FUGA

As pessoas foram regressando, a seguir ao almoço, de acordo com a cadência com que se tinham ausentado para o repasto. O escritório estava calmo e tudo fazia adivinhar mais uma tarde como tantas outras: trabalho puro e duro. O pedido para abrirem as janelas, veio com o alerta de que existia uma fuga de gás. A partir daí, os acontecimentos precipitaram-se de forma vertiginosa.

Algumas horas antes, o dia tinha começado de forma diferente para cada um dos trabalhadores do edifício. Elisa chegou ao escritório cedo. Mal podia esperar para lhes contar sobre as cavalgadas do fim de semana. Andar a cavalo era algo que colocava um brilho muito especial nos seus olhos, fazendo com que esquecesse que fazia algum tempo que estava sozinha. Isso não a incomodava muito, pois desde que se havia divorciado, fazia dez anos, que não voltara a ter uma relação verdadeiramente séria. No princípio, tivera apenas romances passageiros, mas quando a filha teve idade para entender as necessidades dela, ela levou as aventuras para dentro de casa e já tinha vivido, por períodos breves, com três companheiros diferentes.

O Afonso e o Bernardo chegaram quase em simultâneo. Os primeiros vinte minutos eram sempre de chalaça, sobretudo à segunda feira, como era o caso. Eles brincaram partilhando as aventuras do fim de semana e Elisa brilhou ao mostrar o vídeo de uma cavalgada. Efetivamente ela era uma profissional.

«Tu cavalgas assim em todas as situações?» Perguntou o Afonso, com um sorriso matreiro.

«Isso querias tu saber! Uma coisa é certa, o cavalo obedece-me sempre e nem tenho de usar o chicote.» Respondeu Elisa, no mesmo tom.

Depois de mais alguns comentários brejeiros, eles envolveram-se no trabalho e só se aperceberam de que eram horas de almoço quando as pessoas começaram a aquecer as refeições na copa, que ficava ali mesmo ao lado. Cada um foi tratar do seu almoço e, por volta das 14:30, Bernardo e Elisa estavam os dois a tomar café, na mesa de trabalho, quando a secretária residente, do piso sete, chegou esbaforida e lançou o alerta. Eles, apesar de não sentirem cheiro nenhum, abriram as janelas e foi quando apanharam o choque: do exterior vinha um cheiro intenso a gás. Ambos de cabeça de fora foram trocando comentários com os vizinhos da janela de cima e da janela de baixo, brincando com a situação. Quando chegou a ordem de evacuação, eles levaram o alerta de fuga de gás a sério e desceram a escadaria de forma ordeira. Já com os ocupantes todos no exterior o edifício foi isolado, juntamente com os adjacentes, e os ocupantes foram colocados do outro lado da rua. O aparato policial, dos bombeiros e da proteção civil, era impactante. As televisões não tardaram em aparecer, mas rapidamente partiram sem dar relevo à notícia, pois tratava-se apenas de uma fuga, insignificante, de gás.

Estavam há pouco mais de dez minutos, na rua, quando o olhar de Elisa se cruzou com o do bombeiro. Foi atração à primeira vista! O Bernardo e o Afonso, que quando chegou do almoço já apanhou toda a gente na rua, perceberam o interesse dela e exploraram a situação o melhor que puderam. Os comentários sobre a forma de colocar Elisa em contacto com o bombeiro apareciam em catadupa, mas nada a incomodava. Os olhos dela brilhavam de lascívia e o nervosismo fazia com que fechasse e abrisse o éclair do casaco de forma incessante.

«Apesar de não ser careca, até é bem bonito.» Dizia ela, com os olhos a brilhar.

«Bonito sou eu.» Dizia Bernardo, com ar zombeteiro.

«Tem um bom corpo para levar umas palmadinhas!» Voltava ela.

«Olha que ele já tem uma barriguinha!» Retorquia Bernardo, com expressão de gozo.

Entretanto, eles já trocavam olhares faiscantes e, fosse outro o contexto, algo diferente poderia estar a acontecer. Elisa tinha percebido que ele usava aliança e isso refreou-lhe um pouco a vontade, no entanto, se ele lhe desse um sinal ela avançaria. Era uma mulher descomprometida e, portanto, nada a impedia de se divertir um pouco, embora a incomodasse o facto de ele o não ser. Duas horas depois, o edifício foi dado como isento de perigo e os trabalhadores puderam regressar aos seus postos de trabalho. Tinham sido duas horas de flirt e troca de olhares faiscantes, que ela não queria desperdiçar, sem uma última tentativa. Elisa entrou no edifício, mas ficou-se pelo hall, enviando uma mensagem à prima para lhe ligar urgentemente. Quando recebeu o telefonema foi para a rua. Do outro lado da linha, a prima ria e gozava a com a situação, ao mesmo tempo que Elisa não tirava o olhar dele e lhe ia descrevendo as reações do bombeiro. Foi nessa altura que eles tiveram “o momento”. A troca de olhares foi mais intensa e eles ficaram presos um no outro.

Sem pensar, convergiram para o mesmo ponto: o quiosque de jornais que existia a alguns metros do edifício e não foram necessárias palavras. Elisa desligou o telefone e o beijo aconteceu. Primeiro foi apenas uma carícia nos lábios. Depois, entregaram-se a um beijo furioso, onde descarregaram todo o desejo que sentiam. Ela tinha desapertado o casaco e as mãos dele acariciaram-lhe o corpo, por debaixo da blusa, com sofreguidão, até atingirem a zona íntima. Ela acolheu-o com um gemido e acariciou-lhe o sexo sem pudor. Elisa tremia de prazer e excitação. Estava tão fora de si que era capaz de se entregar a ele, ali mesmo. Estavam ambos loucos e isso tornou-os inconscientes do que estavam a fazer e, sobretudo, onde o estavam a fazer. Estavam encostados à parede do quiosque, em plena luz do dia e tinham-se esquecido do mundo!

«Francisco estás a dar espetáculo. Não podes fazer isso aqui!»

O comentário foi feito por um colega, que era, simultaneamente, o seu melhor amigo e quebrou o encanto. Eles recompuseram-se e Elisa foi-se embora, sem dizer uma palavra. Caminhou apressada em direção ao escritório. Estava com o coração aos saltos de emoção e com o corpo a tremer de desejo, mas também um pouco envergonhada. Aquilo que tinha feito era uma verdadeira loucura. Uma loucura inconsequente, pois nem se quer tinha ficado com o contacto dele. Tudo por causa de uma fuga. Não da fuga de gás, mas da fuga da sua própria vida!

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