CARTAS NA PANDEMIA 46

Lisboa 10/05/2021

Bom dia Carol!

Deixa-me, primeiro que tudo, congratular-te pela história de vida fantástica que partilhaste comigo na tua última carta. Devo confessar que vivi a emoção que transmites em palavras sentidas, de tal forma que também eu acabei por ficar emocionado.  Infelizmente, o trabalho, esse tirano cruel, nesta fase do ano, tem exigido a minha atenção a todo o tempo. É verdade que me tenho lembrado várias vezes de que estava em falta para contigo, mas não tenho conseguido encontrar, nem o tempo, nem a disponibilidade mental, para me sentar e escrever a resposta que a tua carta merece.

Permite-me, ainda, acrescentar que tens uma história de vida muito bonita e que as dificuldades, no teu caso, foram, definitivamente, uma pedra de amolar do engenho e da arte. Parabéns!  Isso diz mais de ti do que mil palavras, embora escutar ou ler as palavras seja muito importante. O facto de teres vivido em mundos opostos, experimentando a opulência e vida simples e dura, deu-te uma visão do mundo que a maioria das pessoas não tem, porque ao viver apenas num, ignoram o que é experienciar o outro. Mas, mais do que tudo, o facto de teres tido amor em ambos, fez, seguramente, de ti uma pessoa melhor. As dificuldades da vida, quando são ultrapassadas com amor e compreensão, como foi o teu caso, têm uma influência muito positiva no caráter a ajudam-nos a singrar na vida.

Apesar de achar que não tens que me agradecer nada e que o mérito de teres reatado o contacto com pessoas que tinham feito parte da tua infância, nomeadamente com as pessoas com quem viveste em regime familiar, no passado, é teu, aceito a pequena parte que me cabe e regozijo-me com isso. Seria ingratidão da minha parte não o fazer, até porque sei que esta nossa troca de correspondência gera a predisposição para abrirmos o coração para outras pessoas, que estão por vezes, bem mais próximas que nós, pelo menos em termos geográficos.

Fazer as pazes com o passado, engrandece o nosso futuro e eu espero que seja isso mesmo que aconteça contigo e que a reentrada na tua vida de pessoas que foram tão importantes, para ti, na tua infância, produza esse efeito maravilhoso. Espero também que essa tua predisposição para escrever cartas, reatando amizades antigas, seja coroada de sucesso. Hoje a grande maioria das pessoas não gosta de escrever, usando o tempo (a falta dele claro!) como desculpa, por isso, se nem todos te responderem não desanimes e continua a escrever.

Adorei a perspetiva de receber fotografias dos momentos felizes que descreves, por isso, se os quiseres partilhar comigo posso assegurar-te que serão apreciados com verdadeiro prazer. Infelizmente, eu não tenho fotografias, nem da infância nem da juventude. Isso apenas começou a acontecer a partir do ingresso na faculdade: circunstâncias da vida!

Ao reler a tua carta percebi que o teu agradecimento pela manutenção da correspondência entre nós faz sentido. No entanto, o sentido não é único, mas biunívoco. Na verdade, escrever estas cartas tem sido bom para mim também, porque me levou a revisitar acontecimentos passados e ao narrá-los acabei por os olhar sob uma perspetiva diferente. Isso permitiu-me saber mais sobre mim. É uma sensação, simultaneamente, estranha e gratificante, por isso também te devo um agradecimento.

Falemos de outras coisas. Não sei se já realizaste as consequências do teu comentário em jeito de desafio. Achaste que um dos meus contos tinha deixado em aberto o destino de uma das personagens e eu, para lhe definir um destino, acabei por criar uma minissérie, que provavelmente vai resultar num livro sobre os problemas/dilemas da adolescência e não só. Chama-se “Adolescentes” e já tem oito capítulos escritos e noventa páginas. Como eu gostaria de ter mais tempo para escrever e aí, quem sabe, já a minissérie estivesse terminada. Isso faz-me lembrar de um link de um blog, onde existia uma história cujo fim o autor havia adiado e que me havias enviado. Penso que o autor retomou a história o que significa que é altura de satisfazeres a tua curiosidade.

Imagino que acompanhas as notícias, por isso, também deves ter sido inundada por esta sensação de que a pandemia Covid 19 veio para ficar, talvez se atenue, mas vamos ter de aprender a viver com ela e com as várias versões dela: as que já existem e as que se irão desenvolver. Em Portugal, a situação parece estar um pouco controlada, mas já vivemos isso no ano passado e depois tudo se descontrolou. A esperança é, e sempre foi, a vacina, desde que o malandro do vírus não aprenda a viver com ela e a escapar às armadilhas que esta lhe coloca.

Hoje a minha janela recusa-se a falar sobre a vista que tem do mundo. A primavera tornou-se nostálgica e resolveu ceder uns dias de calendário ao inverno, brindando-nos com frio e chuva. Nem o sol, que espreita de tempos a tempos, por entre as nuvens grossas, salva o dia. É um daqueles dias que nos lança um convite mudo para ficarmos em casa. Quem não parece muito satisfeito com a situação é o cachorro que quer ira à rua. Vamos ver se o tempo se torna menos implacável, lá para o fim do dia e nos dá a hipótese de esticar as pernas e distender a mente, a mim e ao cão.

Não consegui terminar na hora do almoço por isso retomo a narrativa agora que o dia de trabalho se chegou ao fim (O cachorro sempre teve direito a passeio…).  Com a entrada da primavera tive que dar um pouco de atenção às minhas árvores de fruto, por isso os fins de semana têm sido dedicados a fresar a terra e cuidar das caldeiras das árvores para as poder regar, assim que o calor apertar. São fins de semana diferentes e bem interessantes, quer porque gosto da agricultura (fui criado nela!) quer porque me permite esquecer o stress do dia a dia.

Termino com os votos de que estas linhas te encontrem bem e desejando receber notícias tuas na volta do correio. Por hoje é tudo. Um abraço forte do amigo

Manuel

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