CARTAS NA PANDEMIA 47

Lisboa 14/06/2021

Boa tarde Carol!

Em primeiro lugar deixa-me a gradecer a tua carta. Eu sei que as cartas que escrevemos um ao outro, nesta partilha que começou com um projeto de escrita e continua seguindo, como um projeto de amizade, não carecem de agradecimentos, mas eu quero agradecer porque senti que estava efetivamente a partilhar contigo momentos diferentes da tua vida, ditados pela tua personalidade e condicionados pela disponibilçidade. Vivi contigo esses momentos e isso pode e deve ser agradecido. Quando numa carta temos a capacidade de colocar o nosso eu, quase em tempo real, da forma que tu colocaste, isso é fantástico e digno de registo. Isso nunca irá fazer com que eu sumam (desapareça), mas antes com que fique mais interessado em dar continuidade a esta correspondência

Efetivamente, o trabalho vive ao nosso lado, não como um vizinho calmo e introvertido, mas como alguém que nos acossa de forma intrusiva e nos envolve e enleia, numa teia da qual nem sempre conseguimos sair. As coisas por aqui estão bem animadas, embora por razões diferentes das que apresentas, pois, a questão dos recursos humanos não é a que tem ditado mais dificuldades, mas antes uma mega transação que temos entre mãos (estamos a falar de biliões de euros!).

Entretanto, tive a oportunidade de tirar uns dias de férias e, desta vez, decidi que para além de ficar ausente da empresa e do trabalho também ficaria ausente da escrita. Foi interessante, mas regressei com imensas saudades de escrever e alguma ideias, agora só preciso de multiplicar o tempo para poder colocá-las me prática (talvez dê para utilizar a noite, para além da vinte e quatro hora do dias… risos).

Aproveitei as férias para ir visitar os meus pais, ao norte de Portugal, pois, devido às restrições da pandemia, já não os via há mais de um ano. Agora que eles e eu estamos vacinados a cosia fica mais tranquila, embora ainda exista alguma incerteza, sobre o comportamento das vacinas. Estamos na época das cerejas e fui matar saudades. Andei pendurado no topo da cerejeira nos galhos mais altos e finos à procura da fruta mais madura e deliciosa. Pensava que já não tinha idade para isso, mas não sei se a vacina de repente me deixou mais novo (risos!), a verdade é que me senti muito bem. De regresso a Lisboa fui para a casa de fim de semana e aproveitei o tempo para cuidar das minhas árvores de fruta, cavando a terra á volta destas, para preparar as caladeiras, que funcionarão como recetáculo da água. É bem interessante e simples: cavamos a terra à volta da árvore, construímos um recetáculo com terra para conter a água, à volta do tronco (caldeira) e cobrimos essa caldeira com folhas e ervas secas para evitar que o sol seque a terra, permitindo que o efeito da rega dure por mais tempo. Depois de concluído o processo nas trinta e cinco árvores, iniciei o processo de rega. Tratadas das árvores dediquei-me a limpar o mato nos extremos da propriedade, para evitar a propagação dos fogos. Estive transformado num verdadeiro agricultor! Não esquecer, como penso que já te tinha dito numa outra carta, que já tinha fresado a terra à volta das árvores, com o meu mini trator e que, entretanto, contratei um trator grande para lavrar o meio do terreno (estamos a falar de quase dois hectares!).

O tempo ajudou a cuidar do bronze (bronze de agricultor, que é só do pescoço para cima!), mas não ajudou muito ao trabalho, pois o calor complicou-me a vida, mas é como te dizia a vacina deve ter-me deixado mais novo.

Como já mencionei fui vacinado. Isso aconteceu no dia seis, com a vacina da Janssen (dose única) e não tive qualquer sintoma. De facto, logo a seguir a ser vacinado fiz a viagem para Vila Real, que são quatrocentos quilómetros e nem senti que tinha sido vacinado. O único aspeto de relevo foi a desorganização dos serviços, pois sendo as marcações feitas ao minuto (a minha era para as dez horas e cinquenta e um minutos), esperei quarenta e cinco minutos para ser inoculado. Dito isto, o processo de vacinação tem estado a decorrer com bastante normalidade e já temos uma boa percentagem de cidadãos vacinados, no entanto, a propagação do vírus continua difícil de conter. Aquilo que se espera é que o aumento do número de infetados não se reflita num aumento do número de internados e de mortos, que neste momento estão fixados em valores muito baixos, permitindo o alívio do sistema de saúde.

Estou a aproveitar o final da tarde para te responder e logo depois vou passear o cachorro, aproveitando que o fato de o fim de tarde ficar um pouco mais fresco, tornando possível andar na rua com alguma qualidade. É que andar na rua de máscara, com mais de trinta graus não é fácil, sobretudo se tiver de se acompanhar o ritmo de um cachorro jovem que não tem noção da velocidade que imprime à sua passada. Estamos a tratar de o ensinar, mas não está fácil. Na verdade, a parte pior do cachorro não são os passeios, mas sim ensinar-lhe como se comportar em casa e na rua. É um processo para o qual até já arranjamos ajuda profissional, pois não quero que o cachorro entre em stress com tanta exigência da nossa parte.

Termino com uma sugestão que penso estará muito desatualizada pois tu fazes isso, seguramente, muito bem: respira fundo. Na vida tudo tem uma solução, por vezes dá-nos um pouco mais de trabalho a encontra-la, mas ela está lá.

Votos de um excelente resto de dia e até à volta do correio.

Um forte abraço.

Manuel

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