O FIM DA LINHA

Sentada na espaçosa varanda com vista para o Tejo, ela sentia o mundo desabar. Tinha atingido o limite das suas forças e, apesar de necessitar de continuar a lutar, sentia que estas a abandonavam e que, também ela, se abandonava à sua sorte. Estava prestes a desistir, entregando-se à doce tentação de colocar um fim a tudo, quando foi chamada à realidade pelo toque da campainha.

Tudo tinha começado há muitos anos atrás…

Ela e o marido, tinham trabalhado muito na vida, sobretudo, depois do revés que havia representado a vinda para Portugal, na sequência da independência de Moçambique. A revolução não os havia favorecido, pois para trás tinha ficado quase tudo o que haviam amealhado ao longo de várias gerações. Tiveram de recomeçar tudo de novo e, aos trinta anos de idade, não era fácil!

Entretanto, vieram os filhos, um casal com cinco anos de diferença, que os encheu de felicidade, mas lhes aumentou os encargos. Felizmente, nessa altura, já eles tinham amealhado um bom pecúlio, que multiplicaram, de forma significativa, com a ida para Angola. Decorrida um pouco mais que uma dezena de anos, era altura de regressar e trazer a fortuna que haviam amealhado, para a investir em Portugal e garantir uma velhice tranquila. Mas o destino, esse senhor traiçoeiro, tinha ideias diferentes sobre o futuro. As provas e dificuldades que lhes estavam reservadas, fariam o comum dos mortais desistir de tudo, até da própria vida.

O sub-prime começava a despontar, nos Estados Unidos, quando a filha e o genro morreram atropelados, num acidente estúpido, como são quase todos os acidentes, deixando a seu cargo um neto de quatro anos de idade. Ver uma filha morrer, ainda por cima de acidente e aos 32 anos de idade, é algo difícil de aceitar e complicado de assimilar. A dor que os assolou foi algo indescritível e exigiu tudo deles! O Marido dela desesperou e foi ela que teve a força e a presença de espírito necessárias para o ajudar a continuar em frente, pois tinham um neto para educar. Francisco, o filho, também ajudou e começou a assumir um papel mais ativo nos negócios, embora não tivesse, nem a energia, nem a capacidade do pai.

À medida que a fortuna deles aumentava as complicações de saúde multiplicavam-se e eles passavam uma boa parte do tempo em hospitais e terapias. Tudo lhes acontecia, sobretudo a ele, que parecia atrair todos os males. Entretanto, regressaram, definitivamente, de África, tendo repatriado uma boa parte do capital, o que lhes permitiu iniciar novos negócios em Portugal.

Quando as coisas pareciam encaminhar-se e logo depois deles terem decidido passar o testemunho ao filho, entregando-lhe a condução dos negócios, sobretudo dos que ainda tinham em Angola, sofreram mais um grande revés. O diagnóstico caiu como uma bomba! Francisco tinha um cancro no cérebro e, o mais provável, era que ficasse com limitações sérias e definitivas. Usaram toda a sua influência e dinheiro para conseguir ajudar o filho, mas este nunca mais voltou a ser o mesmo e Pedro, o pai, teve que abandonar a reforma e retomar os negócios, agora com a ajuda da nora, que não sendo uma especialista, tinha uma grande força de vontade. Marília, mais uma vez, teve de ser o bastião da família e apoiar Pedro, dando-lhe ânimo para que este pudesse retomar, pelo menos em parte, os negócios e, em simultâneo, aceitasse a condição do filho. No entanto, ver Francisco no estado amorfo em que ele passava os dias não era fácil, mas, para além disso, ter de assumir a gestão dos negócios, dificultou ainda mais a tarefa. Foi algo que exigiu deles uma disponibilidade de tempo e mental, que eles pensavam já não possuir e que os obrigou a um esforço hercúleo. Naturalmente, que, aos 74 anos, isso não é uma tarefa fácil de realizar.

Apesar da força mental que ambos possuíam, sofriam com a desgraça que lhes batera à porta e não deixavam de lamentar a sorte que não tinha bafejado nenhum dos filhos. No entanto, eles estavam fadados para muito mais! Quando pensavam que tinham a situação sobre controlo, veio a epidemia! Avós e neto foram infetados, mas foi o Pedro quem fraquejou. Aos 76 anos de idade foi internado, em estado grave, tendo sido necessário induzir-lhe o coma, para permitir debelar as várias infeções que o atacaram, em simultâneo. Ao fim de três meses de luta entre a vida e a morte, ele emergiu do coma como um bebé: sem conseguir controlar funções básicas, como andar, falar, alimentar-se ou fazer as necessidades.  A fase em que ele esteve em coma foi muito dolorosa para Marília, mas a da recuperação, para além de dolorosa foi complicada. Nessa altura, para além do seu próprio sofrimento, teve de lutar, mais uma vez, para convencer o marido a lutar pela sua própria vida. Pedro, depois de desperto, entregou-se a um desespero que o impedia de fazer o que era necessário para recuperar. O desespero e a revolta tomaram conta dele e esses eram os únicos sentimentos que se permitia sentir. Fechou-se em si próprio, bloqueando todo e qualquer esfoço de recuperação, apesar de rodeado de todos os cuidados e dos melhores especialistas. Para o apoiar, ela passou a viver, ao lado dele, num quarto de hospital. Dada a situação de pandemia, que o país atravessava, ela, para ficar ao lado dele, sujeitou-se a uma clausura voluntária, que exigiram a força de um grande caráter e a energia de um amor imenso. Houve muitos momentos em que fraquejou e quase desistiu. Por ironia do destino, encontrou apoio, na força de uma vizinha, que se dedicou a ela de corpo e alma, franqueando-lhe as portas da casa e honrando a amizade que as unia, desde antes da pandemia.

Foram nove meses muito difíceis, mas chegados a novembro de 2021, as coisas pareciam mais uma vez encaminhar-se, pois Pedro evoluía a olhos vistos e já se falava no seu regresso a casa, por ocasião do Natal. O neto que ele vira crescer tinha agora 19 anos e era um dos seus bastiões, mas também isso estava fadado a ter um fim. O destino poderia ter sido mais benévolo, mas parecia achar que ela ainda tinha força para suportar mais uma provação!

No espaço de uma semana a doença tolheu o neto e, no fim, envolveu-o num abraço mortal, que levou consigo o último sopro de vida. Uma simples gripe mal diagnosticada, levou a uma septicémia cuja eficácia foi devastadora. Quando a morte lhe roubou o neto, que ela educara como um filho, Marília chegou ao fim da linha! Isso era mais do que ela conseguia suportar!

 O toque da campainha resgatou-a dos braços do desespero. Não tinha vontade de falar com ninguém, mas ao ver que era Fátima, a vizinha da frente, abriu a porta. Sem necessidade de palavras, Marília caiu-lhe nos braços e chorou. Chorou durante muito tempo, incapaz de articular uma palavra sequer. Quando as lágrimas se esgotaram, Fátima levantou-se e foi buscar-lhe um copo de água. Marília tinha mais 25 anos que Fátima, mas, de momento, era a segunda que fazia o papel de mãe.

«Obrigado filha.» Disse Marília.

Fátima não disse nada e limitou-se a passar-lhe a mão pelo rosto, com um carinho extremo e uma expressão de doçura no olhar. Tinha-se afeiçoado à senhora, a quem tinha passado a ver quase como uma mãe. Isso resultava, em parte, do facto de ter perdido a sua, há mais ou menos 11 anos e de a anciã lhe pagar com o mesmo carinho.

«Tem de ser forte D. Marília.»  Disse Fátima.

A anciã levantou para ela um olhar carregado de um misto de tristeza, dúvida e desespero. O olhar sem vida e a cor pálida do rosto, marcado por olheiras profundas, diziam mais do que mil palavras. O conjunto era a expressão mais pura e elucidativa do sofrimento. Tinha a alma atormentada pelo sofrimento e o desespero tinha tomado conta dela, lançando a dúvida sobre a capacidade de continuar a caminhada da vida. Fátima ficou com um nó na garganta. Foram muitas as palavras que a assaltaram, mas não conseguiu pronunciar nenhuma e, simplesmente, abraçou a anciã. O calor do abraço fez com que o rosto dela se suavizasse e uma torrente de palavras povoou-lhe os lábios.

«Olha, minha filha, eu não sei se vou aguentar tudo isto. São desgraças a mais para uma alma só!»

«A D. Marília tem de ter força. Não se esqueça que o Sr. Pedro precisa de si.»

«Todos têm necessidades e fazem solicitações! Eu tenho estado lá sempre para todos, que precisaram de mim, mas agora sou eu que preciso de alguém. Eu também sou humana!» Disse ela, com desespero na voz.

«Eu entendo. É por isso que estou aqui. Pode contar comigo para tudo.»

«Eu sei filha, mas, neste momento, o que eu não sei é se consigo ter força para ajudar alguém!»

«Tem que ter, o Sr. Pedro precisa de si!»

«O desaparecimento do meu neto, deitou-o completamente abaixo. O retrocesso foi tão grande que vai levar meses a recuperar. Os médicos dizem que ele desistiu de viver. A revolta tomou conta dele, definitivamente e ele só quer morrer.»

«Eu sei que não é fácil, mas a D. Marília tem de o fazer ver que ele tem mais três netos e que é por eles que ele tem de se pôr bom. Ele não pode desistir!»

«Eu sei filha, mas, por um lado ele não me ouve, por outro eu, sozinha, já não tenho força. A verdade é que eu também preciso de um ombro amigo!»

«Entendo. Primeiro vamos de tratar de si. Por isso, a partir de agora, sempre que vier a casa fica connosco. Não quero que fique sozinha nesta casa. Para além disso, sempre que quiser pode ligar-me, sobretudo, quando estiver no hospital.»

«Está bem minha filha!» Disse a ancião consternada e agradecida.

«Em simultâneo, vamos tratar do Sr. Pedro. Amanhã vou vê-lo. Talvez isso o ajude a despertar do estado de abandono a que se entregou.»

Não foi uma visita fácil e a conversa foi muito complicada. A princípio ele mostrou-se insolente, quase mal educado. Depois, a sua expressão amenizou-se um pouco e começou a falar da filha e do neto. Nessa altura, deixou que a emoção tomasse conta dele e chorou durante três horas seguida. Chorou baba e ranho, injuriando a vida e reclamando contra a sua sorte. O sofrimento que aquele homem carregava dentro de si era enorme, mas, felizmente, ao abrir-se tinha conseguido libertar-se de uma parte do fardo. Isso acabou por dar os seus frutos!  Foi uma tarde muito difícil para Fátima, que apenas saiu do hospital ao fim de seis horas. Estava tão cansada que o corpo parecia pesar toneladas e a cabeça parecia querer rebentar de dores. O vizinho e amigo tinha descarregado o seu fardo e ela não conseguiu evitar de carregar uma parte deste. Era a lei da vida!

Já a noite ia avançada quando a D. Marília lhe ligou a dizer que o Pedro tinha registado melhorias e que queria voltar a falar com ela. Fátima voltou ao hospital, dois dias depois e durante as duas semanas que se seguiram, visitou-o quatro vezes por semana. Ninguém conseguiu explicar o que se tinha passado, mas durante o período em que as visitas tiveram lugar, Pedro mudou de atitude e os progressos registados na sua recuperação foram muito superiores aos anteriores à morte do neto. Perante o inusitado da situação, houve quem classificasse a recuperação de milagrosa.

 Com ou sem milagre, Pedro e Marília conseguiram ultrapassar mais uma desgraça e, chegado o Natal, ele estava de volta a casa, tendo celebrado o mesmo com a família da vizinha.  O fim da linha foi transformado em apenas mais um obstáculo que demoraria tempo a ultrapassar, mas cujo processo era irreversível. Tinha sido o milagre da amizade!

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