UM OLHAR

Ela olhou à sua volta, procurando decidir onde iria estender a toalha. Gostava de chegar à praia cedo, por isso, o seu dilema não era a falta de espaço, mas o excesso deste. A maré estava a subir e isso levou-a a escolher um local, calculado de forma a não ser perturbada, pela maré cheia. Espetou o guarda sol, mantendo-o fechado, pois a sua sombra ainda não era requerida. De um lado deste, colocou a toalha, do outro, a saída de praia, reservando o lugar para a prima, que se juntaria a ela à hora do almoço.

Com gestos lentos, desnudou-se, deixando à vista um bikini vermelho, asa delta, que evidenciava as suas formas. Rute era uma morena, de estatura mediana e formas curvilíneas. Não tinha a silhueta de um manequim, mas possuía uma sensualidade própria, que normalmente exigia aos homens um segundo olhar. Os cabelos longos tapavam-lhe os ombros e cobriam-lhe parte das costas, emoldurando-lhe um rosto de maças vincadas, nariz ligeiramente arrebitado e lábios carnudos. O som da mensagem chamou a sua atenção e ela pegou no telemóvel. A leitura arrancou-lhe um sorriso, seguido de uma gargalhada. Era um sorriso muito cativante, que lhe emprestou ao rosto uma beleza inesperada. Queria bronzear-se, pelo que apanhou os cabelos num carrapito, que lhe expunha o pescoço, aumentando ainda mais a sensualidade.

Relaxou, estendida na toalha e acabou por adormecer, sendo acordada, pouco depois, pelo telemóvel.  A manhã esfumou-se entre mergulhos, intercalados por um curto passeio e alguns minutos de sono. Era bom estar de férias! Apenas lamentava o facto de Artur não estar ali, ao lado dela, mas era ele quem ficava a perder. A relação já vira melhores dias, mas ela tentava, ou pelo menos achava que o fazia, encontrar um ponto de entendimento. No entanto, a insistência dele em não a acompanhar para lado nenhum, estava a fazer com que esta evoluísse, rapidamente, para um desfecho contrário ao seu esforço.

A prima chegou e com ela desapareceu o clima de tranquilidade em que tinha passado a manhã. Rute adorava a Maria, mas a prima não tinha filtro nenhum naquilo que dizia, para além de estar sempre com uma boa disposição que chegava a irritar. Era uma mulher de gargalhada fácil e espírito crítico, mas completamente desbocada. Foi no meio de gargalhadas sonoras, que se dirigiram para o restaurante. Elas conheciam bem o local, pois fazia alguns anos que frequentavam aquela praia. Também já conheciam o pessoal, porque desde o início de verão, que iam ali todos os fins de semana.

Ricardo já tinha reparado na jovem. Também já tinha reparado que ela vinha sempre na companhia da filha, da prima ou das duas, mas nunca na companhia de um homem. Também não usava aliança, pelo que a dedução de que se tratava de uma mulher livre foi inevitável. Apesar de tudo isso, ela apenas tinha despertado a curiosidade dele, como muitas outras clientes. Naquele dia, ela ao entrar soltou uma gargalhada sonora que lhe entrou pelos ouvidos de forma diferente. Era como se tivesse sido percorrido por uma corrente elétrica, que o fez estremecer, dando-lhe uma sensação de prazer estranha, mas saborosa. O colega sentou-as numa mesa e ele pegou no menu e dirigiu-se para a mesa que elas ocupavam.

Rute levantou a cabeça e olhou o homem. Ela já o tinha visto muitas vezes e era um facto que as barbas, a cabeça rapada e as tatuagens, lhe conferiam um conjunto de caraterísticas, que eram do seu agrado. Para além disso, era possuidor de um físico invejável, que deixava adivinhar a prática sistemática do exercício. Os seus olhares cruzaram-se e algo de muito estranho aconteceu. Ela ficou a olhá-lo como se estivesse hipnotizada e ele estancou, olhando-a de uma forma penetrante, mas sentindo que o olhar dela invadia a sua intimidade. Foi um momento de comunhão raro e inexplicável.  Rute não lhe conhecia o rosto pois nunca o tinha visto sem máscara, pelo que o homem estava em vantagem, uma vez que ela tinha de tirar a máscara para comer.

Quando ele poisou a ementa sobre a mesa, as mãos deles tocaram-se sem que tenham percebido quem fez o movimento de aproximação. O choque elétrico apanhou-os de surpresa. Retiraram as mãos apressadamente, não sem antes sentirem o corpo ser percorrido por uma descarga eletrizante, que lhes deixou os pelos eriçados. Voltaram a olhar-se e num só olhar entregaram-se um ao outro, sentindo uma ligação e uma necessidade de se conhecerem avassaladoras. Rute sentia que fazia parte da vida dele desde sempre. Sentia que entre eles existia uma ligação, que parecia vir de outras vidas e outros mundos, pois nesta eles acabavam de ter o primeiro contacto físico e, mesmo esse, não passara de um mero toque de mãos. O almoço prolongou-se mais do que era costume e elas beberam mais do que era habitual. No fim, ficaram um pouco à conversa com ele. Rute ao saber que ele era divorciado e tinha uma filha, situação idêntica à dela, sentiu que o círculo se fechava e que eles estavam em perfeita sintonia. Ele parecia sentido com o facto de ter sido abandonado pela mulher, deixando no ar o crime de traição e Rute deixou-se emocionar.

«Posso abraçar-te?»

Ele acenou com a cabeça e abriu os braços para a receber. Ela apertou-o com força, deixando-o sentir o batimento acelerado do coração e os tremores que lhe sacudiam o corpo. Ele segurou-a de forma gentil, mas firme, fazendo com que ela se sentisse segura. Foi com muito custo que se afastou dele. Precisava de ir libertar alguns líquidos e dirigiu-se às traseiras do edifício. O WC ficava na cave do restaurante, mesmo ao lado da zona que os empregados usavam para se trocar. Quando ela saiu, ele estava com a mão na maçaneta da porta da zona dos empregados. Ela ficou parada a olhar para ele e apesar de estarem os dois de máscara o olhar que cruzaram dizia tudo. Ricardo segurou-lhe na mão, gentilmente e ela encostou-se a ele voluntariamente. As máscaras desapareceram, como por magia e o beijo foi escaldante. As mãos dele percorreram o corpo dela, de forma vorás e acariciaram-lhe a zona íntima. Ela, ao sentir o contacto, colou-se ainda mais, desejando que ele entrasse dentro dela. Nesse momento, a prima chegou e ao ver a cena, não se conteve.

«Então e o Artur?»

Ricardo, ao ouvir o comentário, afastou-a de forma brusca e olhou-a de forma estranha. Quase com desprezo. Depois, sem dizer nada afastou-se dela.

Nos dias que se seguiram, ele não marcou presença no restaurante.  Quando Rute indagou por ele, disseram que o Ricardo apenas tinha vindo trabalhar uns dias para ajudar o dono.

«O dono deixou de precisar de ajuda?»

O colega encolheu os ombros. Aparentemente, algo lhe tinha desagradado no dia anterior, porque ele disse que não voltaria. A justificação foi simples: não era capaz de conviver com traições! Rute baixou a cabeça e segurou-a entre as mãos. Apenas tinha vontade de chorar. Sentia que tinha perdido algo inestimável. Algo que a podia completar. No entanto, não podia culpar ninguém por isso. Ela era a única responsável!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s