Resposta – Amor incontornável

Recebi a tua carta, embora, pelo seu teor, perceba que tal não deveria ter acontecido. Se alguém pode esclarecer esse mistério, és tu. Apesar disso, não consegui guardar, apenas para mim, o conhecimento de um amor tão grande como aquele que testemunhei nas tuas palavras.

A surpresa ao ler a tua carta foi tão grande, que me emocionei. Li e reli a carta, vezes sem conta, não apenas para me refazer da surpresa de ser alvo de um amor tão intensamente sentido, mas, também, para tentar entender o que leva uma mulher casada a apaixonar-se assim, por alguém que nada fez para merecer tal sentimento. Conheces a minha vida, pois foste alvo das minhas confidências e sabes que terminei muito recentemente uma relação. Sou um homem formalmente livre, mas o meu coração está preso numa armadilha traiçoeira. Amo alguém que não me ama, ou talvez ame, mas não sabe bem o que quer. Já lutei por esse amor, mas faz algum tempo que decidi, que tal tinha deixado de fazer sentido. Apesar disso, continuo a sofrer. Pois ninguém manda no seu coração! Encontramo-nos, pois, num dilema: amamos ambos alguém que não corresponde a esse amor.

Apesar do que disse, a tua carta não caiu em saco roto e trouxe-me um conforto e uma satisfação, que remetem para um sentimento, que não sei classificar. Não quero, nem criar expetativas próprias, nem dar-te esperanças, sobre o surgimento de qualquer relação entre nós, para além da profunda amizade que nos une. Mas, a verdade, é que a tua carta trouxe algo mais. Sem fazer objetivamente nada para isso, mas sem o conseguir impedir, sonhei contigo de olhos abertos.

Vi-me a teu lado, vivendo momentos que são mais próprios de uma relação de amor, mas imbuído apenas de uma amizade, que colorimos com todas as cores do arco íris. Era noite e, lá fora, o vento uivava, brigando com as árvores e a chuva batia raivosamente contra as vidraças. Sentados no sofá, em frente à lareira, na sala pequena, mas aconchegante de minha casa, tu aninhaste-te nos meus braços e eu recebi-te, vendo o desejo tomar conta de mim. Ergueste os olhos para mim e o teu rosto era um espelho de amor, consumido pelo desejo. Eu senti-me naufragar em ti e os nossos lábios uniram-se, num beijo interminável. Primeiro, de forma suave, depois, devorando-nos um ao outro. As nossas línguas encontraram-se e iniciaram uma dança territorial, tentando impor, ao outro, o seu domínio. Finalmente, cansadas do duelo, renderam-se uma à outra e exploraram os recantos mais íntimos do parceiro. Murmuraste-me palavras loucas e disseste: «Amo-te e quero-te.» Eu, não podendo dizer que te amava, disse apenas: «Quero-te.» Tu olhaste-me novamente com esses teus olhos castanhos, brilhantes de fulgor e disseste: «Então vem.» O que se seguiu, deve ficar apenas no meu pensamento, pois, se escrito, seria digno de constar nos anais do sexo e do prazer. Saciado o desejo, ficamos abraçados, deitados no tapete, junto à lareira, com os corpos suados e apenas cobertos com uma fina manta. Os lábios e as mãos percorriam o corpo do parceiro, extraindo réstias de prazer, que eram memórias ínfimas dos momentos que tinham vivido.

Tomar consciência daquilo que sou capaz de sonhar em relação a ti, deixa-me num estado de ansiedade. Sou verdadeiramente teu amigo e não quero alimentar sonhos impossíveis, nem criar ilusões em ti. Eu não posso dizer que te amo e tu, apesar de o dizeres, és uma mulher casada. No entanto, ser capaz de sonhar, ainda que num sonho platónico, algo tão intenso, contigo, faz-me pensar se existe algum sentir em mim, em relação a ti, que ainda não tenha identificado.

Esta confissão não é um convite para que abandones o teu casamento, pois, se algum dia o fizeres, isso deve obedecer a outra necessidade que não o teu amor por mim, ou o que quer que seja que eu sinta por ti. Sei que amas o teu marido, embora não com a intensidade de outros tempos, por isso, deves dar uma oportunidade séria ao teu casamento e seguir a tua vida. Eu serei apenas e sempre teu amigo, pois não posso dar-te o que tu queres e, em abono da verdade, ainda que pudesse, tu não estás livre para o receber.

Perdoa-me se te magoo com palavras tão francas, que, para um coração que ama, serão seguramente palavras que doem, mas não posso nem devo mentir-te. Para além disso, já vivi dois divórcios e sei o quão doloroso é terminar uma relação, pelo que te insto a que tentes, por todos os meios, manter a tua. A separação deve ser sempre o último recurso e ser ancorada na constatação de que a relação que se pretende terminar, chegou mesmo ao fim e não nas expetativas criadas por outras relações, que poderão muito bem ser meras ilusões.

Despeço-me com o coração apertado, por não poder dar-te o amor que desejavas e tanto mereces, mas com uma amizade do tamanho do mundo e a certeza de que estarei sempre a teu lado, para te ajudar quando as circunstâncias o ditarem.

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