TAKE 3 – AMOR INCONTORNÁVEL

Só depois de receber a tua carta percebi que, de alguma forma, ainda não entendível, a confissão do amor que sinto por ti, tinha deixado de ser um exclusivo do meu coração. Mil perdões, pois nunca foi minha intenção dar-te conhecimento da profundidade de tal sentimento, do qual é muito provável que já suspeitasses. Apesar do pedido de desculpas que te devo e que reitero, eu fui, seguramente, a pessoa a quem esse ato provocou maior dor.

Este sentimento, que me possui e transtorna, vivia fechado dentro de mim. Reprimido e abafado, vivia tomado pelo pavor de ser descoberto, de ter de assumir as consequências de se assumir. Isso fazia com que se calasse, sempre que o reprimia e se reduzisse à insignificância que a minha razão dizia que ele tinha. Depois de receber a tua carta, o sentimento tornou-se avassalador e, qual equino selvagem, cavalga livre pelo meu ser, invadindo sonhos e realidade e fazendo de mim sua escrava.

São vãs as minhas tentativas de o chamar à razão e de lhe mostrar que está condenado, como acontece a todos os amores não correspondidos. No entanto, ele tornou-se surdo a qualquer apelo e alimenta-se de mim, sem perceber que este caminho apenas pode terminar na minha perdição. Vive de forma inconsciente e irresponsável, ignorando, de forma ostensiva, o facto de eu me esvair em dor e sofrimento a cada dia que passa. Será que ele não percebe que o meu fim o aniquila a ele também?

Dantes deixava-o viver nos meus sonhos e, neles, eu ainda alimentava a esperança, só possível em sonhos, de que um dia podias ser meu. Deixava que essa ilusão conduzisse os meus sonhos e com isso vivia momentos de pura fantasia, mas de uma felicidade extasiante. Hoje, consciente de que apenas me podes dar amizade, sofro de uma forma indescritível, pois nem em sonhos posso fantasiar com o teu amor. Ofereces-me amizade e eu sei o quão preciosa esta é, mas o meu ser revolta-se e protesta empurrando-me para a rejeitar, pois é uma amizade que me mata. Estar a teu lado e até receber um pouco da tua atenção, mas saber que nunca te terei nos meus braços e que os teus lábios jamais acariciarão os meus, é tão doloroso que prefiro a distância a uma proximidade que me destrói.

A rejeição dói-me mais do que mil facadas. Dói-me tudo. O coração rebenta, dentro do meu peito, numa explosão de sofrimento. A cabeça quer rebentar de tanto martelar o mesmo pensamento e o sono deixou de me visitar todas as noites. Passo-as em vigília, tentando imaginar mil formas de te fazer amar-me. Sei que tudo isso não faz sentido, mas não consigo interromper esta torrente de pensamentos e este sentir avassalador, que consome todas as minhas energias. Cada dia estou mais cansada e a energia e boa disposição de outrora esfumaram-se, como que por magia, no dia em que recebi a tua carta.

Sinto que estou a ficar louca, pois existem momentos em que o meu pensamento cria uma realidade paralela. Uma realidade em que o nosso amor é possível. Uma realidade em que tu me amas, tanto como eu te amo a ti e, por breves instantes, sou invadido por uma felicidade extrema, que apenas é igualada pelo sofrimento do contacto com a dura realidade. Isso acontece no momento em que desperto e percebo que apenas vivi um sonho. Um sonho bom, que ao terminar se transforma num pesadelo.

No entanto, enquanto sonho, meu Deus… tu não imaginas a dimensão, a profundidade e a generosidade deste amor. É um amor que vai dar cabo de mim, antes de ter a oportunidade de te mostrar o que poderia fazer por ti. Eu sonho com o teu toque, não com uma carícia de amigo, mas com aquele toque que faz despertar o desejo e me dá um prazer tão grande, que era capaz de dar a própria vida, para o sentir uma única vez. No entanto, sonho. Sonho que me tocas uma e outra vez e que eu expludo de prazer, de uma forma descontrolada, que toma conta do meu corpo e se manifesta em espasmos e convulsões. Finalmente, consigo adormecer por um par de horas e quando acordo o sofrimento volta com a mesma intensidade, magoando-me ainda mais, pois põe a nu a impossibilidade do sonho e mostra-me o quão dura é a realidade. Talvez, por isso, fuja dela tantas vezes e viva numa outra que me permite criar a ilusão de que posso ser feliz a teu lado.

Estou perdida. Estou perdida na vida e até nesta carta, que os meus dedos escrevem, quase de forma autómata, com o coração ditando as palavras, pois a razão, essa enlouqueceu e já nada consegue fazer para evitar que este amor insano me possua. Incapaz de lidar sozinha com esta rejeição, busquei ajuda e a conclusão mais óbvia é que tenho que fugir deste amor. Começarei por me afastar de ti. Mudarei de emprego e deixarei de ser tua amiga nas redes sociais. Não posso saber nada de ti, se quero mesmo conseguir restaurar a minha sanidade mental. Na verdade, esta carta foi o meu primeiro passo. Estou a exorcizar a minha dor, pondo no papel o amor, o sofrimento, a fantasia e a dualidade que hoje habitam em mim.

Desculpa se te vou fazer ler tudo o que aqui escrevi, mas sei que como meu amigo irás entender e que, se algum dia eu conseguir voltar ao teu contacto, me irás receber de braços abertos. Peço que não te culpes por nada do que sinto ou do que estou a passar, pois nada foi provocado por ti. Fui eu que te amei sem que pedisses que o fizesse e fui eu que declarei um amor que sabia ser impossível. Obrigado pela tua amizade e sinceridade, mas, de momento, apenas posso aceitar a segunda.

Tua para sempre.

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