistar esse estatuto, mas sou livre para assumir ou rejeitar os compromissos que entender, por isso posso falar assim desta paixão, porque posso vivê-la contigo ou com outra mulher qualquer. Enquanto tu falas de amor, de uma grande amor, mas acabas por concluir que não és livre para o viver, embora possas achar que és livre de o sentir.

Como eu gostaria de poder deixar tudo e partir à aventura, contigo ao meu lado, vivendo do teu amor e sustentando-te com o meu. Sei que nem tudo seria fácil e que posso não gostar de tudo em ti, mas estou consciente e seguro de que gosto de ti com tudo. Viajamos pelo mundo, descobrindo lugares desconhecidos e o desconhecido em nós, para nos mostrarmos ao outro como um livro aberto, que se deixa ler, sem que tal pedido tenha sido formulado, porque tão grande é o prazer de ser lido como o de ler e um completa o outro.

Regressamos para um país que não mudou e um local que é o mesmo, mas os nossos olhos vêm mudanças que mais ninguém percebe, porque a mudança está em nós. A mudança esta na nova forma como olhamos as coisas, enriquecida pelo conhecimento de novas realidades, mas sobretudo pelo facto de, unidos, vermos o mundo não apenas pelos nossos olhos, mas pelos olhos da alma gémea que a nós se uniu, completando-nos e enriquecendo-nos.

Eu sou romântico e por isso sei que não há nada mais belo que o espetáculo do por do sol, acompanhado da música do marulhar das ondas na areia e do riso das crianças que reclamam por terem de regressar a casa. Talvez um luar de agosto, com uma lua a pino e os grilos cantando hinos de glória ao nosso amor, enquanto, de mãos dadas, caminhamos por entre sombras e laivos de prata, sem que nada nos perturbe, cobertos pelo manto do amor e protegidos de tal forma que nem as sombras da noite se atrevem a desafiar-nos.

Sim, sonho com tudo isso, mas sofro por não conseguir transformar este sonho em realidade, por ver que entre as tuas palavras e os teus atos vai uma distância infinita, não pela sua grandeza física, mas pela impossibilidade de ser ultrapassada. Consciente de que esta paixão é tudo o que eu quero na vida, estou convencido de que tenho de lhe por um fim, pois não posso viver eternamente nesta ilusão. Este amor que nos une, como uma corrente que aparenta ser dotada de fortes elos, urge uma tomada de decisão, não sendo tu capaz de a tomar pela positiva, vejo-me forçado a tomá-la pela negativa.

Teu até que a corrente se quebre.

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