AMOR ATORMENTADO

Vivo atormentado por este sentimento. Esta dualidade que alimenta a minha indecisão, deixando-me num purgatório que parece não ter fim. Sou uma mulher casada e, durante 15 anos, fui completamente feliz.  Ainda hoje, não posso dizer que sou infeliz ou que não amo o meu marido. Apesar disso, tu conseguiste abrir uma brecha na muralha que era o meu casamento e instalar a dúvida no meu coração. Continuo a amar o meu marido, disso não tenho dúvidas, mas passei a amar-te a ti também. Esta dualidade não é equilibrada e se colocasse cada um dos amores, nos pratos opostos de uma balança, ela iria inclinar-se para o teu lado. Pois, o amor que sinto por ti arrebata-me, num convite à loucura, exigindo que deixe tudo e todos para me entregar a ti. A razão, essa é mais prudente e, qual raiz de uma árvore secular, prende-me à minha relação atual. No entanto, sei que bastaria um sinal teu, para eu deixar tudo e correr para os teus braços.

Por mais que tente, não consigo pôr fim a este amor imenso que, simultaneamente, me arrasta num sofrimento sem fim e mantém o meu coração vibrante, de raros momentos de felicidade. A tranquilidade do meu lar deixou de ser suficiente e, apesar de fisicamente presente, a minha mente ausenta-se com frequência, para estar contigo, ainda que seja só em pensamento. Sinto que vivo numa meia verdade, pois a verdade inteira só seria possível a teu lado. Já pensei, vezes sem conta, colocar um fim à minha relação atual, ainda que suspeite que o amor que sinto por ti não é correspondido. Seria mais verdadeira comigo mesma e demonstraria a coragem, que aparentemente me falta, para assumir a rotura. Depois, a imagem do sofrimento que causaria à minha família assume uma dimensão insuportável e pergunto-me se uma vida solitária, seria compensação suficiente para me levar a causar tal sofrimento a pessoas que amo tanto. A resposta não é favorável. Eternizam-se a indecisão e o meu sofrimento.

Quando estou a teu lado, o meu ser vibra e a coisa mais insignificante, feita contigo, dá-me um prazer e uma satisfação indescritível, por oposição à vida quotidiana e rotineira do meu dia a dia, onde tudo é cinzento e as coisas deixaram de ter o significado de outrora. É por isso que anseio pelos parcos momentos que passo a teu lado. Por mais pequenos que eles sejam, eu consigo ampliá-los e dar-lhes um significado e uma dimensão, que os transformam tornando-os como uma segunda vida. Vivo, então, duas vidas: uma real e outra virtual.  Na vida virtual tudo é possível e os sonhos tornam-se realidade para me dar o prazer e a satisfação de viver este amor imenso.  Então o milagre acontece e, mesmo de olhos abertos, sonho.

Sonho que vivemos uma vida a dois e que as barreiras que nos separam desapareceram, como a neblina levada pelo vento matinal. Sonho com os dias quentes de verão e passeios à beira mar, sob o sol escaldante. De mãos dadas, deixamos que o sol bronzeie os nossos corpos, enquanto os nossos pés deixam marcas na areia, que as ondas se apressam a apagar, como que recordando que isto é apenas um sonho. Só que o calor do sol é tão real e o balancear das ondas, que nos banham os pés, tão refrescante, que é difícil resistir a este sonho.

Sonho que vemos o sol esconder-se no horizonte, não por ter vergonha de nós, mas porque cumpriu a sua missão e é ansiosamente aguardado no outro hemisfério, tal com a realidade me espera depois do sonho. O céu pinta-se de várias cores, que parecem gritos, anunciando que o sol se aproxima do ocaso e que as sombras da noite não tardarão em lançar o negrume, sobre o colorido do meu sonho. Mas o sonho continua. Abraçados, regressamos a nossa casa: uma cabana de madeira sobre as dunas. É tão adequado e tão cliché: um amor e uma cabana! Eis que o negrume da noite nos mostra a beleza da abóbada celeste e as estrela, pequenos pontos cintilantes, brilham indicando-nos as mil possibilidades que o nosso destino pode assumir. Depois, o luar prateado vem encher a noite de mistérios. De um lado, a luz, do outro a sombra. O fresco da noite aproxima-nos e os nossos corpos tocam-se. A paixão contida até aí, por algo invisível e indescritível, incendeia-os e eles entregam-se um ao outro, na azáfama de satisfazer o desejo e de dar prazer. Oh, Deus! Como pudemos resistir a um prazer tão belo e tão sublime. Os corpos nus e transpirados, unem-se e separam-se, uma e outra vez, incapazes de se controlar e possuídos de uma vontade própria. Vivem num mundo sem lei, nem regras, para além da satisfação da necessidade que sentem um do outro. Depois, adormeço nos teus braços e acordo numa outra realidade.

Este é o meu tormento. Sonhar com uma vida e viver noutra, qual suplício de Tântalo. Desesperada e sem saber como sair da armadilha que o meu coração me armou, escrevo estas palavras, que partilharei contigo. Desconheço se a tua resposta vai conseguir resolver o problema, mas a clarificação da tua posição irá, seguramente, ser uma ajuda importante. Diz-me o que sentes por mim, sem receios nem rodeios, na certeza que, independentemente da dor ou da felicidade que a tua resposta traga consigo, ela será um elemento primordial para a definição do meu futuro.

Tua para sempre!

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