O CAIXA DE ÓCULOS

O lanche estava quase a terminar quando Elisa puxou o assunto.

«Desde que eu e o Pedro nos separamos, pela primeira, vez que eu não tenho sido uma boa mãe. Posso não te ter abandonado na rua ou não ter deixado que faltasse nada em casa, mas não te dei o amor e a compreensão que uma mãe deve dar a uma filha. Penalizo-mo por isso e, embora saiba que nada pode alterar o passado, gostaria de mudar o futuro.»

Lurdes ficou a olhar para a mãe. Apesar de ser a mais pura das verdades, aquela confissão apanhava-a de surpresa. Nunca lhe tinha passado pela cabeça que a mãe pudesse assumir, de forma tão clara e na frente de pessoas estranhas, que tinha sido uma mãe ausente. Não sabia muito bem o que dizer e lançou um olhar para a Sónia que era um autêntico pedido mudo de ajuda.

«Nenhum ser humano é isento de falhas, mas quando o ser humano falha e tem a capacidade de reconhecer as suas falhas e a humildade de as confessar, esse ser humano engrandece-se e torna-se digno do nosso respeito e admiração. Deve existir sempre lugar na nossa vida para a amizade e o companheirismo e sobretudo para o perdão. Eu aprendi isso contigo.»

Lurdes ficou emocionada com as palavras da amiga e depois de secar as lagrimas que espreitavam no canto do olho. Encarou a mãe. O olhar era franco e refletia admiração.

«Talvez não seja possível recuperar os anos em que eu precisei de uma mãe, mas eu agora preciso de uma amiga. Queres ser minha amiga?»

Elisa sentiu um nó na garganta que a impediu de falar. Estendeu os braços para a filha e esta aninhou-se neles. Estavam as duas emocionadas e ficaram caladas, procurando controlar as lágrimas que teimavam em brotar dos olhos de ambos. A tarde estava a revelar-se mais proveitosa do que ela tinha esperado. Lurdes afastou-se lentamente da mãe e esta segurou-a pelas mãos e olhou-a desvanecida

«Uma das coisas que nos separou, no passado, foram os segredos que cada uma achou que devia guardar. Talvez devêssemos experimentar não ter segredos uma para outra. O que te parece?»

«Parece-me bem. Eu fiz muitas asneiras no passado e poder falar abertamente com alguém vai ser muito bom, pois pode ajudar-me a evitar a repetição destas.»

«Eu quero começar com uma confissão. Não é fácil para mim assumir aquilo que vou contar…»

As duas jovens estavam suspensas das palavas dela, mas respeitaram a hesitação de Elisa e mantiveram-se em silêncio.

«A pessoa a quem entreguei o meu coração e que, para além de troçar do meu amor, tentou dar-me o golpe, era uma mulher.»

«Como? Uma mulher!» Exclamou Lurdes.

«Sim uma mulher…»

Elisa percebeu a estranheza da filha e ficou desolada. Não ia ser fácil ela compreender, mas fosse qual fosse a reação de Lurdes ela não ia desistir da filha e também já não podia voltar atrás. Passado o momento de espanto Lurdes percebeu que a mãe o tinha interpretado como uma desaprovação e apressou-se a corrigir a situação. Apertou a mão da mãe, com carinho e disse:

«Mãe não te preocupes. Não é pelo facto de seres homossexual que vais deixar de ser minha mãe ou eu vou deixar de ser tua amiga. Eu mesma, ainda hoje me interrogava se era homossexual ou não.»

«Tu?» Exclamou a mãe.

Sónia explicou aquilo porque a Lurdes havia passado, nomeadamente as experiências sexuais e as drogas e terminou de forma sentenciosa.

«Aquilo porque a Lurdes passou foi uma grande provação e deve-se, em grande parte, à sua ex-amiga Patricia. Ainda bem que essa falsa amiga saiu da vida dela.»

Elisa ficou branca ao ouvir o nome e escondeu o rosto entre as mãos, chorando copiosamente. Nada do que as duas jovens dissessem a fazia parar, ao ponto de estas começarem a ficar preocupadas. Quando finalmente Elisa conseguiu controlar-se, colocou-se de joelhos, em frente da filha e implorou o seu perdão.

«Perdoa-me filha. Perdoa-me o mal que te fiz se puderes. O coração traiu-me, mas eu juro que não sabia.»

As jovens olharam uma para a outra sem perceber nada do que Elisa estava a dizer.

«Mãe não precisas de pedir perdão porque simplesmente não existe nada para ser perdoado.»

«Existe sim minha filha. A mulher por quem me apaixonei foi a tua amiga Patricia.»

Era a segunda vez, durante aquele curto lanche que as duas jovens ficavam boquiabertas. Essa revelação era uma autêntica bomba. Elisa contou toda a história e elas perceberam a forma ignóbil como ela tinha sido enganada. Lurdes abraçou a mãe, mais uma vez, com força e acariciou-a, beijando-lhe a face. A sintonia entre elas era de tal forma visível que Sónia sentiu que estava a mais e tratou de despedir-se, deixando-as nos braços uma da outra. A vida tem coisas curiosas, interessantes e por vezes intrigantes, como é o caso da união na desgraça. As duas mulheres, não se sentindo unidas pelo vínculo entre mãe e filha, encontraram essa união na vivência de experiências infelizes, embora distintas. O meio como o bem chega não é o mais importante, desde que este chegue.

Quando Pedro regressou a casa elas ainda estavam no quarto a conversar, tendo-se esquecido da hora de jantar. Sónia tinha partido às dezanove horas e já eram vinte e uma, mas o assunto parecia não se esgotar. Ao perceber o que se tinha passado, ele encomendou jantar para os três e ficaram até tarde à conversa. Fazia muito tempo que eles não tinham uma conversa como aquela. Uma conversa de família.

Sónia ficou a pensar no “caixa de óculos”. Um amor podia ser a forma de Lurdes encontrar o seu caminho, definitivamente, sem retrocessos nem recaídas. Mas como ia encontrá-lo se nem a Lurdes fazia ideia do seu paradeiro ou nome completo. Para a Lurdes ele era simplesmente o Bruno e isso era insuficiente para ir aos registos da escola Rainha D. Leonor, assumindo que era possível fazê-lo e encontrar a sua morada. Mentalmente, criou cenários loucos em que ela encontrava o “caixa de óculos” e organizava um encontro entre ele e a Lurdes. Imaginar este tipo de especulações dava-lhe um prazer especial. Era uma sonhadora!

Na segunda feira a equipa delas tinham um jogo de demonstração no pavilhão do Instituto Superior Técnico e Sónia fez questão que a Lurdes fosse. O treinador não a deixou alinhar de início, mas deixou-a entrar no último set e ela acabou por fazer um excelente jogo. Estava inspirada e fez mia dúzia de recuperações de bola fantásticas, daquelas que faz o publico saltar das cadeiras. Entre o publico encontrava-se um jovem alto e bem constituído que assim que Lurdes entrou não conseguiu tirar os olhos dela, fixando-a embasbacado. Ele conhecera uma Lurdes diferente, mas o sentimento que nutria por ela continuava igual. A Lurdes de hoje era muito mais elegante e bonita e ainda por cima era desportista. Mesmo tendo percorrido caminhos separados parecia que o destino os conduzia a um ponto comum utilizando meios idênticos. Ele também era jogador de voleibol.

Apesar de terem defrontado uma equipa de homens elas ganharam o jogo e isso tinha deixado a assistência ao rubro. No fim foram muitos os jovens que queriam autógrafos, sobretudo da capitã. Foi assim que Sónia acabou por ficar para trás com duas companheiras, enquanto o resto da equipa abandonou o pavilhão gradualmente. O jovem fã de Lurdes bem tentou chegar à fala com ela, mas tal não foi possível: Tinha tomado a iniciativa tarde demais. Apesar disso, ainda encontrou Sónia. Foi o último autógrafo que ela deu. Enquanto esperava pelo autógrafo ele olhou em volta, com um ar ansioso, que não passou despercebido a Sónia. No entanto, ela não disse nada. O jovem virou costas e deu dois passos e ela ficou a vê-lo afastar-se. Subitamente virou-se e perguntou:

«A jovem que entrou no último set chama-se Lurdes Rebelo?»

Sónia teve uma espécie de premonição e ficou a olhar para ele de boca aberta. Depois num rompante a pergunta saiu-lhe sem pensar.

«Tu és o ”caixa de óculos”?»

Mal terminou a pergunta Sónia ruboresceu. Tinha recorrido à alcunha dele, em vez de utilizar o nome e isso era uma demonstração de falta de educação. Por seu lado o jovem ria-se às gargalhadas despregadas. Primeiro porque já ninguém lhe chamava isso desde o décimo segundo ano e depois porque a jovem tinha ficado mais atrapalhada que ele.

«Sim. Sou eu, mas já há muitos anos que ninguém me chama assim. Como soubeste a minha alcunha?»

Sónia ficou sem saber o que dizer. Fosse o que fosse que dissesse acabaria por trair a amiga, mas agora já era tarde demais: tinha-se denunciado ao usar a alcunha.

«Parece que tens uma colega do secundário, que guardou essa imagem de ti.»

«Isso quer dizer que essa colega não me esqueceu!»

«Sim. Ela lembra-se bem de ti.»

A expressão do jovem tonou-se séria e ele fitou Sónia durante uns segundos que pareceram uma eternidade.

«Posso convidar-te para um café?»

Sónia, tinha pensado exatamente o mesmo. A vontade de conhecer o jovem que tinha feito parte da vida da amiga era superior à resistência que normalmente punha e encontros com desconhecidos.

«Sim.»

Foram para uma das esplanadas de Duque d’Ávila e apesar da primeira frase ter sido dela, foi o jovem que fez as despesas da conversa.

«Então tu és o Bruno. A ideia que fazia de ti era completamente diferente.»

Bruno sorriu. Ela devia imaginá-lo gordinho e sedentário, mas isso tinha mudado no verão em que concluiu o décimo segundo ano.

«A Lurdes também era completamente diferente, embora não fosse tão gordinha como eu, era bem rechonchuda.»

Sónia lembrava-se disso. Ela perdeu muito peso no primeiro ano em que jogou, apesar de ter ganho massa muscular.

«Si eu sei.»

«A Lurdes tem namorado?»

«Não. Ela é uma mulher livre.»

Bruno fitou-a incrédulo. Como era possível uma mulher como ela não ter namorado?

«Eu nunca consegui esquecê-la»

«Isso é um assunto que deves falar com ela. Se quiseres eu posso organizar um encontro entre os dois.»

«Achas mesmo que ela aceitaria encontrar-se comigo?»

«Tenho a certeza disso.»

Bruno ficou calado durante uns segundo depois desatou a falar rapidamente e de forma atabalhoada, de factos e situações sem qualquer ordem cronológica. Ele tinha conhecido Leonor no décimo ano de escolaridade e ficou logo apaixonado por ela. Sofriam os dois de bulling, pelo facto de serem gordos e no caso dele também por usar uns óculos “fundo de garrafa”. No seu caso isso mudou drasticamente, pois ele tinha crescido muito durante o ano e começado a treinar defesa pessoal. Apesar do exercício não emagreceu, porque era muito guloso e a dieta em casa era completamente desadequada. No entanto, tinha muita força e uma vez ou outra deu um “chega para lá” a quem se meteu no seu caminho e isso fez parar o bulling. Era caso para dizer que quem com ferro mata, com ferros morre. Enquanto isso, ele sofreu calado a humilhação de ser o alvo da chacota dos colegas de ambos os sexos. Os rapazes riam-se da sua falta de mobilidade, mas as raparigas gozavam com o seu aspeto, o que ainda o deixava mais humilhado. Acabou por se isolar e isso fez com que não tivesse, hoje, nenhum amigo dos tempos do secundário. Não foi fácil ultrapassar a humilhação porque tinha passado, mas a terapia que fez, quando passou pelo processo de emagrecimento, acabou por ajudá-lo.

Lurdes não tinha tido a mesma sorte e os rapazes continuaram a não deixar as gordurinhas dela em paz. Bruno ficava possesso quando alguém gozava com ela. Ele sabia aquilo porque ela estava a passar e exatamente o que ela sentia. Amando-a como a amava, sofria, em dobro e calado, as humilhações dela. Um dia perdeu as estribeiras e desferiu um par de socos em três dos rapazes que gozavam com ela. Isso valeu-lhe uma suspensão, que só não foi grave porque uma das professoras tinha presenciado o caso e falou em sua defesa. O que ele tinha feito não era aceitável, mas o facto de ter atuado em defesa de uma jovem que sofria bulling por parte dos três agredidos, funcionou como atenuante e a suspensão foi mínima. A história acabou de uma forma irónica: Bruno acabou por se tornar um herói entre o sexo feminino o que, paradoxalmente, acabou por contribuir para o afastamento entre ele e Lurdes.

Bruno sentiu esse afastamento de uma forma especial: sentiu-se traído pela Lurdes, mas apesar de magoado não deixou de a amar. Passou a amá-la à distância. Se ela não se tivesse afastado ele ter-se-ia declarado, mas isso não aconteceu até ele ter partido para a universidade. Depois disso, o mundo dele mudou. Os pais que tinham problemas de obesidade e fizeram um tratamento o que fez com qua a alimentação em casa mudasse radicalmente. Ele também fez tratamento e deixou de comer doces, o que se traduziu numa transformação física brutal. Ele tornou-se no jovem atlético que era hoje.

«Foram tempos difíceis. A única coisa boa foi o facto de ter conhecido a Lurdes. Só por isso valeu a pena ter passado por eles.»

Sónia fitou-o impressionada com um amor que tinha sobrevivido a seis anos de afastamento e sem nunca ter sido correspondido, ou pelo menos ter tido conhecimento disso.

«Vocês precisam de se encontrar!»

«Tenho receio do que ela possa pensar de mim.»

«Quanto a outros sentimentos não posso dizer-te nada, mas posso assegurar-te que a Lurdes pensa o melhor de ti.»

Antes de se separarem apareceu um amigo do Bruno e este apresentou-o a Sónia. Eles gostaram tanto de se conhecer um ao outro que ficaram um pouco mais à conversa, depois do Bruno partir. Antes do Bruno partir trocaram os números de telefone e Sónia comprometeu-se a organizar um encontro entre ele e a Lurdes e isso deveria acontecer na sexta feira seguinte. O Tiago também estava convidado. Assim, eles podiam dedicar-se a recordar os tempos da secundária que a Sónia não se sentiria deixada de lado.

Quando ia a caminho de casa o telefone tocou. Era o Xavier.

«Olá Sónia. Nem sabes quem me telefonou!»

«Boa tarde para ti também!» Disse Sónia, soltando uma gargalhada.

«Desculpa. Boa tarde. Está tudo bem?»

«Tudo bem. Não te preocupes. Estava a meter-me contigo. Diz lá quem te telefonou.»

«A tua amiga Teresa. Vamos jantar na sexta feira.»

«Fantástico! Eu fiquei com a impressão que ela tinha interesse em ti. É uma excelente miúda e muito bonita.»

«Eu também fiquei com muito boa impressão dela. Olha queres jantar comigo na quarta?»

«Parece-me uma boa ideia. Podes ir buscar-me ou venho ter contigo?»

«Fica pronta às dezanove e trinta.»

O jantar de quarta feira foi diferente. Xavier queria saber tudo sobre a Teresa. Até parecia que ele tinha um interesse especial nela e que tinha sido ele a tomar a iniciativa do convite. Por vezes as pessoas conseguiam surpreendê-la, mesmo quando pensava que as conhecia relativamente bem.

«Na sexta feira podias juntar-te a nós para ir dançar.»

«Na sexta tenho um compromisso. Para além disso, não tenho muito jeito para pau de cabeleira!»

Xavier riu-se da resposta dela e Sónia acabou à gargalhada com ele. Eram amigos, mas não tinham de estar sempre juntos. Ele na sexta feira estaria muito bem entregue e se encontrasse a sua cara metade ela ficaria muito feliz. Não existe nada melhor que o amor para nos revigorar e nos ajudar a enfrentar os obstáculos que a vida coloca no nosso caminho.

Lurdes não fazia ideia com quem se ia encontrar. Sónia apenas lhe tinha dito que lhe queria apresentar uma pessoa de quem ela ia gostar muito. Quando a Sónia lhe disse que ela levaria um amigo, que Lurdes não conhecia, esta ainda ficou mais baralhada. Sónia não tinha nada feitio de casamenteira, por isso aquele encontro tinha água no bico.

Sónia foi buscar a Lurdes no carro da mãe. Estacionou perto do restaurante e fizeram a pé os duzentos metros que as separavam do local do encontro. Os dois rapazes estavam à espera fora do restaurante. Sónia avistou-os logo, mas não fez qualquer comentário. Quando sentiu o puxão no braço que a amiga lhe deu assustou-se.

«O que se passa?»

«Olha! Ali à porta do restaurante aquele rapaz…»

«O que tem o rapaz?»

«Aquele é o Bruno!»

Sónia sorriu não aparentando qualquer surpresa e Lurdes percebeu tudo.

«É com o Bruno que vamos jantar? Como o conseguiste encontrar?»

«Calma. Ele já ele te conta tudo.»

«Ele sabe que vai encontrar-se comigo?»

«Sim e está muito entusiasmado com a perspetiva.»

«Meu Deus estou tão nervosa! Eu também quero muito encontrar-me com ele.»

«Então vamos…»

Lurdes não se conteve e desatou a correr em relação aos jovens que não tardaram em perceber o que se passava. Ela parou a uns escassos dez metros do Bruno e olharam-se por alguns instantes, depois correram para os braços um do outro, como se a última vez que tivesse falado fosse apenas há algumas horas. O abraço que os uniu demorou vários minutos. Quando se soltaram saudaram-se com dois beijos na face. Tal como Sónia esperava eles desataram a falar um com outro esquecendo o resto do mundo. Isso também deu oportunidade a Sónia e Tiago de se conhecerem um pouco melhor.

Tiago era um pouco mais velho que eles e era assistente no técnico. Estava a fazer o doutoramento em Biotecnologia e Biociências, mas era possuidor de uma cultura geral extraordinária. Sónia também tinha uma cultura geral acima da média, por isso a conversa entre eles fluía com facilidade. Tiago estava muito entusiasmado. Era raro encontrar uma mulher bonita, desportista e com aquele nível de conhecimento. Era tão raro que Sónia era a única que ele conhecia, que reunia tais caraterísticas. Isso fez com que sentisse por ela uma atração que fazia algum tempo o sexo oposto não despertava nele. Era um pouco machista e normalmente rotulava as mulheres de insipidas e desinteressantes. Eram seres com interesses menores. A noitada terminou já de madrugada e Lurdes confidenciou à amiga que sentia estar completamente apaixonada pelo Bruno, por isso tinha aceite o pedido de namoro dele. Isso mesmo foi selado com um beijo prolongado, que levou Tiago a pigarrear olhando de forma intencional para a Sónia que se fez desentendida. Iria ser necessário um pouco mais para ela lhe dar um beijo. Naturalmente que ele não fazia ideia que o coração dela já tinha dono.

Patricia tinha deixado de estar apenas perdida e começou a ficar desesperada. Consumia dose atrás de dose e o dinheiro que tinha extorquido a Elisa estava quase a chegar ao fim. Quando isso acontecesse a única solução que lhe restava seria roubar a mãe. Entretanto, começou à procura dos contactos antigos, mas as redes a que anteriormente a alimentavam tinham sido desmanteladas e o seu dealer não tinha esse tipo de abordagem: só levava a dose quem tivesse dinheiro. Bateu a tantas portas que acabou por acordar o monstro.

No sábado ela acordou tarde e quando se levantou a mãe já tinha saído para as compras. Tomou o pequeno almoço, colocou meia dúzia de coisas na mochila e apanhou o autocarro para a Costa de Caparica, deixando um recado à mãe, para esta não desatar a telefonar-lhe. Quando lá chegou percorreu os locais onde costumavam dar-se os encontros, onde tantas vezes tinha participado, mas foi em vão, apesar de ter interrogado alguns dos vizinhos sobre a atividade desses locais. Perante o notório insucesso dos seus esforços dirigiu-se ao paredão e enquanto esperava pela hora do autocarro de regresso a Lisboa decidiu descontrair passeando-se para um lado e para o outro.

«Olá Patricia, faz muito tempo que não te víamos!»

Patricia reconheceu de imediato aquela voz e isso provocou-lhe um arrepio de medo. As duas mulheres tinham-na ladeado e quando esta olhou para os lados viu os sorrisos trocistas com que estas a observavam.

«Olá.» Disse, com indiferença.

«Meu Deus quanto entusiasmo!» Disse uma delas em tom jocoso.

Patricia não sabia o que dizer nem o que fazer. As gémeas assustavam-na, mas podiam se a sua porta de acesso às drogas. Pensava que elas tinham sido presas quando as redes foram desmanteladas, mas ainda bem que assim não foi. Decidiu fazer uma demonstração de força, embora por dentro se sentisse bem frágil.

«Vocês nunca me trataram bem, porque é que eu devia demonstrar entusiasmo em ver-vos!»

«Olhem só a menina a colocar as garras de fora.»

Patricia tremia por dentro, mas não podia voltar atrás, por isso soltou uma gargalhada e disse:

«Não se preocupem que as minhas garras não arranham.»

«Hum…»

Seguiu-se um silencio constrangedor, interrompido pela gémea que até aí se tinha mantido em silêncio.

«Está uma tarde lindíssima…»

Patricia olhou para ela sem perceber o alcance do comentário. A conversa estava a ficar estranha, talvez fosse melhor dar às de vila Diogo.

«Está na hora de regressar a Lisboa.»

«Não estás interessada numa forma fácil de ganhar umas doses, durantes uns mesitos?»

Elas tinham tocado no seu ponto fraco. Era isso mesmo que ela andava à procura e embora elas a assustassem, Patricia sabia bem que elas tinham os contactos para lhe proporcionar isso mesmo. Hesitou durante alguns minutos.

«O que é que preciso de fazer.»

«Isso é o chefe que vai decidir.»

Patricia fitou-a sem entender o significado do que acabava de ouvir.

«Anda!»

As gémeas desceram as escadas do paredão, em direção às habitações, deixando-a especada. Patricia não tardou em segui-las. Embrenharam-se pelas ruas da vila e entraram numa moradia cercada com um grande muro. Do outro lado os sinais de riqueza eram evidentes. A moradia era impressionante, mas o jardim exótico e a piscina que existia no exterior eram únicas! Patricia estava estupefacta. Ficou parada a olhar em volta até que ouviu chamarem por ela. Foi convidada a entrar por umas das portas traseiras e despareceu dentro da moradia. Logo que passou a porta de entrada a gémeas evaporaram-se e foi levada por dois homens encapuçados. Sentaram-na numa cadeira de mãos e perna amarradas e começou o interrogatório. Patricia estava tolhida de medo e não conseguia pensar direito. Apesar disso, conseguiu negar todas as acusações que lhe eram feitas pois não faziam qualquer sentido. Ao fim de algum tampo acabou por perceber que, de alguma forma, eles tinham feito uma associação entre a denúncia que levou ao desmantelamento parcial das redes de tráfego de sexo e a Patricia. Tudo aconteceu logo após a primeira visita de Patricia à moradia da Costa de Caparica e depois disso ela tinha pura e simplesmente desaparecido. Por mais justificações que Patricia desse não conseguiu convencê-los de que não tinha nada a ver com o assunto.

«Chefe ela até pode ter sido a causadora de tudo por ter trazido alguém que nos denunciou, mas não está envolvida no assunto.»

«Levem-na daqui! Nada de pontas soltas.»

Patricia nem queria acreditar que estava livre. Por momentos chegou a pensar o pior. Só não entendia porque é que eles julgavam que ela os tinha denunciado e como tinham feito uma associação entre ela e o desmantelamento das redes. Saiu pelo seu pé da moradia, dirigiu-se para a paragem e apanhou o autocarro de regresso. À laia de consolação deram-lhe uma dose de droga, que parecia queimar-lhe o bolso. À medida que o autocarro se aproximava de Lisboa ela ia ficando mais agitada e impaciente até que tomou a decisão: Iria injetar-se antes de ir para casa. A verdade é que nunca lá chegou.

Lurdes, à hora do almoço, contou aos pais que tinha encontrado a sua grande paixão do secundário e estes ficaram felizes ao ver o seu entusiasmo. Era mais uma relação que seria boa para ela em todos os sentidos. Finalmente, ela parecia estar a encontrar o seu caminho. O ambiente em casa tinha mudado novamente e os almoços e jantares, em família, eram outra vez comuns. O entendimento que existia entre os pais era muito bem e Lurdes ficou a olhar para os dois sem saber muito bem o que pensar da situação.

«Vou encontrar-me com o Bruno, mas regresso para o jantar.»

«Diverte-te filha.» Disse o Pai.

A mãe limitou-se a sorrir de satisfação e ficaram os dois a vê-la afastar-se em direção ao quarto. Lurdes sentia-se nas nuvens. O sentimento que lhe enchia o peito deixava-a nevosa e ansiosa, mas, ao contrário das relações passadas, desta vez sentia-se muito segura. Pensar em estar com o Bruno enchia-a de calor. Um calor que lhe aquecia o corpo de uma forma agradável e confortável: um fogo que ardia dentro de si sem a queimar: Lembrou-se do soneto de Camões e sorriu. Se o amor era fogo que arde sem se ver, ela queria muito arder nessa fogueira. Mentalmente, reviu as relações passadas e percebeu que estas apenas lhe tinham causado stresse e aumentado a sua insegurança. Os homens com quem se tinha relacionado não sabiam como lidar com a pessoa problemática que ela fora no passado e nem o interesse pelo seu corpo conseguia compensar isso. Felizmente, estava convencida de que agora era uma pessoa diferente, mas sobretudo tinha a noção de que Bruno estaria ao lado dela nos momentos bons e nos menos bons.

Bruno ainda lhe custava a acreditar que o destino o tivesse feito reencontrar a sua grande paixão. Nunca tinha deixado de gostar dela, apesar da imagem que tinha guardado da Patricia a não beneficiar muito, em termos físicos. O tempo tinha-se encarregado de resolver esse problema e ela tornara-se numa mulher fantástica! Não via a hora de a abraçar e beijar novamente. Apesar de, na verdade, saber pouco dela, sobretudo em relação aos últimos anos, parecia que a conhecia desde sempre e estava seguro dos seus sentimentos: Patricia era a mulher da sua vida!

Bruno marcou encontro para as quinze horas no jardim da Gulbenkian. Lurdes desconhecia totalmente, quer o jardim, quer o edifício e ficou surpreendida com a sua beleza, mas a maior surpresa foi que Bruno tinha comprado bilhetes para um concerto, ao ar livre, que teria lugar às dezasseis horas com a duração de duas horas. Ela nunca tinha assistido a um espetáculo de música clássica, por isso a expetativa era grande. Alguns minutos depois do espetáculo ter começado ela estava completamente rendida. O olhar adquiriu um brilho especial e ela teve acesso a um mundo de fantasia que abraçou de imediato. A música transportou-a para outra dimensão, uma dimensão que desconhecia, mas que a atraía. Bruno segurou-lhe a mão e ela apertou-a com força, deitando a cabeça sobre o ombro dele e deixando que a emoção da música se manifestasse através dos seus olhos. As duas horas passaram tão rápido que quando deram por isso o espetáculo tinha terminado. Lurdes deixou-se estar sentada no anfiteatro de pedra, com a cabeça no ombro de Bruno e com os olhos fechados. Revivia os acordes finais, que ainda lhe retumbavam nos ouvidos, como uma explosão. Bruno acariciou-lhe o rosto e os cabelos com carinho, beijando-lhe a testa. Sem abrir os olhos ela apertou-se contra ele e segredou-lhe ao ouvido.

«Obrigado.»

Ela não precisou de dizer mais nesta. Aquele obrigado estava carregado de um tal significado que Bruno sentiu um arrepio percorrer-lha a espinha. Lentamente, segurou o rosto dela entre as mãos, afastando-a ligeiramente e olhou-a nos olhos. Encontrou um olhar perdidamente apaixonado e não resistiu. O beijo foi algo mágico. Os lábios tocaram-se primeiro devagar e apenas superficialmente, depois, sedentos da satisfação do prazer que os consumia, entreabriram-se e as línguas deram o primeiro embate. Enrolaram-se uma na outra, numa dança guerreira, em que cada um procurava subjugar o outro. Finalmente, não encontrando vencedor, enrolaram-se mais uma vez e dançaram uma valsa, como se os violinos da orquestra ainda tocassem, agora só para eles. Tudo terminou num abraço tão forte que parecia que os corpos deles se fundiam. Era como se cada um quisesse guardar o outro, dentro de si, para toda a eternidade.

Interrompido o abraço, Bruno levantou-se e, segurando-lhe a mão, conduziu-a até à esplanada, para um lanche romântico. Ela riu-se da expressão que ele utilizou, mas não demorou muito tempo a perceber o que ele queria dizer. O senhor vestia fato e gravata e entrou na esplanada com um enorme ramo de rosas vermelhas nos braços. Patricia viu-o chegar e foi invadida por um pensamento. «Isso sim é um homem romântico. Vem para um encontro com um ramo de flores!» Quando o homem parou junto à mesa deles, o olhar dela ficou a bailar entre o homem e Bruno, sem saber o que pensar, nem o que dizer.

«Boa tarde. É a dona Lurdes Rebelo?»

«Sim.»

«São para a senhora.» Disse estendendo-lhe o ramo de rosas, com delicadeza.

Ela abriu o pequeno envelope que vinha com as rosas e lá dentro estava o soneto de Camões sobre o amor. Quando o leu os olhos encheram-se de água e ela correu a limpá-los. Bruno fez o esboço de um gesto na sua direção, mas ela conteve-o. Não podia ser uma coincidência que ela tivesse pensado exatamente no soneto de Camões, aproposito do amor que sentia por Bruno. O universo conjurava para os juntar!

«Não te preocupes. São lágrimas de felicidade.»

O bilhete terminava da seguinte forma.

Como não sou poeta pedi emprestado os versos de Camões, para te dizer que te amo. Hoje, amanhã e para todo o sempre…

Bruno.

Lurdes estava sem palavras. Debruçou-se sobre a mesa, segurou o rosto dele, entre as suas mãos e disse-lhe, olhando-o de forma enlevada.

«Obrigado. Eu não teria escolhido palavras mais bonitas para te dizer que te amo, mas sobretudo para te fazer sentir que sempre te amarei.»

Depois deu-lhe um beijo breve, com os lábios entreabertos. Mais do que um beijo, foi uma promessa de outros beijos.

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