A CRIAÇÃO

A pena agita-se entre os dedos. Hesita em tomar a iniciativa, talvez com medo de se aventurar na alvura da folha que, pacientemente, repousa sobre a mesa. As linhas, de um azul suave, marcam o caminho, num desafio ainda não aceite. Olham-se nos olhos, avaliando a capacidade de dar e receber. A cada movimento da pena a folha treme, hirta, numa ânsia pelo primeiro jato de tinta. Sonha ser eterna, guardando para todo o sempre as palavras que lhe forem confiadas, retendo-as coladas a si, mas mostrando-as ao mundo com orgulho. Nasceu para isso e apenas lamenta não ter ainda cumprido o seu destino.

A pena rodopia. As ideias fervilham, na sua cabeça, soltas e desgarradas. Sem nexo! Mais uma volta, para encontrar o fio à meada. Ela quer ser perfeita! Fazer tudo bem à primeira. Inexperiente e ingénua, não sabe que a perfeição não existe e que se pode estender em palavras, deixando a criatividade fluir, para mais tarde cuidar, num apuro, que aperfeiçoa, sem tornar perfeito.

A folha estremece. Será o vento ou é um frémito que a percorre ao ver a pena mover-se. Ansiosa, levanta a cabeça e espreita. Primeiro a medo, disfarçando a curiosidade. Depois, abandonando a timidez, olha a pena de frente. O desafio está definitivamente lançado.

A pena reage. Aceita o desafio. Suportada pelo dedo grande e amparada pelo polegar e indicador, lança-se numa correria, como se quisesse recuperar o tempo perdido. É tempo de agir. Começou a criação!

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