O PAI NATAL DE MÁSCARA

Pedro tinha passado por uma péssima experiência, com a sua primeira companheira, cuja relação terminou num divórcio tumultuoso, que lhe granjeou má fama. Anabela era seu nome. A descoberta de que esta tinha semeado mentiras sobre ele de nada tinha valido: os vizinhos tinham-lhe virado as costas. Apesar de já terem decorrido três anos sobre os factos o estigma mantinha-se. Apesar disso, Pedro, que tinha acabado de completar 35 anos, considerava-se um homem realizado e feliz. Tinha descoberto o amor e o amor tinha-o encontrado.

Logo após o divórcio, tinha pensado em mudar de casa, pois a sua situação financeira tinha melhorado substancialmente e a hostilização dos vizinhos funcionava como um incentivo à mudança. Vivia nos arredores de Lisboa, pois, quando foi viver com a Anabela, que nessa altura estava desempregada, teve de comprar casa numa zona barata. Na verdade, decorridos oito anos a zona tinha-se valorizado muito. No entanto, tinha-se apegado à casa e à zona e até aos vizinhos. Estes não lhe tinham franqueado as portas, mas já o haviam ajudado em várias situações, como quando ele esteve doente, quando fez algumas mudanças ou quando precisou que recebessem as suas encomendas. A verdade é que, apesar de o ajudarem, não viam com bons olhos a sua ajuda, bem como a participação em atividades comuns.

A pandemia tinha vindo alterar o equilíbrio em que as famílias do prédio viviam. Por capricho do destino, dez das doze famílias dependiam de três empresas para garantir o seu sustento. Essa coincidência demonstrou ser fatal, quando, em 2021, essas empresas tiveram de fechar portas, lançando no desemprego a totalidade dos trabalhadores. Nessa altura, Pedro manifestou vontade de ajudar os vizinhos, mas logo no primeiro contacto recebeu uma resposta desanimadora.

«Não obrigado. Nós sabemos de que tipo pode ser a sua ajuda!»

Doeu-lhe muito ouvir aquela resposta, quando o único sentimento que o movia era ajudar os vizinhos a ter uma época natalícia mais condizente com as do passado. Ele não tinha a certeza se aquele vizinho falava por todos, mas tinha que assumir que esse era o caso e que, portanto, eles rejeitariam a sua ajuda.

Mesmo magoado e rejeitado ele não desistiu de tentar ajudar os vizinhos, foi assim que gizou um plano, que partilhou com a sua empregada.

«O Pedro tem um coração de ouro. Os seus vizinhos não merecem que faça nada por eles. Aquele com quem falou, já envenenou os outros, dizendo que você os queria humilhar, oferecendo-lhes uma ajuda insignificante, apenas para se poder vangloriar do facto.»

Pedro recebeu a informação como quem leva uma facada, mas ainda assim não desistiu. Ele não precisava da publicidade e, portanto, poderia ajudá-los de forma anónima. Foi assim que a ajuda apareceu. Um supermercado, bem conhecido, ligou para todos os vizinhos informando-os que estes tinham sido sorteados para receber um cabaz de natal. O cabaz equivalia a três carrinhos de supermercado e tinha mantimentos não apenas para a ceia, mas suficientes para sustentar cada família quase por dois meses. Entretanto, a empregada dele, que era uma pessoa respeitada, pôs-se em campo e indagou sobre as necessidades de crianças e adultos, tendo elaborado uma vasta lista de roupas, material escolar e brinquedos, cujo valor ultrapassava a dezena de milhares de euros. Pedro encarregou-se de comprar tudo e guardou os artigos em sua casa.

Cada um dos vizinhos quando recebeu o cabaz, ficou eufórico, tendo guardado o facto só para si. No entanto, não tardou muito a aperceber-se que os restantes também tinham recebido, o que era deveras estranho. Entre todos, conspiraram para perceber a razão e o supermercado acabou por lhes dizer que, por detrás daquela ação benemérita, existia um benfeitor, cujo nome não podiam divulgar.  O cabaz tinha mudado o semblante e a disposição dos vizinhos, que estavam mais simpáticos e positivos, mas nada os havia preparado para o que se iria passar na noite de Natal.

Eram 23 horas, em ponto, quando dez pais natal, saídos da casa de Pedro, carregando cada um deles um saco enorme, tocou à porta de cada um dos vizinhos.  

«Oh! Oh! Oh!»

O som ecoou pelas escadas do prédio, assim que os vizinhos abriram a porta, surpresos com a presença do pai Natal. A única porta que não se abriu foi a da vizinha da frente. Tratava-se de uma senhora idosa e reformada, que tinha recebido a visita do filho e dos netos e que, felizmente para ela, não precisava de ajuda, embora se tivesse lamentado de a não ter recebido. Ela era uma das maiores detratoras de Pedro, por isso, foi de olhos arregalados e boquiaberta que viu, pelo óculo da porta, os pais natal saírem carregados de prendas do apartamento do vizinho. Somando uma coisa à outra, ela percebeu que tinha sido Pedro a ajudar os vizinhos, apesar de estes o ostracizarem. Nesse momento, sentiu um arrependimento tremendo e, tomada de um grande espírito natalício, prometeu a si própria reparar todo o mal que tinha feito ao vizinho. Acontece, que o filho tinha alguns conhecimentos e, recorrendo a estes, conseguiu provar que o benemérito, por detrás da oferta dos cabazes, tinha sido o vizinho da frente.

Na posse de tal informação, reuniu os vizinhos todos na sala de condomínio e explicou-lhes o que se tinha passado. A emoção tomou conta do grupo e o arrependimento gerou logo ali uma concordância: tinham de agradecer, de forma conveniente, ao vizinho. Não havendo muito que podiam fazer, em termos financeiros, decidiram fazer um lanche, nesse mesmo dia, na sala de condomínio, em que todos os vizinhos colaborariam e Pedro seria o convidado de honra. À falta de dinheiro davam a sua amizade!

«Temos que lhe oferecer algo, ainda que seja simbólico.» Disse a anciã.

Todos concordaram e coube ao filho dela a missão de fazer a compra. Pedro adorava cascóis tendo uma boa coleção deles. Um dos vizinhos lembrava-se de o ter visto admirar um cascol, numa loja do cento comercial ao lado. Este apenas não o tinha comprado, porque a loja estava fechada. Era uma peça que não era barata, mas dividido por dez eles conseguiam custeá-la.

A meio da tarde Pedro ouviu o toque da campainha e levantou-se do sofá curioso. Tinha passado a véspera de Natal ocupado e o almoço foi com a família da namorada, mas tinha regressado cedo com ela. Queria ter alguns momentos de paz, depois da azáfama de preparar o Natal dos vizinhos. Estava verdadeiramente feliz, sobretudo porque só ele e a sua fiel servidora sabiam o que tinha feito. Nem a namorada sabia das suas aventuras natalícias.

Quando pedro e a namorada entraram na sala do condomínio, os vizinhos irromperam num aplauso ensurdecedor, ao qual se seguiram os agradecimentos e os pedidos de desculpa. Pedro e a namorada foram convidados a tirar a máscara e a partilhar a refeição com estes. Pedro emocionou-se e a plateia emocionou-se com ele. Foi um momento inesquecível que tornou o seu Natal único. A namorada, que já o amava e admirava, passou a idolatrá-lo. Não era comum alguém ter a capacidade de dar a outra face daquela forma: ajudar mesmo os que nos querem mal!

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